quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SEM TÍTULO



Esperas que desapareça a angústia
Enquanto cai a chuva sobre a desconhecida estrada
Onde te encontras

Chuva: apenas espero
Que desapareça a angústia
Estou dando tudo de mim




ROBERTO BOLAÑO
Otto Stupakoff

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A RAÇÃO D’ÁGUA


Meia bacia é a ração d’água.
Faz-se o que quer: asseio ou chá.
Você quer se lavar?
Esqueça o chá
Você quer o chá?
Deixe o asseio.






Ho Chi Minh, Poemas do Cárcere
Tradução: Coema Simões e Moniz Bandeira
Imagem: JeeYoung Lee, Black Birds

domingo, 24 de janeiro de 2016

RÉQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI




Eu pouco sei de ti mas este crime 
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo – amanhece,
os primeiros carros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira
página, o sangue apodrece e brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, exceto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Saló, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há,
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua. 





EUGÊNIO DE ANDRADE, Homenagens e outros Epitáfios, 1974

sábado, 23 de janeiro de 2016

Trabalhar cansa



Travessar uma rua fugindo de casa
só um menino o faria, mas este homem que passa
todo dia nas ruas não é mais menino
e não foge de casa.
Em pleno verão,
até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas
sob o sol que começa a cair, e este homem que chega
por um parque de plantas inúteis detém-se.
Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?
Simplesmente vagar, pois as praças e ruas
estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher
e falar-lhe e fazê-la viver com você.
Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes
algum bêbado à noite dispara discursos
e repassa os projetos de toda sua vida.
Certamente não é esperando na praça deserta
que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas
se detém vez ou outra. Estivessem a dois
mesmo andando na rua, sua casa estaria
onde está a mulher. Valeria a pena.
Mas de noite essa praça retorna ao vazio
e este homem que passa não vê as fachadas
entre luzes inúteis nem ergue seus olhos:
Sente só o ladrilho que outros homens fizeram
com mãos secas e duras, assim como as suas.
Não é justo deixar-se na praça deserta.
Com certeza há de andar pela rua a mulher
que, chamada, viria ajudar com a casa.






CESARE PAVESE, Trabalhar Cansa, Cosac Naify & 7Letras, coleção Ás de Colete, 2009. Tradução:Maurício Santana Dias 
Imagem: Saul Leiter

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

À ESPERA DOS BÁRBAROS



O que esperamos na ágora reunidos?
      É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      Que leis hão de fazer os senadores?
      Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      O nosso imperador conta saudar
      o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
      um pergaminho no qual estão escritos
      muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

      É que os bárbaros chegam hoje,
      tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

      É que os bárbaros chegam hoje
      e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

      Porque é já noite, os bárbaros não vêm
      e gente recém-chegada das fronteiras
      diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.



Andy Warhol, Henry Geldzahler, David Hockney, Jeff Goodman


KONSTANTINOS KAVÁFIS, c. de 1911
Tradução: José Paulo Paes

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Hino ao crítico



Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil com um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?



Rodchenko, Shklovski e Maiakóvski, 1926



MAIAKÓVSKI, Poemas, Editora Perspectiva, 2013
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Sensini



A forma como se desenrolou minha amizade com Sensini sem dúvida escapa ao costumeiro. Naquela época eu tinha vinte e tantos anos e era mais pobre que um rato. Morava nos arredores de Girona, numa casa em ruínas que minha irmã e meu cunhado tinham me deixado depois de irem para o México, e acabava de perder um trabalho de vigia noturno num camping de Barcelona, o qual havia acentuado minha propensão a não dormir de noite. Quase não tinha amigos e a única coisa que fazia era escrever e dar longos passeios que começavam às sete da noite, depois de acordar, momento em que meu corpo experimentava uma coisa parecida com o jet lag, uma sensação de estar e não estar, de distância com respeito ao que me rodeava, de indefinida fragilidade. Vivia com o que tinha economizado durante o verão e, embora quase não gastasse dinheiro, meu pé-de-meia ia minguando com o passar do outono. Talvez tenha sido isso que me levou a participar do Concurso Nacional de Literatura de Alcoy, aberto para escritores de língua castelhana, qualquer que fosse sua nacionalidade e seu lugar de residência. O prêmio era dividido em três modalidades: poesia, conto e ensaio. Primeiro pensei me apresentar em poesia, mas enviar a luta com os leões (ou com as hienas) o que eu fazia melhor me pareceu indecoroso. Depois pensei me apresentar em ensaio, mas quando me mandaram o regulamento descobri que o ensaio devia versar sobre Alcoy, seus arredores, sua história, seus homens ilustres, sua projeção no futuro, e isso estava além da minha competência. Decidi, pois, me apresentar em conto: enviei em três cópias o melhor que eu tinha (não eram muitos) e me sentei à espera. 

Quando o prêmio saiu, eu trabalhava de vendedor ambulante numa feira de artesanato onde absolutamente ninguém vendia artesanato. Obtive o terceiro prêmio e dez mil pesetas que a prefeitura de Alcoy me pagou religiosamente. Pouco depois recebi o livro, no qual não escasseavam as erratas, com o vencedor e os seis finalistas. Claro, meu conto era melhor do que o que havia ganhado o primeiro prêmio, o que me levou a amaldiçoar o júri e dizer a mim mesmo que, enfim, isso sempre acontece. Mas o que realmente me surpreendeu foi encontrar no mesmo livro Luis Antonio Sensini, o escritor argentino, segundo prêmio, com um conto em que o narrador ia para o campo e ali morria seu filho ou com um conto em que o narrador ia para o campo porque na cidade seu filho tinha morrido, não ficava claro, o caso e que no campo, um campo plano e um tanto ermo, o filho do narrador continuava morrendo, enfim, o conto era claustrofóbico, bem no estilo de Sensini, dos grandes espaços geográficos de Sensini que de repente se reduziam até ter o tamanho de um caixão, e superior ao ganhador e primeiro prêmio e também superior ao terceiro prêmio e ao quarto, quinto e sexto.

