A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela! Lima Barreto, Diário do Hospício. Imagem principal: Petros Koublis

sábado, 13 de agosto de 2016

ABAIXO A DITADURA FORA TEMER

Brasil, 1968





















Brasil, 2016






















O Brasil recluso no labirinto da crise da ganância global e do
entreguismo da direita local – trapaceira corrupta e golpista.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Seu branco, dê o fora,
Deixe os nego em páis.





















Murilo Mendes, "Cantigas dos Palmares"
Ney Ferraz Paiva, "Murilograma a Temer 1"



Seu branco, dê o fora,
Sinão toma pau.





  
Murilo Mendes, "Cantigas dos Palmares"
Ney Ferraz Paiva, "Murilograma a Temer 2"


terça-feira, 9 de agosto de 2016

SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL


gatos roeram a cara de Picasso numa revista
gatos deram a Picasso uma sepultura rasa de
arranhaduras cortes pontapés na cara o que era
pra ser só brincadeira acabou em morte quando
o corpo não é realmente nada belo faz-se outro
corpo Picasso não estava nem aí pra beleza mas
gatos não passam sem ela se param se despistam
não vão a outro lugar onde ela não esteja Picasso
se deixava derreter na praia sob o sol gatos odeiam










Ney Ferraz Paiva, Arrastar um landau debaixo d'água, 2015

sábado, 6 de agosto de 2016

BLANCHOT A KOZOVOI


Ele, Blanchot, recebeu
O livro de Paul Valéry
Traduzido por Kozovoi
“Quero agradecer”
Uma carta, um livro
Uma iniciação louca
No ventre da velhice
Começa-se a amizade
Um nunca viu o outro
Mas foram enlaçados
Com devoção irrestrita
De muito longe ressoa
O silêncio que não isola
Abre o coração imensurável
Cartas curam catástrofes:
“Precisas de dinheiro?”
“Tens notícia de teu pai?”
“Ira recebeu minha carta?”
“A mãe dela está doente,
É grave?” Anda-se o caminho
Anda-se também em círculos
Sobre as próprias pegadas
O desgaste do solo é grave
A solidão está logo abaixo
O esquecimento o atraso
Uma ferida que não seca
Considerai essa viagem
A contrapelo à flor da pele
A amizade vela o desastre


Vadim Kosovoi e Maurice Blanchot






















Ney Ferraz Paiva

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

os vocábulos
                    fúnebres
quando se juntam
                          ocultos dentro de nós
só os olhos
                 podem tocar
isto poderia ter sido dito por rosário fusco
mas foi por mim
                         ou terá sido por ti?
                         nem estou mais certo
                         [teus olhos ainda escutam?]




