segunda-feira, 21 de julho de 2014

IMPRESSÕES
O que se encontra no começo histórico das coisas
                                      não é a identidade ainda preservada da origem
– é a discórdia entre as coisas, é o disparate.
A história ensina também a rir das solenidades da origem.

MICHEL FOUCAULT
Nietzsche, a genealogia, a história”

A voz é, no início, surda, pouco audível, desconfiada. Ela clareia e torna-se nítida quando ele se sente seguro. Isto é apenas um detalhe, ínfimo, entre centenas de outros. No entanto, nunca mais ouvi ninguém dizer “alô?” daquele jeito, ao mesmo tempo amedrontado, atento, à espreita. Como se, no segundo seguinte, tudo fosse se tornar possível, uma guerra ou um riso, uma ameaça, uma interrogação, alguma armadilha ou um embate.
            Foucault, dizendo “alô”, estava alerta. Pronto para tudo, lutar e esquivar-se, brincar ou brigar. Ao que me parece, tinha esta atitude com relação a tudo. Em todas as situações, ou quase, ele parecia sobreaviso. Não na defensiva, nada circunspeto, prudente ou reservado. Antes, espreitando, vigilante, pronto para qualquer eventualidade. Penso na famosa frase de Diógenes o Cínico: “O que a filosófica me ensinou? Estar pronto para qualquer eventualidade”. Era isto, sim, a eventualidade. O sentimento do aleatório. A acuidade do guerreiro: quem vem lá? amigo? inimigo? quem quer o que de mim? Mas, dissimuladamente, em voz baixa, sufocada, quase terna: “Alô?”.
            Do lado oposto, na outra ponta do espectro, o riso. Os risos, aliás. Pois, deles, Foucault tinha uma palheta muito variada. De conveniência: para se despedir, para acolher, para agradecer, um riso mais despojado, não exatamente mecânico, mas pouco vivo.  De mais despojado, não exatamente mecânico, mas pouco vivo. De zombaria: quando um crítico lhe desagradava, se um adversário o tivesse ferido, aparecia um riso sibilante, mais ou menos metálico. Diante do absurdo, da estupidez, da idiotice, da ignorância crassa, era um riso largo, sonoro, ruidoso. Havia também aquele outro tipo de riso que parecia submergi-lo quando uma palavra, uma lembrança, um gesto o faziam mergulhar de novo, subitamente, mesmo que por um instante, no universo da conquista e dos encontros ao acaso.
            Eu só frequentei Foucault por alguns meses, o que é bem pouco. Isso foi o bastante para compreender que havia nele algo inatingível. Mas será que se trata de “compreender”? Não, se considerarmos “compreender” uma operação do entendimento que, ao termo de um processo racional, tem um resultado argumentado como conclusão. Reúno, aqui, apenas algumas impressões, vendo claramente que são antigas e fugidias. Isto não parece um motivo suficiente para afastá-las, menos ainda para não confiar nelas.
            Creio, ao contrário, que convém reabilitar as impressões. O que assim nomeamos, na falta de algo melhor, designa, com efeito, algo que não se  encontra, finalmente em nenhum outro lugar. E que não é necessariamente acessório nem negligenciável. Tom de voz, brilho do olhar, postura do corpo, modo de se movimentar ou de se calar, ou de rir, ou de se vestir evocam, amiúde, alguma coisa completamente diferente de um detalhe. Ou melhor: quem então decidiu, desde quando, e como, aquilo que é detalhe e aquilo que não é?