Não sei o que me levou a pedir a prefeitura de Alcoy o endereço de Sensini. Eu havia lido um romance dele e alguns dos seus contos em revistas latinoamericanas. O romance era dos que fazem leitores. Chamavase Ugarte e falava de alguns momentos da vida de Juan de Ugarte, burocrata do vicereinado do Rio da Prata em fins do século XVIII. Alguns críticos, principalmente espanhóis, o haviam liquidado dizendo que se tratava de uma espécie de Kafka colonial, mas pouco a pouco o romance foi fazendo seus próprios leitores e, quando dei com Sensini no livro de contos de Alcoy, Ugarte tinha, em vários cantos da América e da Espanha, uns poucos e fervorosos leitores, quase todos amigos ou inimigos gratuitos entre si. Sensini, claro, tinha outros livros, publicados na Argentina ou em editoras espanholas desaparecidas, e pertencia a essa geração intermediaria de escritores nascidos nos anos 1920, depois de Cortázar, Bioy, Sabato, Mujica Láinez, e cujo expoente mais conhecido (pelo menos então, pelo menos para mim) era Haroldo Conti, desaparecido num dos campos especiais da ditadura de Videla e seus sequazes. Dessa geração (se bem que talvez a palavra geração seja excessiva) sobrava pouco, mas não por falta de brilho e talento; seguidores de Roberto Arlt, jornalistas, professores e tradutores de alguma maneira anunciaram o que viria em seguida, e anunciaram a sua maneira triste e cética que no fim foi engolindo todos.

Eu gostava deles. Numa época remota da minha vida eu tinha lido as obras teatrais de Abelardo Castillo, os contos de Rodolpho Walsh (como Conti, assassinado pela ditadura), os contos de Daniel Moyano, leituras parciais e fragmentadas oferecidas pelas revistas argentinas ou mexicanas ou cubanas, livros encontrados nos sebos do DF, antologias piratas da literatura portenha, provavelmente a melhor na língua espanhola deste século, literatura da qual eles faziam parte e que não era certamente a de Borges ou Cortázar e que Manuel Puig e Osvaldo Soriano não tardariam a deixar para trás, mas que oferecia ao leitor textos compactos, inteligentes, que propiciavam cumplicidade e alegria. Meu favorito, nem e preciso dizer, era Sensini, e o fato, de alguma maneira cruento e de alguma maneira lisonjeador, de encontrálo num concurso literário de província me animou a entrar em contato com ele, cumprimentálo, dizer quanto gostava dele.

Assim, a prefeitura de Alcoy não demorou a me enviar seu endereço, ele morava em Madri, e uma noite, depois de jantar ou comer ou lanchar, eu lhe escrevi uma longa carta em que falava de Ugarte, dos outros contos dele que havia lido em revistas, de mim, da minha casa nos arredores de Girona, do concurso literário (eu ria do vencedor), da situação política chilena e argentina (ambas as ditaduras ainda estavam bem estabelecidas), dos contos de Walsh (que era o outro de que eu mais gostava, junto com Sensini), da vida na Espanha e da vida em geral. Ao contrário do que esperava, recebi uma carta dele apenas uma semana depois. Começava me agradecendo pela minha, dizia que de fato a prefeitura de Alcoy também lhe enviara o livro com os contos premiados mas que, ao contrário de mim, ele não havia arranjado tempo (se bem que depois, quando voltava de forma enviesada ao mesmo tema, dizia que não tinha encontrado ânimo suficiente) para reler a narrativa vencedora e as outras premiadas, mas nestes dias havia lido o meu conto e o achara muito bom, um conto de primeira ordem, dizia, conservo a carta, e ao mesmo tempo me instava a perseverar, mas não, como a principio entendi, a perseverar na escrita e sim a perseverar nos concursos, coisa que ele, me garantia, também faria. Ato contínuo passava a me perguntar pelos concursos literários que se avistavam no horizonte, recomendandome que mal soubesse de um lhe informasse no ato. Em contrapartida me anexava as coordenadas de dois concursos de narrativas, um em Plasencia, o outro em Écija, de vinte e cinco mil e trinta mil pesetas respectivamente, cujo regulamento conforme pude verificar mais tarde ele tirava de jornais e revistas madrilenhas cuja simples existência era um crime ou um milagre, depende. Os dois concursos ainda estavam a meu alcance e Sensini terminava sua carta de maneira algo entusiasta, como se nos dois estivéssemos na linha de largada de uma corrida interminável, além de dura e sem sentido. Coragem e mãos à obra, dizia.

