Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

quarta-feira, 29 de março de 2017

Poesia para um filme sem rumo certo

Edição de 2003, pela editora Francis.

eu fui artista de teatro, conhece teatro?, pois é, eu fui um artista, um ator… Harmada, João Gilberto Noll

Gosto do João Gilberto Noll de Harmada (Francis, 1993). Da chuva caindo, da chuva que acreditamos ter caído na véspera, evanescente, torrencial, devastadora e fatal. “Aproveitar a terra que virou lama depois do temporal”, diz o personagem, misturado à terra, à água, à lama, ao matagal, enrodilhado em volta de um tronco, a um passo de virar um animal. A experiência de ser arrancado, expelido, dissolvido de si. Tomado pelo escuro da terra. O assombro e o prazer da noite, vento, bruma, o que mais? Uma misteriosa escrita ativada por lâminas de imagens em ziguezagues, blocos desviantes, passagens planas fatiadas. Como resgatar um animal da água? Opera-se o desmembramento dos fatos, registros, acontecimentos. Aquele que teria sido ator — teria sido apenas o que representava de si a cronologia amesquinhada de a cada movimento recorrer à datas e horas e fotos nas paredes? Ou aquele ator entraria no roteiro aleatoriamente? O fluxo das imagens multiplicado ao ritmo tenso, como se auxiliado por um disparador automático, formando um mosaico. Seria isto uma escrita encenada — fotografada par a par com a narrativa? João Gilberto Noll gera em Harmada um campo magnético capaz de interagir com qualquer outra linguagem também magnetizada, num estado próximo à intimidade e à dispersão. Neste país ou cidade — Harmada — há mentiras, segredos e farsas; todos os sinais de vida sugados para fora das janelas, dispersando a todos. A cidade atrai e repele. Não é uma estrutura apenas para harmonizar paisagens, construções e indivíduos de acordo com as leis do acaso e da sorte. Sabe-se para onde ir, mas não se tem exatamente a certeza de onde se pode chegar. E tudo que não se viabiliza nesse transcurso é a elaboração de mapas. Antes a fadiga, o adormecer:

“e o sono sobrevinha a tudo, e a vigília agora não era mais do que águas passadas”.

Aquele ator trancafiado no asilo, albergado, retirado de circulação. Para ele não há caminho mais curto entre dois pontos. Direções interrompidas. Sônia, Amanda e Cris impregnadas no pequeno quarto de hotel; o terreiro de galos de rinha; o escritório de representação comercial, e aí Jane, o casamento, os filhos a que esse ator e homem de entrecortantes palavras não pode ter… As intempéries que conhecera até ali.

“Eu era aquele homem no espelho, eu era quase um outro, alguém que eu não tivera a chance de conhecer”.

Aquele ator estagnado sob inúmeros aspectos. Alguns pequenos extras constituem a expressão máxima do caminho tomado por ele. Aquele ator, um canastrão… Por um lado, os tipos típicos de atuações que permaneceram inalteradas — paradas no tempo do herói cercado por fantasmas à espera de uma saída que nunca veio. Por outro lado, se ligarmos falas e pontas, teremos talvez um plano ousado de atuação de um norte que há muito não é visitado:

“eu era então tomado por um desprezo absoluto pelo sofredor”, “eu sou um homem mau”, “há de tudo sobre a Terra, inclusive eu”.

Falas de um personagem associado ao misererere nobis de um teatro de racionamento e impossibilidades as mais diversas. Um prisioneiro de circunstâncias. Aquele ator é o próprio teatro. Quase sempre como o circo, o mais pé-rapado dos mambembes. O que tem a ver com a forma que a cultura trata o artista. E o que pode ser a arte. Nesse ponto fugidio do livro até mesmo os cães se tornam memorialistas e recordam se poderia ter ocorrido a evolução a que o autor recorreria para resgatar as linhas tortuosas de sua escrita, e como reorganizar isto com um personagem à beira do desastre? Com a ruptura entre fato e ficção? De volta a Harmada, chegaria a hora e a vez de acertar do personagem? Ele e uma Cris reencontrada. Seria, então, ela o incomparável que lhe acontecera? Seria? Ou bem ao contrário, ela o paradoxo, a contradição? Cris juntou a ele a sua voz, nada mais que pudesse conciliar ou limitar os estragos em que ele está metido.

“eu talvez esteja metido em uma espécie de morte, digamos desta maneira, de morte, mas que é apenas um estado mínimo, extraordinariamente concentrado, e que mesmo sendo invisível como um grão de poeira no escuro, atrai, atrai os outros corpos, e nesta atração todos os componentes se chocam e se atritam tanto, que das fagulhas provenientes destes choques e atritos nascem outras galáxias que gerarão outras através da sempre mesma atração e repulsa dos corpos…”.

Com efeito, os caminhos entrechocam-se, precipitam-se, o que nos tornamos, o que podemos pensar em ser, tamanha é a vontade de viver rigorosamente o mesmo momento e as mesmas pegadas — como animais em fuga.


Harmada, romance de João Gilberto Noll, marcou o retorno do veterano Maurice Capovilla à direção de filmes. Ele estava afastado desta atividade há mais de 20 anos. É uma bela incursão sobre a obra de Noll. O ator Paulo César Peréio ganhou o Candando de melhor ator no Festival de Brasília de 2003. As filmagens foram feitas em 2002 em Parati, no Rio de Janeiro.




Ney Ferraz Paiva