sexta-feira, 25 de novembro de 2016

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA

[pra morrer basta estar vivo/ mas eu já havia morrido de estranheza]



Por certo cabe ainda perguntar: como um livro de poesia pode voltar a ser um acontecimento? Um romance? Uma peça de teatro? Quando se voltará a ter o escritor ligado à interioridade, a nós mesmos e à vida? Talvez agora sem a profusão dos editais e dos Planos e Sistemas de cultura operados pela grande máquina do Estado, algo se nos dará o ofício lento dos livros - abertos fechados rasgados sublinhados sujos de cinza de cigarro, da experimentação de linguagem, pensamento, sensações. Talvez o que precisássemos para que o conflito, muito mais do que o encontro frugal “literatura livro leitura”, se distendesse por sobre outros novos territórios e horizontes possíveis, é que voltássemos a ter tempo – não mais voltar no tempo, não mais ir arrancar nas distâncias o tempo perdido, mas tão-somente “tempo”. Tempo para não fazer nada. Escrever/ler/escrever. Repouso e inércia. Que outro ciclo de desenvolvimento pode abreviar esse? Um tempo para estar sozinho. Hoje trata-se amplamente o livro como objeto, produto, atração. Mas era preciso pensar o silêncio do livro muito mais do que seus ecos. A liberdade em torno do livro e sua orfandade.



Quando Franz Kafka publica os oito contos que irão compor Contemplação, na revista Hyperion (Munique, 1908), está na companhia de ninguém menos que Rilke, Hofmannsthal e Heinrich Mann. Na companhia, com certeza é uma afirmação que não procede, melhor dizer, órfãos que não se prestaram muita atenção. Mas que se renderam a algo maior que eles. Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Ezra Pound. Outra trindade dissonante e insólita, posta no mesmo terreno de caça, em Paris, e com graves problemas de adaptação. Tempos de muito engajamento e muita frustração. No mesmo plano, em Belém, Paulo Plínio Abreu, Mário Faustino e Max Martins, aproximam-se e convivem na estranheza em conjugação com um modelo de recusas e negações que a escrita estabelece e faz atravessar, cada um a seu modo. Entre eles transfigurou-se ainda outra personagem dos abismos, o poeta norte-americano Robert Stock. Todos escreveram enfiados debaixo da terra. Nas trevas e nas grandes aventuras. Todos participaram nisso. Uns com os outros. Uns contra os outros. Com amizade. Com rivalidade. Experimentando e arrastando o assombro do mundo até nós. Como algo que não seja daqui, mas de mais além.






Ney Ferraz Paiva
Imagem: Georgina Goodwin


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