ney ferraz paiva, nave do nada, 2004

quarta-feira, 27 de julho de 2016

KAFKA E SEUS PRECURSORES


  Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. A princípio, pude considerá-lo tão singular como a fênix dos louvores retóricos; do pouco que o li, pensei reconhecer sua voz, ou seus hábitos, em textos de diversas literaturas e de diversas épocas. Registrarei alguns deles aqui, em ordem cronológica.
  O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento. Um móvel que está em A (declara Aristóteles) não poderá alcançar o ponto B, porque antes deverá percorrer a metade do caminho entre os dois, e antes a metade da metade, e antes a metade da metade da metade, e assim até o infinito; a forma desse ilustre problema é, exatamente, a de O castelo, e o móvel e a flecha e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura. No segundo texto que me trouxe o acaso dos livros, a afinidade não está na forma, mas no tom. Trata-se de um apólogo de Han Yu, prosador do século IX, e consta na admirável Anthologie raisonnée de la littérature chinoise (1948), de Margouliès. É este o parágrafo que marquei, misterioso e tranquilo: “Universalmente se admite que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; assim declaram as odes, os anais, as biografias de varões ilustres e outros textos cuja autoridade é indiscutível. Até os parvos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Porém, esse animal não figura entre os animais domésticos, e encontrá-lo não é fácil, não se presta a classificações. Não é como o cavalo ou o touro, o lobo ou o corvo. Em tais condições, poderíamos estar diante de um unicórnio e não saberíamos com segurança que se trata dele. Sabemos que um animal com crina é cavalo e que um animal com chifres é touro. Não sabemos como é o unicórnio”.
  O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. A finalidade mental desses dois escritores é coisa que ninguém ignora; o que ainda não se destacou, pelo que sei, é a recorrência de Kierkegaard, como Kafka, em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. Lowrie, em seu Kierkegaard (Oxford University Presss, 1938), transcreve duas. Uma é a história de um falsificador que examina, incessantemente vigiado, as cédulas do Banco da Inglaterra; Deus, de igual modo, desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria confiado uma missão, justamente por sabê-lo habituado ao mal. O assunto da outra são as expedições ao polo Norte. Os párocos dinamarqueses teriam declarado desde os púlpitos que participar de tais expedições convém à salvação eterna da alma. Não obstante,  teriam admitido que chegar ao polo é difícil e talvez impossível, e que nem todos podem intentar a aventura. Finalmente, anunciaram que qualquer viagem – da Dinamarca a Londres, digamos, de barco a motor –, ou um passeio dominical em carro de praça,  são, analisando-se bem, verdadeiras expedições ao polo Norte. A quarta das prefigurações a encontrei no poema “Fears and Scruples”, de Browning, publicado em 1876. Um homem tem, ou acredita ter, um amigo famoso. Nunca o viu e o fato é que, até agora, ele não pôde ajudá-lo, embora atribuam a ele gestos muito nobres, e circulem cartas autênticas com seu nome. Há quem ponha em dúvida os gestos, e os grafólogos afirmam o caráter apócrifo das cartas. O homem, no último verso, pergunta: “E se esse amigo for Deus?”.
   Minhas notas registram igualmente dois contos. Um pertence às Histories désobligeantes de León Bloy e alude ao caso de pessoas que colecionam globos terrestres, atlas, guias ferroviários e baús, e que morrem sem jamais ter conseguido deixar sua cidade natal. O outro se intitula “Carcassonne” e é obra de lorde Dunsany. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito, subjuga reinos e vê monstros e se exaure nos desertos e nas montanhas, mas nunca chega a Carcassonne, ainda que chegue a divisá-la. (Este conto é, como facilmente se advertirá, o exato reverso do anterior; no primeiro, nunca se sai de uma cidade; no último, nunca se chega).
  Se não me engano, as heterogêneas peças que enumerei se assemelham a Kafka; se não me engano, nem todas se parecem entre si. Este último fato é o mais significativo. Em cada um desses textos está a idiossincrasia de Kafka, em grau maior ou menor, mas se Kafka não tivesse escrito, não a perceberíamos; vale dizer, não existiria. O poema “Fears and Scruples” de Browning, profetiza a obra de Kafka, mas nossa leitura de Kafka apura e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. Browning não o lia como nós agora o lemos. Ao vocabulário crítico, a palavra precursor é indispensável, mas é preciso tentar purificá-la de toda conotação polêmica ou rivalidade. O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro. Em nada importa, nessa correlação, a identidade ou a pluralidade dos homens. O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes do que Browning ou lorde Dunsany.