Apagar os traços

            Dentre as impressões que me restam na memória, faz trinta anos, há Foucault de negro, numa manhã de inverno, na entrada da Biblioteca Nacional, um pouco esbaforido e inflamado, acabando de descer da bicicleta, falando rápido, antes de imergir na jornada dos livros. Foi talvez – eu não sei mais – a primeira vez que o vi. Eu estava evidentemente impressionado por encontrar aquele que alguns de nós estávamos lendo com paixão, há muitos anos. Nós o tínhamos apelidado “a cantora careca”, com uma ironia afetuosa e admirativa. E tendo vindo de bicicleta, isto tinha me impressionado. Um sentido do corpo, uma atenção cuidadosa com o esforço, com o músculo, com a esbeltez, mas sem ostentação, como uma brincadeira, uma maneira de passear, um modo também de flanar pela cidade. A impressão de que ele era livre sempre.
            Impressão confirmada, com ou sem razão, por sua aparente disponibilidade. Há pessoas que nunca têm o horário de almoço livre, antes do próximo trimestre, e, às vezes, com um pouco de sorte, só o tempo para o café, mas apenas no mês seguinte. Eu ficava muito surpreso que Foucault, solicitado, célebre, já mundialmente conhecido, causasse sempre a sensação, quando desejávamos encontra-lo, de não ter nada para fazer no dia seguinte. Parecia deixar seu interlocutor escolher o dia e a hora, como se ele tivesse todo o tempo disponível, e nada mais para fazer. Era algo simulado, mas não sem elegância.
            Assim, podíamos almoçar. Notadamente no Mercure Galant, atrás da Biblioteca Nacional da rua Richelieu, restaurante que hoje não existe mais. Este lugar parecia corresponder a Foucault. Havia aí, com efeito, um curioso misto de decoração clássica e de universo insólito. O que confirma sua reação às questões que eu lhe colocava, nesta época, nestes lugares. O que me interessava: sua relação com Kant. Ele havia traduzido Antropologia do ponto de vista pragmático. Este trabalho tinha sido, ao lado da História da loucura, sua tese complementar. E depois, aparentemente, mais nada. Por quê? Como? Não havia alguma coisa, apesar de tudo que perdurasse em segredo? Visivelmente, essas interrogações irritavam muito rapidamente. Uma resposta cortante caía: “Neste momento, eu me interesso pelas portas das retretes nas casernas alemães do século XVIII”. Clássico, sim, e, ao mesmo tempo, defasado. Modernidade atravessada por misturas.
Mesma impressão no apartamento de Foucault, no último andar de um prédio moderno, não longe da estação de metrô Vaugirard. A primeira vez que fui lá, tudo me pareceu curiosamente moderno. Até me surpreendi, não sei porque, que a cozinha tivesse um micro-ondas e que Foucault, com uma camisa de gola rolê branca, preparasse, ele mesmo, um prato de frango ligeiramente cremoso. E depois ele me explicou, rindo, como a parede do fundo, que parecia uma estante de livros fixa, deslizava, para comunicar o seu apartamento com outro, onde morava seu companheiro. Conforme os visitantes, esta divisória ficava fechada ou aberta.
            Na decoração contemporânea, quase design, deste apartamento luminoso, subsistia então, com esta divisória de correr, um quê de uma sombra antiga. Brincadeira de piratas, esconderijo, armadilha, censura. Não é uma piscadela para a história antiga das portas ocultas e das passagens secretas que está aqui em questão. Também não se trata do cuidado que Foucault tinha em só viver abertamente de maneira seletiva. É algo muito difícil de entender, mas interessante, talvez.
            Parece que em sua casa existem, um pouco por toda parte, gavetas secretas, fundos por detrás de outros, disfarçados. Não que sua obra seja esotérica, evidentemente. Fora de questão inscrevê-la na linhagem dos ocultistas e outros autores criptônimos. Porém, as relações de um livro com outro, por exemplo, geralmente se ocultam. As continuidades são marcadas. Na vida do homem, parece-me que o mesmo acontece. Se Foucault tem tantas faces que, frequentemente, não se encaixam, ou tão mal, é também porque ele queria apagar os traços, organizar lacunas, deixar silêncios. É também uma maneira de ser livre.
            E havia muita liberdade em Foucault, de modo sempre singular. Fiquei surpreso com as posturas, nas vezes em que o encontrei em sua casa. Ao falar, ele tinha maneiras não fixas, pouco comuns, de segurar a cabeça com uma só mão, ou de cruzar uma perna, ou ainda de deixar pender um braço. Não vejo aí, simplesmente, sinais de descontração, atitudes descontraídas de alguém que está em casa e que pode, falando, sentar-se sobre a perna ou meio que se atirar no sofá.
            Certamente isto acontecia. Mas também outra coisa. Como um gestual do corpo codificado de modo diferente do que nas convenções que regem também a descontração. Uma maneira livre de se portar, diferente, prestes a perturbar a ordem das posturas ditas normais do corpo em sociedade. Talvez fosse necessário aproximar isto de tudo aquilo que Foucault estudou sobre o adestramento dos corpos na sociedade disciplinar, em que se trata justamente de restringir ou de anular a parte do movimento corporal livre e espontâneo.

