segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pô, pai, ainda bem
que não é no Brasil

por Oduvaldo Vianna Filho

Deu-se o fato em Casa de La Madre Joana, país da América Latina.
Era feriado em Casa de La Madre Joana, todo mundo na rua, fazendo suas apostas. Era dia de eleição e sempre que era dia de eleição (a última havia sido em 1918, anulada) era feriado, e o povo fazia suas apostas.
– Quem será o eleito? Quem será o eleito?
Povo cheio de curiosidade pelas coisas da política.
A cotação eleitoral naquele ano era a seguinte:
– O eleito vai ser um do exército: 318%.
– Vai ser um da Marinha: 212%.
– Vai ser um da Aeronáutica: 32%.
– Um da Força Pública: 0,3% (opinião da esquerda positiva).
– Um do Corpo de Bombeiros: 0,1% (esquerda radical de Madre Joana).
Naquele dia, um deputado chegou à capital da Casa de La Madre Joana, foi chegando e perguntando: “Por favor, onde é o Congresso Nacional?”. Indicado, tocou-se para lá. Na porta do Congresso a maior balbúrdia. Uma porção de caçadores, vindos de todas as partes do mundo, querendo entrar. O porteiro berrava:
– Senhores, senhoras. Aqui se cassa deputado, sim, mas é o cassa com dois “s”.
Ninguém entendia. Um norueguês, com a maior espingarda, queria dar um tiro num deputado gordinho, o porteiro berrava, uma balbúrdia.
O deputado, recém-chegado, passou ao largo e foi falar com o Líder da Maioria. (Em Madre Joana só havia maioria).
– Estava em casa, desceu um avião no quintal e me pediram para vir pra cá. O que é? Querem nacionalizar o petróleo outra vez?
– Não, é a eleição do novo Presidente.
– No me lo digas.
– Si. Eleciones indiretas.
– Por que indiretas?
– Porque não é direta. É mais. É in-direta. “In”, entende? Não é “out”.
– Ah, sei. Quem é o nosso candidato?
– Só tem um.
O deputado recém-chegado não estava gostando muito. Aí houve uma rápida divagação sobre democracia, candidato único, que em Roma era assim, e o Napoleão, você tem alguma coisa contra Napoleão, que Péricles foi eleito indiretamente, que Deus escreve certo por linhas indiretas. O deputado se acalmou mais.
– Quem é o candidato?
– Pô, que curiosidade. Parece mulher grávida. Ta vendo aquele monte de secreta?
– Tou.
– Ele é o do meio...
– Simpático.
– É.
– E qual é o programa?
– O programa aqui na capital é chocho. Tem um barzinho que fica aberto até mais tarde, musiquinha, não se come mal e...
– Não. O programa dele.
O Líder da Maioria explicou todo o programa: ensino, saúde, o Nordeste, transporte, o Lóide, habitação, custo de vida, rede escolar, saneamento, crédito para avicultura. Implementos agrícolas, rede hospitalar, a pesca, repressão ao contrabando, ponte Rio-Niterói, regulamentação de filmes na TV. O outro observou que isso era a relação dos problemas e que ele queria saber como o novo Governo ia enfrentá-los.
– Com firmeza.
Esclarecido sobre o programa do candidato, o Líder da Maioria pediu o voto do deputado. O deputado ainda fez uma última pergunta.
– Pô, parece O Céu É o Limite – disse o Líder.
– Eu quero saber o Ministério.
O Líder lhe deu a lista:
Aviação – Gago Coutinho ou Sacadura Cabral.
Saúde – Talvez Juraci Magalhães.
Guerra – Góis Monteiro.
Indústria e Comércio – Talvez Juraci Magalhães.
Marinha – Américo Vespúcio.
Fazenda – Mágico de Oz.
Viação – Talvez Juraci Magalhães.
Minas e Energia – A cia. de energia elétrica ainda não havia indicado.
Planejamento – Obdúlio Varela.
Exterior – Vicente Rao.
Justiça – Talvez Juraci Magalhães.
O deputado leu a lista, pensou, olhou o Líder e falou:
– Olha, não vou votar, não.
Foi cassado.
Mostrei essa notícia de Casa de La Madre Joana para o meu filho, e ele, largando o álbum de figurinha, me disse:
– Pô, pai, ainda bem que não é no Brasil, hein?