Lembro que pensei: que carta estranha, lembro que reli alguns capítulos de Ugarte, naqueles dias apareceram na praça dos cinemas de Girona os vendedores ambulantes de livros, gente que montava suas bancas ao redor da praça e oferecia principalmente estoques invendáveis, os saldos das editoras que não fazia muito haviam quebrado, livros da Segunda Guerra Mundial, romances de amor e de caubóis, coleções de postais. Numa das bancas encontrei um livro de contos de Sensini e comprei. Estava como novo — na verdade, era um livro novo, daqueles que as editoras vendem com desconto para os únicos que trabalham com esse material, os ambulantes, quando mais nenhuma livraria, nenhum distribuidor quer pôr as mãos nesse fogo — e aquela semana foi uma semana Sensini em todos os sentidos. Às vezes eu relia pela centésima vez sua carta, outras vezes folheava Ugarte, e quando queria ação, novidade, lia seus contos. Estes, embora tratassem de uma gama variada de temas e situações, geralmente se desenrolavam no campo, na pampa, e eram o que pelo menos antigamente se chamavam histórias de homens a cavalo. Quer dizer, histórias de gente armada, desventurada, solitária ou com um senso peculiar da sociabilidade. Tudo o que em Ugarte era frieza, um pulso preciso de neurocirurgião, no livro de contos era calor, paisagens que se distanciavam do leitor muito lentamente (e que às vezes se afastavam com o leitor), personagens corajosos e à deriva.

            Do concurso de Plasencia não consegui participar, mas do de Écija sim. Mal pus os exemplares do meu conto (pseudônimo: Aloysius Acker) no correio, compreendi que se ficasse esperando o resultado as coisas só podiam piorar. De modo que decidi procurar outros concursos e de passagem atender ao pedido de Sensini. Nos dias seguintes, quando descia a Girona, dedicavame a fuçar jornais atrasados em busca de informação: em alguns ocupavam uma coluna junto da crônica social, em outros apareciam entre o noticiário geral e de esportes, o mais sério de todos os situava no meio do caminho entre a previsão do tempo e o obituário, nenhum, e claro, nas páginas culturais. Descobri também uma revista da Generalitat que, entre bolsas, intercâmbios, ofertas de emprego, cursos de pósgraduação, inseria anúncios de concursos literários, a maioria de âmbito catalão em língua catalã, mas nem todos. Logo tinha em perspectiva três concursos dos quais Sensini e eu podíamos participar e lhe escrevi uma carta.

            Como sempre, a resposta veio logo em seguida. A carta de Sensini era breve. Respondia a algumas das minhas perguntas, a maioria delas relativa a seu livro de contos recémcomprado, e acrescentava por sua vez as fotocópias do regulamento de outros três concursos de contos, um deles patrocinado pela rede ferroviária, primeiro prêmio e dez finalistas a cinquenta mil pesetas por barba, dizia textualmente, quem não se apresenta não ganha, para que não fique na intenção. Respondi dizendo que não tinha tantos contos assim para cobrir os seis concursos em andamento, mas sobretudo tentei tocar em outros temas, a carta saiu do meu controle, falei de viagens, amores perdidos, Walsh, Conti, Francisco Urondo, perguntei por Gelman que ele sem dúvida conhecia, terminei contando minha história em capítulos, sempre que falo com argentinos acabo me enredando no tango e no labirinto, isso acontece com muitos chilenos. 

             A resposta de Sensini foi pontual e extensa, pelo menos no tocante a produção e aos concursos. Numa folha escrita com espaço simples e dos dois lados expunha uma espécie de estratégia geral com respeito aos prêmios literários de províncias. Falo por experiência própria, dizia. A carta começava santificandoos (nunca soube se a sério ou de brincadeira), fonte de renda que ajudava no sustento cotidiano. Ao se referir as entidades patrocinadoras, prefeituras e caixas econômicas, dizia essa boa gente que acredita na literatura, ou esses leitores puros e um pouco forçados. Não tinha, do contrário, ilusões com respeito a informação da boa gente, os leitores que previsivelmente (ou nem tão previsivelmente) consumiriam aqueles livros invisíveis. Insistia em que eu participasse do maior número possível de prêmios, mas sugeria que como medida de precaução mudasse o titulo dos contos se com um só, por exemplo, me inscrevesse em três concursos cujos resultados saíssem mais ou menos na mesma data. Dava como exemplo sua narrativa Ao amanhecer, que eu não conhecia e que ele havia enviado a vários certames literários quase de maneira experimental, como o porquinhodaíndia destinado a testar os efeitos de uma vacina desconhecida. No primeiro concurso, o mais bem pago, Ao amanhecer foi como Ao amanhecer, no segundo concurso se apresentou como Os gaúchos, no terceiro concurso seu título era Na outra pampa, e no ultimo se chamava Sem remorsos. Ganhou no segundo e no ultimo, e com o dinheiro obtido em ambos os prêmios pode pagar um mês e meio de aluguel, em Madri os preços estavam nas nuvens. Claro, ninguém ficou sabendo que Os gaúchos e Sem remorsos eram o mesmo conto com o título mudado, mas sempre havia o risco de topar em mais de uma contenda com um mesmo jurado, oficio singular que na Espanha era exercido de forma contumaz por uma plêiade de escritores e poetas menores ou autores laureados em festas anteriores. O mundo da literatura é terrível, além de ridículo, dizia. E acrescentava que nem o repetido encontro com um mesmo jurado constituía de fato um perigo, pois estes geralmente não liam as obras apresentadas ou as liam por alto ou as liam mais ou menos. E com maior razão, dizia, quem sabe se Os gaúchos e Sem remorsos não são duas narrativas distintas cuja singularidade resida precisamente no título. Parecidas, muito parecidas até, mas distintas. A carta concluía enfatizando que o ideal seria fazer outra coisa, por exemplo viver e escrever em Buenos Aires, sobre isso poucas dúvidas tinha, mas que a realidade era a realidade, e a gente tinha que ganhar seus porotos (não sei se na Argentina o feijão e chamado de poroto, no Chile sim) e que por ora a saída era essa. É como passear pela geografia espanhola, dizia. Vou fazer sessenta anos, mas me sinto como se tivesse vinte e cinco, afirmava no fim da carta ou talvez num pósescrito. A princípio me pareceu uma declaração muito triste, mas quando a li pela segunda ou terceira vez compreendi que era como se me dissesse: quantos anos você tem, pibe? Minha resposta, eu me lembro, foi imediata. Disse que tinha vinte e oito, três a mais que ele. Naquela manhã, foi como se eu recuperasse se não a felicidade, em todo caso a energia, uma energia que se parecia muito com o humor, um humor que se parecia muito com a memória.