            O que é curioso, é que, até onde eu me lembre, essas posturas atípicas, essas maneiras de se portar diferentes, nunca davam a impressão de um desleixo qualquer. Foucault podia ser desengonçado, nunca estava relaxado nem desleixado. Porque, parece-me, havia nele como que uma vigilância sempre alerta, algum movimento sempre organizado uma retirada, uma distância. Impossível imaginá-lo desatento, impossível também imaginá-lo ingenuamente simples.

Febre e ocupação

Alguma coisa nele devia permanecer indefinidamente inacessível. É assim, em todo caso, que eu o imagino. Como se ele buscasse permanentemente cavar uma distância em relação às pessoas. Numa primeira abordagem, sua extrema afabilidade preenchia essa função. Ela era tão excessiva, às vezes, mesmo hiperbólica, que só podia instaurar grandes distancias.
            Sua febre, também, o colocava à parte. Emprego esta palavra na falta de outra melhor. Foucault vivia como que numa perpétua ocupação, sempre atento. Ninguém era menos plácido, nem mais móvel. Ele era capaz, a respeito de um mesmo assunto, de multiplicar as abordagens e os pontos de vista com uma extraordinária velocidade. Aliás, ele não cessou de multiplicar os programas, as listas de coisas a fazer. “Será necessário um dia...” era uma expressão retomada muitas vezes em seus propósitos, tal como figura frequentemente em seus escritos. Esta febre era um excesso, uma profusão, um permanente transbordar. Foucault dava a impressão de ter mais projetos que tempo, mais ideias que livros, mais possíveis que realizações, que eram, por sinal, muito numerosas!
            Finalmente, Foucault era um impulso. Uma espécie do élan permanente, uma extraordinária máquina de arrebatar. Desta força que incita, restam mil traços e mil consequências. Sua influência exerceu-se sobre toda a geração à qual pertenço, que tinha vinte anos por volta de Maio de 68. Outras, sem dúvida, mais jovens, ou vivendo em outras culturas, foram influenciadas de outra maneira por Michel Foucault. Quanto a mim, por mais que eu não seja “foucaultiano”, sei aquilo que creio lhe dever.
            Em primeiro lugar um programa. Meu trabalho de pesquisador inscreveu-se, de fato, num programa que Foucault havia indicado no primeiro prefácio de História da loucura. Por sua vez, ele havia deixado este canteiro de lado, do mesmo modo que não quis reeditar o prefácio. Ele escrevia então:

Na universalidade da ratio ocidental, há esta divisão que é o Oriente: o Oriente, pensado como a origem, sonhado como o ponto vertiginoso de onde nascem as nostalgias e as promessas de retorno, o Oriente oferecido à razão colonizadora do Ocidente, porém, indefinidamente inacessível, pois o limite sempre permanece: noite do começo, em que o Ocidente se formou, na qual traçou uma linha de divisão, o Oriente é, para ele, tudo aquilo que ele não é, ainda, que ele deva buscar nele sua verdade primitiva. Será preciso fazer uma história desta grande divisão, ao longo de todo o devir ocidental, segui-la em sua continuidade e suas trocas, mas deixá-la também aparecer em seu hieratismo trágico.