Kafka e sua irmã Otlla

Jorge Luis Borges
Buenos Aires, 1951

sábado, 23 de julho de 2016

ANUNCIAÇÃO OU ANATOMIA DE AFRODITE*
por Giselda Leirner


Rosa era um ovo. Cheio e frágil. Acordava cedo. Não lembrava de sonhos. Assim que se levantava, punha uma polca no aparelho de som. Era seu único disco. Não tinha muitos pensamentos, e falava sozinha. Não fôra sempre assim. É claro que nada é sempre assim. Rosa fôra loira, alegre, gostara de um homem e de arte sacra, mais que tudo. Nunca saiu de sua cidade e sua cidade nunca deixou de ser Girona, terra cansada de uma Espanha negra e profunda.
Morava numa casinha torta, uma porta embaixo e em cima um balcão precário repleto de pequenos vasos de plantas verdes. Uma cortina de renda suja protegia o vidro embaçado da janela que dava para a Ruta de los Camiños de los Judius. Usava um penhoar rosa sobre a camiseta que lhe vinha até os joelhos grandes nas pernas finas. Passava o dia assim. Regava os vasos. Comia pouco, não pensava em nada e falava, falava sem parar. Com ninguém menos que o Grão Rabino Nahmánides, chamado pelo nome de Bonastruc de Porta. Não precisava pensar, pois o rabino sabia as perguntas e dava as respostas.
Rivkale, tão branca, nada se mexe em você, nada pode te tocar, pois quebras facilmente, dizia o Rabi. Não vais à sinagoga, não rezas os shabats, nem nos dias sagrados. Não sais de casa. Não importa. De todos os judeus que daqui tiveram de fugir, você foi a escolhida para ficar. O que será de você quando eu tiver que ir?
Eu sei que Deus te escolheu. Me pergunto por quê. Será pela tua inteireza e pelo que você carrega no teu ventre? Este ser inacabado. Eternamente grávida, Rosa, como consegues? Acho que é porque não pensas. É preciso não pensar para manter-se eternamente grávida assim.
Teu nome carrega espinhos. Aqueles que não podem te tocar. Não fostes feita para espinhos nem que sejam os de uma coroa. Tua coroa é luz, brilhante e azul. Só eu a vejo. Ela ilumina quem se aproxima tanto de ti que não pode mais te ver. 
Você desaparece e só a luz permanece. Teu filho-embrião nunca verá a luz mas será luz. Nunca serás Maria. Pois como pode Rosa ser Maria? Nem queres, não é? Para ser Maria é preciso poder sofrer sem quebrar, e você, eu sei, quebrará, isto eu sei. 
Você fica horas olhando Madonas no velho livro. Há uma em especial, sorridente, que fecha um olho em piscada matreira, só para você. O sorriso da Madona te faz sorrir de volta. Duas comadres que se estendem. Eu te entendo.

O dia em que a tartaruga apareceu no jardim havia um perfume de lilases no ar. A trepadeira de glicínias estava tão cheia que seus cachos caíam até o solo, misturando-se às buganvílias roxas que por ali subiam. O pequeno jardim era todo roxo e verde. No meio desta pequena caverna colorida só se destacava a cadeira de palha pintada de branco. Era ali que Rosa estava sentada quando viu o bicho aparecer.
Ele veio vindo muito vagarosamente e parou em frente. Sua armadura brilhava ao sol e o olho, que só as tartarugas podem ter, o olho da eternidade fixava-se lá onde os humanos não chegam.
Ao perfume de lilases somou-se um estranho, pungente odor de eucaliptos molhados. O corpo duro ali parado não saía do lugar. De nada adiantou cutucá-lo, oferecer-lhe água, falar com ele. 
Rosa desistiu e aceitou sua presença inusitada sem mais prestar lhe atenção. O tempo passou despercebido, inexistente. 


Rosa, de olhos fechados, deixara de falar. O rabino há tempos tinha morrido. Agora só ouvia os sons longínquos dos responsórios do convento que ficava mais no alto de seu jardim, pelo qual ela caminhava por escadas de pedra, para então sentar-se encostada na parede e ouvir melhor o canto das mulheres.
A tartaruga passou a segui-la. Entrando em casa com o bicho atrás, preparava o almoço pondo um pouco de sua comida numa tigela que depositava no chão. Assim, ambas comiam repartindo o silêncio.


Passaram-se meses. O silêncio nunca mais foi rompido nem a polca tocada. O som era o dos pássaros, das folhas, da chuva e das monjas. O mais perfeito e redondo silêncio. 
Numa noite, Rosa, de seu sono, lançou um grito. Terrivelmente ecoante, um grito longo sem pausa, único, suspenso no escuro céu sem lua. 
Aos poucos, do negro deserto a lua surgiu imensa iluminando todos os cantos do quarto. A tartaruga tinha desaparecido.
Rosa, deitada, muito calma ficou assim sem se mover. Não havia mais tempo neste espaço de luz. Com medo de se virar ou mexer ficou assim, sentindo um peso úmido sobre seu ventre. Aos poucos foi aproximando as mãos e apalpou uma pequena cabeça molhada, logo em seguida foi tocando o pequeno ser que se mantinha imóvel. Apanhou-o com delicadeza para lhe ver o rosto. Era um menino muito quieto, de olhos abertos. Fitava fixamente a mãe e tinha um ligeiro sorriso. Havia luz em tudo. Deitado ao seu lado emitia sons que não eram do vagido próprio dos bebês nem eram palavras ou gemidos, nem propriamente choro.
Na verdade o som não vinha do leito, mas de fora, do vento que batia forte nas janelas Le-Lah-Kan-He, sons que lhe produziam  a sensação de estar sonhando um ofuscamento próprio daqueles que não enxergam bem ou veem bem demais.
Quando silenciou o vento, o bebê também calou. Sua pequena boca só abria para receber o leite do peito materno que sugava avidamente.
Esta criança que nasceu de olhos abertos e não os fechava nunca, nem para dormir, era doce e macia nos braços da mãe que o olhava com espanto e admiração. A cabeça muito enrugada ao tato, assemelhando-se a uma noz, cheia de reentrâncias suaves, recebia as carícias dos dedos maternos.
Era grande o amor trocado entre as pontas dos dedos e a superfície do crânio desenhado por uma vontade desconhecida de ambos. Nasceu o menino de Rosa assim, cego, de olhos abertos, pois não possuía pálpebras para fechá-los. Surdo e mudo.
Aquele que tudo ouviria, tudo saberia e, sem falar, um dia haveria de chorar baixinho a dor dos que conhecem os degraus que levam ao patamar do espírito sagrado, dedicando sua vida à Sabedoria, à Razão e ao Conhecimento. 
O filho que Deus mais uma vez mandou à Terra e a quem Rosa chamou de Yihud.