Não me dediquei, como me sugeria Sensini, aos concursos de contos, embora tenha participado dos últimos daqueles que ele e eu havíamos descoberto. Não ganhei nenhum, Sensini voltou a fazer uma dobradinha, em Don Benito e em Écija, com uma narrativa que se intitulava originalmente Os sabres e que em Écija se chamou Duas espadas e em Don Benito O corte mais profundo. E ganhou um prêmio secundário no concurso da rede ferroviária espanhola, o que lhe proporcionou não só dinheiro mas também um passe para viajar de graça durante um ano.

Com o tempo fui sabendo mais coisas a seu respeito. Morava num apartamento em Madri com a mulher e a filha única, de dezessete anos, chamada Miranda. Outro filho, do seu primeiro casamento, andava perdido pela América Latina ou era o que ele queria acreditar. Chamavase Gregorio, tinha trinta e cinco anos, era jornalista. Às vezes Sensini me contava das suas diligências em organismos humanitários ou vinculados aos departamentos de direitos humanos da União Europeia para averiguar o paradeiro de Gregorio. Nessas ocasiões as cartas costumavam ser pesadas, monótonas, como se mediante a descrição do labirinto burocrático Sensini exorcizasse seus próprios fantasmas. Deixei de viver com Gregorio, me disse em certa ocasião, quando o garoto tinha cinco anos. Não acrescentava mais nada, mas eu vi o Gregorio de cinco anos e vi Sensini escrevendo na redação de um jornal, e tudo era irremediável. Também me perguntei pelo nome e não sei por que cheguei a conclusão de que havia sido uma espécie de homenagem inconsciente a Gregorio Samsa. Isso, é claro, eu nunca lhe disse. Quando falava de Miranda, pelo contrário, Sensini ficava alegre, Miranda era jovem, tinha vontade de devorar o mundo, uma curiosidade insaciável e, além do mais, dizia, era linda e boa. Parece com Gregorio, dizia, só que Miranda é mulher (obviamente) e não teve que passar pelo que meu filho mais velho passou.

Pouco a pouco as cartas de Sensini foram se tornando mais extensas. Ele morava num bairro feioso de Madri, num apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Saber que eu dispunha de mais espaço do que ele me pareceu surpreendente e também injusto. Sensini escrevia na sala, de noite, quando a senhora e a menina já estão dormindo, e abusava do tabaco. Seus rendimentos provinham de uns vagos trabalhos editoriais (creio que corrigia traduções) e dos contos que iam pelejar nas províncias. De vez em quando recebia um cheque por algum dos seus numerosos livros publicados, mas a maioria das editoras se fazia de esquecida ou havia quebrado. A única coisa que continuava dando dinheiro era Ugarte, cujos direitos pertenciam a uma editora de Barcelona. Vivia, não demorei a compreender, na pobreza, não numa pobreza absoluta mas uma pobreza de classe média baixa, de classe média desabonada e decente. Sua mulher (que ostentava o curioso nome de Carmela Zajdman) trabalhava fazendo bicos para editoras e dando aulas particulares de inglês, francês e hebraico, no entanto em mais de uma ocasião se vira obrigada a fazer faxina. A filha só se dedicava aos estudos e sua entrada na universidade era iminente. Numa das minhas cartas perguntei a Sensini se Miranda também ia se dedicar a literatura. Em sua resposta dizia: não, por Deus, a menina vai estudar medicina.

Uma noite lhe escrevi pedindo uma foto da família. Só depois de pôr a carta no correio me dei conta de que o que eu queria era conhecer Miranda. Uma semana depois chegou uma fotografia tirada certamente no parque do Retiro, onde se via um velho e uma mulher de meiaidade ao lado de uma adolescente de cabelos lisos, magra e alta, de peitos muito grandes. O velho sorria feliz, a mulher de meiaidade olhava para o rosto da filha, como se lhe dissesse alguma coisa, e Miranda fitava o fotógrafo com uma seriedade que achei comovente e inquietante. Com a foto me mandou a fotocopia de outra foto. Nesta aparecia um sujeito mais ou menos da minha idade, de traços acentuados, os lábios bem finos, os pômulos pronunciados, a testa ampla, sem dúvida um sujeito alto e forte que olhava para a câmera (era uma foto de estúdio) com segurança e talvez com uma ponta de impaciência. Era Gregorio Sensini, antes de desaparecer, aos vinte e dois anos, isto e, bem mais moco do que eu era então, mas com um ar de maturidade que o fazia parecer mais velho.

Por muito tempo a foto e a fotocopia ficaram na minha mesa de trabalho. Às vezes eu passava um bom tempo contemplandoas, outras vezes as levava para o quarto e ficava olhando para elas até adormecer. Em sua carta Sensini tinha me pedido que eu também mandasse uma foto minha. Não tinha nada recente e resolvi tirar um instantâneo na cabine de fotos da estação, naqueles anos a única de toda Girona. Mas não gostei das fotos que tirei. Eu estava feio, magro, de cabelo mal cortado. De modo que cada dia adiava o envio da foto e cada dia gastava mais dinheiro naquela máquina. Finalmente peguei uma ao acaso, enfieia num envelope com um postal e a enviei. A resposta demorou a chegar. Nesse ínterim lembro ter escrito um poema muito longo, muito ruim, cheio de vozes e de rostos que pareciam diferentes mas que eram um só, o rosto de Miranda Sensini, e que quando eu por fim podia reconhecelo, nomeálo, dizer a ele, Miranda, sou eu, o amigo epistolar do seu pai, ela dava meiavolta e saia correndo em busca do irmão, Gregorio Samsa, em busca dos olhos de Gregorio Samsa que brilhavam no fundo de um corredor em trevas onde se moviam imperceptivelmente os vultos escuros do terror latinoamericano.