Folha da Semana, 13 a 19 de outubro, 1966.
Vianinha, Org. Fernando Peixoto, Brasiliense, 1983.

Imagem: Emmanuel Nassar

quarta-feira, 26 de agosto de 2009





Jean-Paul Sartre in Paris in 1952, with Simone de Beauvoir, right, and the writer and musician Boris Vian and his wife, Michelle.

Diante da lei
Na sociedade de controle a lei é o mecanismo que assegura ao estado a ordem das coisas separando devidamente os cronópios dos famas; os viciados dos não viciados; os ajustados dos desajustados. Na sociedade de controle os mecanismos para o cumprimento da lei são: a perseguição / a prisão / a extorsão / a violência / a morte. A sociedade de controle codifica / veta / enclausura. Na mesma medida a sociedade de controle, através dos atos secretos, garante os seus ‘paraísos artificiais’, os seus bordeis privados, os seus vícios insólitos: a compulsão, a cafetinagem. Tudo à custa do dinheiro público. A sociedade de controle, tal como os nazistas, em nome da eugenia, do sangue puro, da grande saúde, persegue os fumantes, vigia, patrulha, enquadra , criando uma histeria coletiva, propagando ideologicamente o ódio contra o fumo, contra a pessoa por trás da fumaça. A sociedade de controle agora proíbe o cigarro, depois será o livro, o riso, a poesia. Fahrenheit 451 e 1984 são curiosos diagnósticos desse avanço fascista. A lei, na sociedade de controle, é uma máquina déspota que atravessa a carne, fere e não cessa de ferir.

nilson oliveira - editor da revista polichinello

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

o grito do redemoinho

Seis meses depois da morte de Max Martins sonhei com ele a bordo de um balão, ele que navegava em sua rede (navio viking de vela desfraudada) os despropósitos das viagens - e de consolar os simples. Evoé Max!


Pipeline

Hoje não quero ler. Nem nadar.
Nem ficar à sombra da cabana.
Estou trocando a pele e tenho a impressão de que todos estão vendo essa nudez.
I’m shame.
Minhas feridas estão expostas e acho que todos vão descobrir.
Cicatrizes que eu achava ter apagado com o romantismo-rosado do caladryl.
Cadê aquela mulher meio-ana, meio-caio, meio-bloomsbury?
Perdeu-se na Adélia que há em mim:
“Seja mulher! Carrega essa bandeira direito menina! E que Deus te proteja!”.
Uma menina magra que fala pouco e que hoje beija e ri muito mais do que em 1996.
Mas, escreve menos do que nunca.
Talvez seja isso: a literatura, essa vaga, essa onda.
Anda onde?
Estou aqui mais furiosa do que antes, e isso é coisa que sempre fui, com vinco entre as sobrancelhas e por cima dos óculos.
Hoje não posso nadar.
Descobri que os tubarões também sentem cheiro das feridas da alma.
Vou voltar à sombra dos meus livros.
À cabana.



Danielle Fonseca


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a cada fim seu recomeço
         para max martins in memoriam


não reconheci aquele corpo lacrado, fino,
embora o soubesse de max m, magro poeta.
os cortes do tempo ali representados, atino
e mesura da indesejada, formando uma reta,

um risco subscrito à travessia, naquela cuíra
de ainda escrever mais, não para consolar
ou ter de volta o último trago que o traíra
mas para, colmando a lacuna, num dia solar

em marahu, o fôlego ancestral de novo seguir
como se soubesse mesmo ter onde ir


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Paulo Vieira, 11 fev. 2009.