Francesca Woodman











Giselda Leirner, A Filha de Kafka, Massao Ohno Editor, 2000.
* Anatomia de Afrodite - Paul Klee


terça-feira, 19 de julho de 2016

O FIM DAS COISAS COMO NÓS O CONHECEMOS


Faz parte de uma política perversa na Amazônia a extinção do patrimônio artístico cultural. A grande máquina do estado e seus sucessivos operadores o expõe a uma exaustão ainda mais brutal que a do tempo. Tanto o patrimônio material quanto imaterial. Por decreto, indiferença ou abandono. É normal, banal e consentido pelos demais poderes constituídos, judiciário e legislativo. Faz parte de um grande cerco de violência. Tratar a cultura artística de forma fascista. Artistas, tornados neutros e neutralizados, num contexto de complexa deformação política, quando muito, conseguem operar uma autonomia relativizada pela repartição de poder, espaço e financiamento. O colapso e o desastre seguem uma linha de continuidade fatal.

Bruno de Menezes, em luta social e a contrapelo, implanta o movimento modernista em Belém, em 1923. Vamos logo lá aonde isso vai chegar. O baratismo, a tentacular política-administrativa do estado, iniciado em 1930, e suas sinistras ramificações que se estenderão até 1964, confisca, varre o movimento para debaixo do tapete. Em seguida, com a ditadura, o colapso e o desastre se intensificam nacionalmente. Daí o que resulta – ou se ignora ou se conhece muito mau (o que também é desconhecer) o modernismo na Amazônia. Tanto que em recente artigo, um dos principais críticos literários em atuação no país, referindo-se ao modernismo entre nós, diz sumariamente: “tardou... mas chegou”. Quando, em Belém, o movimento foi correlato ao de São Paulo.

Não há outra via. Os capitães-do-mato seguem tratando o patrimônio artístico e os artistas com chicote. Habituados às negociações de bastidores, às portas fechadas, sem nenhum diálogo, consulta, mobilização. “Lei é potoca”, o slogan baratista ressoa ainda pelos palácios. E uma vez mais, e talvez não seja a última infelizmente, o fechamento do Museu de Arte Contemporânea na Casa das Onze Janelas, centro histórico de Belém, para abertura de um polo gastronômico, pontua estas ações de apagamento da cultura artística e de saque dos bens naturais da Amazônia. A despeito de firmar um acordo com as demandas do mercado e do consumo, e com o grande espetáculo do momento, a arte de comer bem, exposta como símbolo de desenvolvimento e sofisticação, corta, na verdade, a continuidade e os desdobramentos de práticas sócio interativas livres e abertas com a imagem, a memória e o pensamento contemporâneos.



Ney Ferraz Paiva

Abraço simbólico dos artistas paraenses no Museu  da Casa das Onze Janelas.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