A resposta foi longa e cordial. Dizia que Carmela e ele me acharam muito simpático, tal como me imaginavam, um pouco magro talvez, mas com boa aparência e que também tinham gostado do postal da catedral de Girona que esperavam ver pessoalmente dentre em breve, assim que se vissem mais desafogados de algumas contingencias econômicas e domesticas. Na carta dava por entendido que não só passariam para me ver como se hospedariam na minha casa. De passagem me ofereciam a deles quando eu quisesse ir a Madri. A casa é pobre, mas também não é limpa, dizia Sensini imitando um célebre gaúcho de tiras de quadrinhos que foi muito famoso no Cone Sul em princípios dos anos 1970. De seus afazeres literários não dizia nada. Tampouco falava dos concursos.

A princípio pensei em mandar meu poema para Miranda, mas depois de muita dúvida e hesitação decidi não fazelo. Estou ficando louco, pensei, se mando isso para Miranda acabaramse as cartas de Sensini e, aliás, com toda razão deste mundo. De modo que não mandei. Por um tempo me dediquei a descobrir regulamentos de concursos para ele. Numa carta, Sensini dizia temer que sua corda estivesse acabando. Interpretei suas palavras erroneamente, no sentido de que já não tinha certames literários bastantes para enviar suas narrativas.

Insisti em que viessem a Girona. Disse que Carmela e ele tinham minha casa a disposição, por uns dias até me obriguei a limpar, varrer, passar pano de chão e tirar a poeira dos cômodos na certeza (totalmente infundada) de que eles e Miranda estavam para chegar. Argumentei que com o bilhete em aberto da rede ferroviária na realidade só precisariam comprar duas passagens, uma para Carmela e outra para Miranda, e que a Catalunha tinha coisas maravilhosas a oferecer ao viajante. Falei de Barcelona, de Olot, da Costa Brava, dos dias felizes que sem dúvida passaríamos juntos. Numa longa carta de resposta, na qual me agradecia pelo convite, Sensini me informava que por ora não podiam sair de Madri. A carta, pela primeira vez, era confusa, mas lá pela metade punhase a falar dos prêmios (creio que havia ganhado outro) e me incitava a não esmorecer e continuar participando. Nessa parte da carta também falava do oficio de escritor, da profissão, e tive a impressão de que as palavras que ele vertia eram em parte para mim, em parte um lembrete que fazia para si mesmo. O resto, como já disse, era confuso. Ao terminar de ler tive a impressão de que alguém da sua família não estava bem de saúde.

Dois ou três meses depois recebi a notícia de que provavelmente haviam encontrado o cadáver de Gregorio num cemitério clandestino. Em sua carta, Sensini era econômico em expressões de dor, só me dizia que tal dia, a tal hora, um grupo de legistas, membros de organizações de direitos humanos, uma vala comum com mais de cinquenta cadáveres de jovens etc. Pela primeira vez não tive vontade de lhe escrever. Gostaria de haver telefonado, mas acho que ele nunca teve telefone e, se teve, eu não sabia o número. Minha resposta foi sucinta. Disse que sentia muito, aventurei a possibilidade de que talvez o cadáver de Gregorio não fosse o cadáver de Gregorio.

Depois chegou o verão e fui trabalhar num hotel da costa. Em Madri esse verão foi prodigo em conferencias, cursos, atividades culturais de toda índole, mas Sensini não participou de nenhuma delas, e se participou de alguma o jornal que eu lia não noticiou.

Em fins de agosto mandeilhe um cartãopostal. Dizia que provavelmente quando a temporada acabasse ia lhe fazer uma visita. Mais nada. Quando voltei a Girona, em meados de setembro, entre a pouca correspondência acumulada debaixo da porta encontrei uma carta de Sensini datada de 7 de agosto. Era uma carta de despedida. Dizia que voltava para a Argentina, que com a democracia ninguém mais ia impedilo de fazer o que quer que fosse e que portanto era inútil permanecer mais tempo fora. Além disso, se quisesse ter certeza do destino final de Gregorio, não tinha outro jeito senão voltar. Carmela, claro, volta comigo, mas Miranda fica. Escrevi imediatamente para ele, para o único endereço que tinha, mas não recebi resposta.

Pouco a pouco fui me acostumando a ideia de que Sensini havia voltado para sempre para a Argentina e que se não me escrevesse de lá podia dar por encerrada nossa relação epistolar. Por muito tempo esperei sua carta ou assim creio agora, ao recordar. A carta de Sensini, claro, não chegou nunca. A vida em Buenos Aires, me consolei, devia ser rápida, explosiva, sem tempo para nada, só para respirar e pestanejar. Tornei a escrever ao endereço que tinha de Madri, com a esperança de que fizessem a carta chegar a Miranda, mas ao fim de um mês o correio a devolveu por ser o destinatário desconhecido no endereço. De modo que desisti, deixei os dias passarem e fui me esquecendo de Sensini, mas quando ia a Barcelona, muito de vez em quando, às vezes me enfiava tardes inteiras nos sebos e procurava seus livros, os livros que eu conhecia de nome e que nunca leria. Mas nas livrarias só encontrei velhos exemplares de Ugarte e de seu livro de contos publicado em Barcelona e cuja editora havia pedido concordata, quase como um sinal dirigido a Sensini, dirigido a mim.