            Os dois livros que dediquei a determinados aspectos desta divisão inscrevem-se, ao seu modo, na direção indicada por Foucault. O esquecimento da Índia e O culto do nada contribuem, em alguns aspectos delimitados, para esclarecer o lugar e a função do Oriente na consciência europeia bem como a constituição de sua identidade moderna. Eles procuram, com efeito, abordar o processo histórico que viu a descoberta científica do Oriente, mais particularmente, do âmbito do sânscrito, e realizar uma re-elaboração filosófica dos traços que caracterizam “a Europa”, “o espírito” europeu, “a identidade” europeia etc. Não se trata de comprar entidades já definidas em sua integralidade, “a Europa” e “a Índia”. O objetivo é contribuir para a compreensão dos processos dinâmicos em que essas representações delinearam-se reciprocamente.
            Segundo elemento importante, esta convicção, própria de Foucault, de que tudo é dito nos arquivos, explicitamente. Inútil imaginar estratégias secretas, intenções escondidas nos processos de saber e de poder. Tudo é formulado, tornado preciso, repetido, às claras. Esta ideia me ajudou enormemente, durante anos passados pesquisando aquilo que era agenciado, no século XIX, em torno da descoberta do budismo e das interpretações que ela suscitava.  Pude constatar que, efetivamente, se nos damos ao trabalho de ler, tudo está ali, preto no branco, sem pudor e sem rodeios. Não concluo com isso, necessariamente, que conviria desempregar todos os hermeneutas, porém que toda interpretação inútil deve, se possível, ser afastada, quando se tratar de história dos sistemas de pensamento.
            Restam, também, deste impulso chamado Foucault, os grandes registros “guerra” e “urgência”. Foucault fez compreender quanto efeitos de verdade e relações de forças são interligados. Não há senão a guerra, em toda parte, sobretudo sem fim, sem origem nem termo, sem vitória nem trégua, com evoluções apenas, mudanças de estilo ou de campo. É isso que ensina, no fundo: o combate como dimensão essencial do pensamento e da vida. Sem dúvida, Nietzsche o tinha visto, sem contar Heráclito e sua grande intuição da discórdia. Mas foi Foucault quem permitiu entrevar a riqueza desta perspectiva.
            A urgência, este gosto do agir próprio da febre, cresce para intervir nas lutas, para inflecti-las ou modifica-las. Ela é acompanhada, em Foucault, por um desprezo soberano pela metafísica e pelos seus embaraços risíveis. Foi possível segui-lo, neste registro, num domínio determinado, o jornalismo. Pensei, muitas vezes, com emoção e gratidão, nesta maneira que ele tinha de considerar a imprensa com um lugar de intervenção para um intelectual. Um lugar permanente, legítimo, essencial. Não um domínio de incursões pontuais, por onde passariam assinaturas de prestígio. Foucault incitava uma urgência jornalística vivida de dentro, dentro das redações, segundo modalidades que deviam, evidentemente, ser inventadas por cada um.
            Com esta coletânea, desejei fazer uma modesta homenagem à memória de Michel Foucault, por ocasião do vigésimo aniversário de sua morte. Ela começa com um curto estudo sobre sua trajetória, extraído do meu trabalho, A companhia dos filósofos, lembrando alguns dados básicos àqueles que não conhecem bem sua contribuição. Seguem-se três entrevistas, publicadas em jornais, em diferentes datas.
            Reúno estas páginas dispersas com a preocupação de que essas possam ser úteis a uma melhor descoberta de seu pensamento e de seu percurso. Nestas entrevistas, Foucault aborda, efetivamente, de maneira simples e direta, temas maiores do seu trabalho, como, por exemplo, a delinquência, a institucionalização dos saberes, a dispersão dos focos de poder. Mas também evoca temas mais pessoais, que frequentemente não foram desenvolvidos. Em particular, sua relação com a literatura, com o trabalho da escrita, sua relação com o marxismo e com os comunistas, sua formação intelectual, seu olhar sobre seus próprios livros e sobre a acolhida que tiveram. Parece que, ao longo das respostas, desenha-se um Foucault sensivelmente diferente daquele dos trabalhos e dos cursos.
            Tais são as minhas impressões.



             Roger Pol-Droit
             Paris, 12 de julho 2004