JEAN-JACQUES ROUSSEAU – PRECURSOR DE KAFKA, DE CÉLINE E DE PONGE [1962]

por Gilles Deleuze



            Arriscamo-nos de duas maneiras a ignorar um grande autor. Por exemplo, ao desconhecer sua lógica profunda ou o caráter sistemático de sua obra. (Falamos, então, de suas, “incoerências”, como se elas nos dessem um prazer superior). Ou, de outro modo, ao ignorar sua potência e seu gênio cômicos, de onde a obra retira geralmente o máximo de sua eficácia anticonformista. (Preferimos falar das angústias e do aspecto trágico). Na verdade, não se pode admirar Kafka sem rirmos ao lê-lo. Estas duas regras valem eminentemente para Rousseau.
            Em uma de suas teses mais célebres, Rousseau explica que o homem no estado de natureza é bom, ou pelo menos não é mau. Isso não é uma declaração generosa nem uma manifestação de otimismo; é um manifesto lógico extremamente preciso. Rousseau quer dizer: o homem, tal como se pode supô-lo em um estado de natureza, não pode ser mau, pois as condições objetivas que tornam possíveis a maldade e seu exercício não existem na própria natureza. O estado de natureza é um estado no qual o homem está em relação com as coisas, e não com outros homens (salvo de maneira fugaz). “Os homens, se quisermos, se agrediam ao se encontrarem, mas eles pouco se encontravam. Por toda parte reinava o estado de guerra, e toda a terra estava em paz” (DLa). O estado de natureza não é somente um estado de independência, mas de isolamento. Um dos temas constantes de Rousseau é que a necessidade não é um fator de aproximação: ela não reúne, ao contrário, isola. Por serem moderadas, nossas necessidades no estado de natureza entram necessariamente em uma espécie de equilíbrio com nossos poderes, adquirem uma espécie de auto-suficiência. Mesmo a sexualidade, no estado de natureza, apenas engendra aproximações fugazes ou nos deixa na solidão. (Rousseau tem muito a dizer, e diz muito sobre este ponto, que é como o reverso humorístico de uma teoria profunda.)
            Como os homens poderiam ser maus quando lhes faltam as condições para tanto? As condições que tornam a maldade possível confundem-se com um estado social determinado. Não há maldade desinteressada, embora seja isso o que dizem os próprios malvados e os imbecis. Toda maldade é lucro ou compensação. Não há maldade humana que não se inscreva em relações de opressão, conforme interesses sociais complexos. Rousseau é um desses autores que souberam analisar a relação opressiva e as estruturas sociais que ela supõe. Será preciso esperar Engels para que se relembre e renove este princípio de uma lógica extrema: que a violência e a opressão não formam um fato primeiro, mas supõem um estado civil, situações sociais, determinações econômicas. Se Robinson escravizou Sexta-Feira, não foi por gosto natural, não foi nem mesmo à força; foi com um pequeno capital e meios de produção, que ele salvou das águas, e para submeter Sexta-Feira a tarefas sociais que não se apagaram da memória de Robinson durante o naufrágio.
            A sociedade nos coloca constantemente em situações em que temos interesse em ser malvados. Por vaidade, adoraríamos crer que somos maus naturalmente. Mas, na verdade, é bem pior: nós nos tornamos maus sem saber, sem mesmo nos darmos conta disso. É difícil ser herdeiro de alguém sem desejar inconscientemente sua morte por este ou aquele motivo. “Em tais situações, apesar de nos conduzir um sincero amor pela virtude, mais cedo ou mais tarde, sem que se perceba, fraquejamos, e nos tornamos injustos e maus ao agir, sem deixarmos de ser justos e bons na alma” (DLb). Ora, parece que, por um estranho destino, a bela alma é constantemente empurrada para situações das quais ela não sai sem grande sofrimento. A bela alma usará de sua ternura e sua timidez para extrair das piores situações os elementos que, não obstante, lhe permitirão conservar sua virtude. “Desta oposição contínua entre minha situação e minhas inclinações, nascem pecados enormes, desgraças inauditas, e todas as virtudes, exceto a força, que podem honrar a adversidade” (DLc).  Achar-se em situações impossíveis é o destino da bela alma. Toda a verve de Rousseau vem de ser ele um extraordinário cômico de ocasião. Ora, As Confissões acabam como um livro trágico e alucinado, mas começam como um dos livros mais alegres da literatura. Mesmo os vícios preservam Rousseau da maldade para a qual eles o deveriam arrastar; e Rousseau se esmera na análise desses mecanismos ambivalentes e salutares.
            A bela alma não se contenta com o estado de natureza; ela sonha afetuosamente com as relações humanas. Ora, essas relações sempre se encarnam em situações delicadas. Sabe-se que o sonho apaixonado de Rousseau é reencontrar as figuras de uma Trindade perdida: seja a mulher amada que ama outro, que será como um pai ou irmão mais velho: sejam duas mulheres amadas, uma como uma mãe severa e que castiga, a outra como uma mãe terna que faz renascer. (Rousseau já persegue essa busca apaixonada de duas mães, ou de um duplo nascimento, em um de seus amores de infância.) Mas as situações reais onde esta fantasia se encarna são sempre ambíguas. Elas acabam mal: ou nós nos conduzimos mal ou nos excedemos, ou ambas as alternativas ao mesmo tempo. Rousseau não reconhece seu terno devaneio quando ele se encarna em Teresa e na mãe Teresa, antes mulher ávida e desagradável do que mãe severa. Nem quando Madame de Warens quer que ele desempenhe o papel de irmão mais velho com relação a um novo favorito.