Um ou dois anos depois soube que ele tinha morrido. Não sei em que jornal li a notícia. Talvez não a tenha lido em lugar nenhum, talvez tenham me contado, mas não me lembro de ter falado naqueles dias com gente que o conhecesse, de modo que provavelmente devo ter lido em algum lugar a notícia da sua morte. Ela foi sucinta: o escritor argentino Luis Antonio Sensini, exilado durante alguns anos na Espanha, morreu em Buenos Aires. Creio que também mencionavam, no fim, Ugarte. Não sei por quê, a notícia não me impressionou. Não sei por que, o fato de Sensini voltar a Buenos Aires para morrer me pareceu lógico.

Tempos depois, quando a foto de Sensini, Carmela e Miranda e a fotocópia da foto de Gregorio repousavam com minhas outras lembranças numa caixa de papelão que por algum motivo que prefiro não investigar ainda não queimei, bateram na porta da minha casa. Devia ser meianoite, mas eu estava acordado. A campainha, no entanto, me sobressaltou. Nenhuma das poucas pessoas que eu conhecia em Girona teria ido a minha casa a não ser que acontecesse algo fora do normal. Ao abrir deparei com uma mulher de cabelos compridos sob um grande casaco preto. Era Miranda Sensini, mas os anos transcorridos desde que seu pai me mandou a foto não haviam passado em vão. Ao lado dela estava um sujeito louro, alto, de cabelo comprido e nariz adunco. Sou Miranda Sensini, disse com um sorriso. Eu sei, disse eu e convideios a entrar. Iam de viagem à Itália e depois pensavam em cruzar o Adriático rumo à Grécia. Como não tinham muito dinheiro, viajavam pedindo carona. Naquela noite dormiram na minha casa. Fiz alguma coisa para eles jantarem. O sujeito se chamava Sebastian Cohen e também havia nascido na Argentina, mas desde muito jovem vivia em Madri. Ele me ajudou a aprontar o jantar enquanto Miranda inspecionava a casa. Faz muito tempo que você a conhece?, perguntou. Até este instante só a tinha visto em foto, respondi.

Depois do jantar preparei um quarto para eles e disse que podiam ir para a cama quando quisessem. Também pensei em me retirar para meu quarto e dormir, mas compreendi que ia ser difícil, se não impossível, e assim, quando supus que já estavam dormindo, desci ao térreo e liguei a teve, com o volume baixinho, e fiquei pensando em Sensini.

Pouco depois ouvi passos na escada. Era Miranda. Ela também não conseguia dormir. Sentou ao meu lado e me pediu um cigarro. No início falamos da sua viagem, de Girona (passaram o dia todo na cidade, não perguntei por que haviam chegado tão tarde em casa), das cidades que pretendiam visitar na Itália. Depois falamos de seu pai e de seu irmão. Segundo Miranda, Sensini nunca se recobrou da morte de Gregorio. Voltou para procurálo, embora todos soubéssemos que estava morto. Carmela também?, perguntei. Todos, disse Miranda, menos ele. Perguntei como tinha sido para ele na Argentina. Igual aqui, disse Miranda, igual em Madri, igual em toda parte. Mas na Argentina era benquisto, disse eu. Igual aqui, disse Miranda. Peguei uma garrafa de conhaque na cozinha e lhe ofereci um trago. Você está chorando, disse Miranda. Quando olhei para ela, desviou o olhar. Estava escrevendo?, perguntou. Não, vendo televisão. Quero dizer, quando Sebastian e eu chegamos, disse Miranda, você estava escrevendo? Sim, disse. Narrativas? Não, poemas. Ah, fez Miranda. Bebemos em silencio por um bom momento, olhando as imagens em branco e preto da televisão. Me diga uma coisa, falei, por que seu pai deu o nome de Gregorio ao Gregorio? Por causa de Kafka, claro, disse Miranda. Por causa de Gregorio Samsa? Claro, disse Miranda. Era o que eu supunha, disse eu. Depois Miranda me contou em linhas gerais os últimos meses de Sensini em Buenos Aires.

