quarta-feira, 11 de março de 2015


Cacaso ao acaso


Fui amigo do Cacaso o Antonio Carlos de Brito
Lá de Uberaba que nem eu & que morou
Encostadinho à fazenda do meu avô
Levávamos uma vida excitante de moleque
Depois ela foi se abrindo como um abcesso
Dele li dois ou três livros deixe-me ver: “Mar de Mineiro”
“Lero Lero” “Segunda Classe” “Beijo na Boca” “Jogos Florais” –
Eita que foram cinco! 
“Palavra Cerzida” preferi não ler por causa do prefácio do 
José Guilherme Merquior de quem sempre fomos inimigos – 
Tem sujeitos que pelejam sempre contra certas coisas
De dentro de seu pequeno ringue iluminado
O mundo & os livros ficam sem conserto
Dizque tem rua de nome Cacaso em Jacarepaguá
Isso não é em Uberaba não é no Rio de Janeiro
Convivemos mais pacificamente com ditadores do que com poetas
Uberaba & os críticos teimam em ficar do jeito que sempre foram





Ney Ferraz Paiva


Jardim & Cemitério

Não gosto muito de citá-lo, nem penso que a leva contemporânea de escritores e poetas entenda-se & desentenda-se com o verbo dentro do que se consagrou chamar de "período literário" – agora as imagens fortes de Antonio Candido ainda perduram & prosperam pelos cemitérios-parque da literatura espalhados por aí, vejam: "Cada período literário é ao mesmo tempo um jardim e um cemitério, onde vêm coexistir os produtores exuberantes da seiva renovada, as plantas enfezadas que não querem morrer, a ossaria petrificada das gerações perdidas."



Ney Ferraz Paiva
Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira, Editora da USP/Editora Itatiaia, 1975.

Lei Semear o quê?


Entre os critérios específicos para análise dos projetos na área de Literatura submetidos à Lei Semear consta, cito: "valorização de abordagens de temáticas históricas ou cotidianas do cenário paraense, independente do estilo artístico escolhido". Penso que se constitui uma exigência descabida e anacrônica solicitar que o cenário poético (inventivo, criativo, afetivo) dos poetas que atuam em Belém se restrinja (ou seja restrito por força de lei) ao "paraense" - as temáticas históricas e/ou cotidianas estão fortemente marcadas na literatura contemporânea, sim, mas elas nem sempre se restringem a um lugar, o lugar inclusive pode ser fictício, irreal, recriado ou nem constar, escapar (não por indiferença ou despeito mas por opção estética) como fizeram, por exemplo, Paulo Plínio Abreu, Cauby Cruz, Mário Faustino, Max Martins, que atuaram e desenvolveram projetos poéticos distintos, num período muito próximo e na mesma cidade - espaço no qual reinventaram de forma diversa o projeto espiritual de uma época.


Max Martins

Ney Ferraz Paiva

terça-feira, 3 de março de 2015

NOTAS SOBRE UM SONHO


é dia é noite deitado em pé
tenho sonhado com aranhas
que se conectam sem fios a
meu silêncio a minha sombra
como se fossem eu próprio
não param de se deslocar um
cerco entrechocante ímpeto
duma língua acrobata incerta
venenoso ruído sismografado
centrífugo elas avançam ouço
seus pés o levante implacável
máquinas temidas hipertélicas
o que querem? o que levam?

tenho vivido de cigarros Coca-
Cola folheado livros na Biblioteca
não estão nem aí me põem a nu
toma-me de assalto emparedam
não são propriamente deste mundo
vetustas encenam o tempo todo
o tom a nuance de seus gestos
traçam o campo de um impasse
posso ouvir mas nada entendo
posso imediatamente zerar tudo
recorro à esquiva parto pra briga
aranhas querem fechar o tempo






Ney Ferraz Paiva
Ana Paula Pessoa