            Rousseau explica com frequência e com alegria que ele tem as ideias lentas e os sentimentos rápidos. Mas as ideais, de formação lenta, emergem subitamente na vida, dão-lhe novas direções, inspiram-lhe estranhas invenções. Nos poetas e nos filósofos, nós devemos apreciar mesmo as manias, as bizarrices que testemunham combinações da ideia e do sentimento. Baseado nisso, Thomas de Quincey criou um método apropriado para nos levar a amar os grandes autores. Em um pequeno livro sobre Kant (“Os últimos dias de Emmanuel Kant”, que Schwob traduziu) (DLd). Quincey descreve o aparelho extremamente complexo que Kant inventou para lhe servir como suporte para meias. O mesmo se pode dizer do traje de armênio de Rousseau quando ele morava em Motiers e amarrava os sapatos nos degraus de entrada de sua casa enquanto conversava com as moças. Há aí verdadeiros modos de vida, são anedotas de “pensador”.
            Como evitar as situações em que nos interessa ser maldosos? Sem dúvida, uma alma forte pode, por um ato de vontade, agir sobre a própria situação e modificá-la. Por exemplo, pode-se renunciar a um direito de herança para não estar na situação de desejar a morte de um pai. Da mesma forma, em A Nova Heloísa, Júlia compromete-se a não se casar com Saint-Preux, mesmo que seu marido venha a morrer: assim “ela troca o interesse que ela tinha em sua perda pelo interesse em conservá-la” (Dle). Mas Rousseau, segundo seu próprio testemunho, não é uma alma forte. Ele ama a virtude mais do que é virtuoso. Salvo em matéria de herança, ele tem imaginação demais para renunciar por antecipação e por vontade. Ele precisa de mecanismos mais sutis para evitar as situações tentadoras ou para delas sair. Ele tudo arrisca, mesmo sua frágil saúde, para preservar suas aspirações virtuosas. Ele próprio explica como a doença de sua bexiga foi um fator essencial em sua grande reforma moral: por medo de não se aguentar em presença do rei, ele prefere renunciar à pensão. A doença o inspira como fonte de humor (Rousseau relata seus problemas de audição com uma verve semelhante à de Céline mais tarde). Mas o humor é o contrário da moral: melhor ser copista de música que pensionista do rei.
            Em Nova Heloísa, Rousseau elabora um método profundo, apto para conjurar o perigo das situações. Uma situação não nos tenta unicamente por ela mesma, mas devido a todo o peso de um passado que nela se encarna. É a procura do passado nas situações presentes, é a repetição do passado que nos inspira nossas paixões e nossas tentações mais violentas. É sempre no passado que amamos, e as paixões são doenças próprias à memória. Para curar Saint-Preux e para trazê-lo ou convertê-lo à virtude, M. de Wolmar emprega um método pelo qual ele conjura os prestígios do passado. Ele força Julie e Saint-Preux a se beijar no mesmo bosque que viu seus primeiros amores: “Julie não mais temia esse asilo, ela acabara se ser profanado” (DLf). É necessário fazer da virtude o interesse presente de Saint-Preux: “não é por Julie de Wolmar que ele está apaixonado, mas por Julie d’Etange; ele não me odeia absolutamente como o que se apossou da pessoa que ele ama, mas como o raptor daquela que ele amou... Ele a ama no tempo passado; eis a chave do enigma: corte-lhe a memória, ele não terá mais amor” (DLg). É na relação com os objetos, com os lugares, por exemplo um bosque, que conhecemos a fuga do tempo e que saberemos, enfim, querer no futuro, em lugar de nos apaixonarmos no passado. Isso é o que Rousseau chamava de “o materialismo do sábio” (DLh) ou cobrir o passado com o presente.
            Os dois polos da obra filosófica de Rousseau são o Emílio e o Contrato social. O mal, na sociedade contemporânea, é que nós não somos mais nem homem privado nem cidadão: o homem tornou-se “homo oeconomicus”, isto é, “burguês”, animado pelo dinheiro. As situações em que há interesse em sermos maus implicam sempre relações de opressão, nas quais o homem entra em relação com homem para obedecer ou comandar, senhor ou escravo. O Emílio é a reconstituição do homem privado, o Contrato social, a do cidadão. A primeira regra pedagógica de Rousseau é esta: nós chegaremos a nos constituir enquanto homens privados quando restaurarmos nossa relação natural com as coisas, com isso preservando-nos das relações artificiais demasiado humanas que, desde a infância, acarretam em nós uma perigosa tendência a comandar. (E é a mesma tendência que nos faz escravo e que nos faz tirano.) “Ao exercer o direito de serem obedecidas, as crianças saem do estado de natureza quase ao nascer” (Dli). A verdadeira correção pedagógica consiste em subordinar a relação dos homens à relação do homem com as coisas. O gosto das coisas é uma constante na obra de Rousseau (os exercícios de Francis Ponge têm algo de rousseauniano). Daí a famosa regra de Emílio, regra que requer apenas  vigor: jamais trazer as coisas para a criança, mas levar a criança até as coisas.
            O homem privado é aquele que, devido à sua relação com as coisas, conjurou a situação infantil que lhe confere o interesse em ser mau. Mas o cidadão é aquele que entra em relações com os homens, onde ele tem exatamente interesse em ser virtuoso. Instaurar uma situação objetiva e atual em que a justiça e o interesse se reconciliem, parece ser, segundo Rousseau, a tarefa efetivamente política. E a virtude retoma aqui seu sentido mais profundo, que remete à determinação pública do cidadão. O Contrato social é, com certeza, um dos grandes livros da filosofia política. Um aniversário de Rousseau é a ocasião certa de ler ou de reler o Contrato social. Nele, o cidadão aprende qual é a mistificação da separação dos poderes; como a República define-se pela existência de um único poder, o legislativo. A análise do conceito de lei, tal como aparecia em Rousseau, dominará por muito tempo a reflexão filosófica e a domina ainda.
. . .