Ele havia partido de Madri já doente e contra a opinião de vários médicos argentinos que o tratavam de graça e que inclusive tinham lhe conseguido umas internações nos hospitais da Previdência Social. O reencontro com Buenos Aires foi doloroso e feliz. Desde a primeira semana se mexeu para tentar descobrir o paradeiro de Gregorio. Quis voltar para a universidade mas, entre tramites burocráticos e invejas e rancores dos de sempre, o acesso lhe foi negado e ele teve que se conformar em fazer traduções para algumas editoras. Carmela, pelo contrário, conseguiu trabalho como professora e nos últimos tempos viveram exclusivamente com o que ela ganhava. Toda semana Sensini escrevia a Miranda. Segundo esta, seu pai se dava conta de que lhe restava pouca vida e em certas ocasiões até parecia ansioso por esgotar de uma vez por todas as últimas reservas e enfrentar a morte. Quanto a Gregorio, nenhuma notícia foi concludente. Segundo alguns legistas, seu corpo podia estar entre o monte de ossos exumados daquele cemitério clandestino, mas para maior segurança devia se fazer um exame de DNA, porem o governo não tinha verba ou não tinha vontade de que se fizesse o exame, e este ia se atrasando cada dia um pouco mais. Também se esforçou por encontrar uma moca, uma provável companheira que Goyo teria tido na clandestinidade, mas a moça não apareceu. Depois sua saúde se agravou e ele teve que ser hospitalizado. Nem escrevia mais, disse Miranda. Para ele era muito importante escrever todos os dias, em qualquer condição. Sim, disse a ela, acho que era mesmo. Depois perguntei se em Buenos Aires chegou a participar de algum concurso. Miranda olhou para mim e sorriu. Ah, você era aquele que participava dos concursos com ele, ele te conheceu num concurso. Pensei que tinha meu endereço pela simples razão de que tinha todos os endereços do seu pai, mas só naquele momento ela tinha me identificado. Eu sou o dos concursos, disse. Miranda serviuse de mais conhaque e disse que durante um ano seu pai tinha falado bastante de mim. Notei que me fitava de outra maneira. Devo telo importunado bastante, falei. Que é isso, disse ela, que importunalo o que, ele adorava suas cartas, sempre as lia para nós, para minha mãe e para mim. Espero que tenham sido divertidas, falei sem muita convicção. Eram divertidíssimas, disse Miranda, minha mãe até os apelidou. Apelidou? Quem? Meu pai e você, ela os chamava de os pistoleiros ou os caçadores de recompensas, não me lembro mais, uma coisa assim, caçadores de escalpos. Imagino por que, disse eu, mas creio que o verdadeiro caçador de recompensas era seu pai, eu só lhe passava um ou outro dado. Sim, ele era um profissional, disse Miranda subitamente seria. Quantos prêmios chegou a ganhar?, perguntei. Uns quinze, disse ela com ar ausente. E você? Eu, por ora só um. Um prêmio menor em Alcoy, graças ao qual conheci seu pai. Sabe que Borges uma vez escreveu uma carta para ele, em Madri, onde comentava um dos seus contos?, ela perguntou olhando para seu conhaque. Não, não sabia, disse eu. E Cortázar também escreveu sobre ele, e Mujica Lainez também. É que ele era um escritor muito bom, disse eu. Não sacaneie, disse Miranda e se levantou e saiu ao quintal, como se eu tivesse dito uma coisa que a houvesse ofendido. Deixei passar uns segundos, peguei a garrafa de conhaque e a segui. Miranda estava debruçada no parapeito vendo as luzes de Girona. Bonita vista você tem daqui, disse ela. Enchi seu copo, enchi o meu, e ficamos um tempo admirando a cidade iluminada pela lua. De repente me dei conta de que já estávamos em paz, de que por alguma razão misteriosa tínhamos conseguido juntos ficar em paz e que daí em diante as coisas imperceptivelmente começariam a mudar. Como se o mundo, de verdade, se movesse. Perguntei que idade tinha. Vinte e dois, respondeu. Então eu devo ter mais de trinta, falei, e até minha voz soou estranha.


ROBERTO BOLAÑO, Chamadas Telefônicas, Companhia das Letras, 2012
Tradução: Eduardo Brandão

domingo, 17 de janeiro de 2016

Duas cartas de René Magritte a Michel Foucault


23 de maio de 1966

Prezado Senhor,

O senhor fará o obséquio, espero, de considerar estas poucas reflexões relativas à leitura que faço de seu livro As palavras e as coisas...
As palavras Semelhança e Similitude permitem ao senhor sugerir com força a presença – absolutamente estranha – do mundo e de nós próprios. Entretanto, creio que essas duas palavras não são muito diferenciadas, os dicionários não são muito edificantes no que as distingue.
Parece-me que, por exemplo, as ervilhas possuem relação de similitude entre si, ao mesmo tempo visível (sua cor, forma, dimensão) e invisível (sua natureza, sabor, peso). É a mesma coisa que concerne ao falso e ao autêntico etc. As “coisas” não possuem entre si semelhanças, elas têm ou não têm similitudes.
Só ao pensamento é dado ser semelhante. Ele se assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece, ele torna-se o que o mundo lhe oferece.
Ele é tão invisível quanto o prazer e a pena. Mas a pintura faz intervir uma dificuldade: há o pensamento que vê o que pode ser descrito visivelmente. As Damas de Honra[1] são a imagem visível do pensamento invisível de Velásquez. O invisível seria então, por vezes, visível? Só com a condição de que o pensamento seja constituído exclusivamente de figuras visíveis.
A esse respeito, é evidente que uma imagem pintada – que é intangível por sua natureza – não esconda nada, enquanto o visível tangível esconde sistematicamente um outro visível – se cremos em nossa experiência.
Existe, há algum tempo, uma curiosa primazia conferida ao “invisível” através de uma literatura confusa, cujo interesse desaparece se se observa que o visível pode ser escondido, mas que o invisível não esconde nada: pode ser conhecido ou ignorado, sem mais. Não cabe conferir ao invisível mais importância do que ao visível, ou inversamente.
O que não “falta” importância é ao mistério evocado de fato pelo visível e pelo invisível, e que pode ser evocado de direito pelo pensamento que une as “coisas” na ordem que o mistério evoca.
Permito-me apresentar a sua atenção as reproduções de quadros anexas, que pintei sem me preocupar com uma busca original no pintar[2].
Queira aceitar etc...

René Magritte

______________________
Notas
[1] Também conhecido por Las meninas. (N. do T.)
[2] Entre essas reproduções havia “Isto não é um cachimbo”: no verso, Magritte escrevera: “o título não contradiz o desenho, ele o afirma de outro modo”.


Isto não é um cachimbo, 1929. Óleo sobre tela 23 x 31 cm


4 de junho de 1966

Prezado Senhor,

... Sua questão (a respeito do meu quadro Perspectiva. O Balcão de Manet) pergunta sobre o que ela própria já contém: o que me fez ver ataúdes onde Manet via figuras brancas é a imagem mostrada por meu quadro onde o cenário do Balcão convinha para situar os ataúdes.
O “mecanismo” que operou aqui pode ser objeto de uma explicação erudita, da qual sou incapaz. Essa explicação seria válida, talvez certa, mas continuaria sendo um mistério.
O primeiro quadro, intitulado Perspectiva, era um ataúde sentado sobre uma pedra, numa paisagem.
O Balcão é uma variante do precedente, houve outras anteriormente: Perspectiva. Madame Recamier de David e Perspectiva. Madame Recamier de Gérard. Uma variante com, por exemplo, o cenário e os personagens do Enterro em Ornans, de Coubert, teria o sentido de uma paródia.
Creio que se deve notar que esses quadros, chamados Perspectivas mostram um sentido que os dois sentidos da palavra Perspectiva não têm. Essa palavra, e as outras, tem um sentido preciso num contexto, mas o contexto – o senhor o demonstra melhor do que ninguém em As palavras e as coisas – pode dizer que nada é confuso salvo o espírito que imagina um mundo imaginário.
Agrada-me o fato de que o senhor reconheça uma semelhança entre Roussel e o que eu possa pensar que mereça ser pensado. O que ele imagina não evoca nada de imaginário, evoca a realidade do mundo que a experiência e a razão consideram confusamente.
Espero ter a oportunidade de encontrá-lo por ocasião da exposição que farei em Paris, na galeria Iolas, pelo fim do ano.
Aceite etc...


RENÉ MAGRITTE
Tradução: Jorge Coli



Madame Recamier de David, 1950. Óleo sobre tela 60 x 80



Balcão de Manet, 1950. Óleo sobre tela 81 x 60 cm 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Orfeu na Coréia


Aqui estou, Orfeu, na terra coreana,
músico condenado sem morte, em busca do atalho
para o subterrâneo, onde minha mulher, coberta
no mofo com esta canção, lacera a mortalha.
Aqui estou, Orfeu, na terra coreana.

Será que posso aqui morrer, onde a morte é forte
feito sol, forçando as muralhas e os olhos esmaga
com unhas e sem o signo das lágrimas revolve
ruínas o solo fundo como raízes centenárias.
Morrer enfim aqui onde a morte é forte.

Estarreçam terras onde cadáver - irmão do homicídio -
após cadáver cai no rio do apodrecimento em labaredas.
E os vivos onde estão? Quem faz guerra ininterrupta
entre pássaros sem bico e mortos e a cidade arrasada?
Vejam terras onde o irmão da caveira é o fuzil no ombro.

De novo aqui estou diante dos portões das trevas e não
há mais flora sob o pé chagoso, nem mais seres vivos
em torno da lira. Nos campos abandonados o sangue será sêmen.
Nuvens - capacetes do firmamento - sossegarão os gemidos
diante dos portões das trevas e não haverá mais aflição.

Será que alguém ao passar encontrará a minha lira
pelo defunto ano, ao longo da lamentação do vento?
Será que o dedo da criança buscará a melodia
e poderá atrair animais, viveiros brancos e sementes?
Será que alguém virá buscar a minha lira?

Eurídice, aqui estás, pois a luz escorre como alma penada
e a gavela dos canos de ferro do teu jazigo
me aguarda e tiro após tiro cumpre o que foi jurado -
que minha canção jamais possa em tua tumba ser ouvida.
Eurídice, recebe a superfície azul de meu olhar estilhaçada.

Enfim agora sei - aí embaixo junto de ti estou chegando
de fossa em fossa pela borda do deserto da Coréia.
Mas para trás não olharei. Aqueles que amam
a terra fitar devem. E tua mão onde está?
Querida, eis-me aqui, para junto de ti descendo.





Miodrag Pávlovitch
Tradução: Aleksandar Jovanovic
Imagens: Ladies" Code

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

MÁRIO FAUSTINO VOLTA A BELÉM PELA ÚLTIMA VEZ

Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide! Rejuvenescei as coisas!
Ezra Pound, Saudação Segunda, tradução de Mário Faustino


Mergulhas de cabeça
No raso espaço
O corpo nunca
Encontrado
Voado em pedaços
Mandado pelos ares
Como num atentado terrorista
Não é o tempo Mário
Que ri ou chora
À nossa volta
Não é o tempo que olha para trás
E fecha aos pássaros os ferrolhos
Mário a juventude se desgasta à queima-roupa
Entrelaçada a ti compassadamente
Ela prossegue
Amante esquartejado
O Verbo selvagem te remonta
Em que lugar
O indefectível relógio Cartier que usavas
Nem radares nem sismógrafos indicam
Pisas pela última vez a terra – como não
Irromper um grito?
Nem a bala nem a navalha te assassinam
Nem os terrores intoleráveis que evocas
A pilha de livros & discos range a um canto
O barulho da chave do amante na porta
O amor esse caminho que desces ao inferno
As tardes as noites as abafadas penumbras
Apertando apertando a carne numa dobra
Jogavas com os arcanos da linguagem
O nada & a morte
Estavas sempre ganhando
Encolhíamos-nos por dentro
Entre um dia e outro
Estávamos mortos
A vida sem ti
Não sabemos 
Ainda o que é
Aqui o que Cai
Ali o que Cresce
Sem oscilar nem um milímetro
O tempo não cruza
A linha da chuva
Cérbero surge
Num salto adiante
Sem se contentar
Nem se comover
Com o que vem
Com o que está vindo
Sereias anjos poetas
Vibrar a madrugada


 
Benedito Nunes & Mário Faustino em Belém

Ney Ferraz Paiva