Tradução de Hélio Rebello Cardoso Júnior


Toxic Boy , Jee Young Lee





Arts, nº 872, 6-12 junho, 1962, p. 3 (Por ocasião do  250º aniversário do nascimento de Rousseau). Em 1959-1960, Deleuze, assistente na Sorbonne, consagrou um ano de curso à filosofia política de Rousseau do qual existe um resumo datilografado editado pelo Centro de Documentação Universitária da Sorbonne.
(DLa) Essai sur l’origine des langues, IX, in Oeuvres complètes, vol. V, Paris, Gallimard, coll. “Bibliothèque de la Pléiade”, 1995, p. 396.
(DLb) Les Confessions, II, in Oeuvres complètes, vol. I, Paris, Gallimard, coll.“Bibliothèque de la Pléiade”, 1959, p. 56.
(DLc) Les Confessions, VII, ibid., p. 277.
(DLd) Texto reeditado em volume: T. de Quincey, Les derniers jours d’Emmanuel Kant, Toulouse, Ombres, 1985.
(DLe) La Nouvelle Heloïse, terceira parte, carta XX, in Oeuvres complètes, vol. II, Paris, Gallimard, col. “Bibliothèque de la Pléiade”, 1961, p. 1558 n.
(DLf) La Nouvelle Heloïse, quarta parte, carta XII, ibid., p. 496.
(DLg) La Nouvelle Heloïse, quarta parte, carta XIV, ibid., p. 509
(DLh)  Les Confessions, IX, ibid., p. 409.
(DLi) La Nouvelle Heloïse, quinta parte, carta III, ibid., p. 571.

domingo, 17 de julho de 2016

A Máquina de Escrever


Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.





Giuseppe Ghiaroni
Petros Koublis

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A GRANDE ESCAVAÇÃO EM KAFKA


(rosnar, escavar o chão, nitrir, convulsionar-se) para escapar ao ignóbil.
Gilles Deleuze

Instalei a construção e ela parece bem-sucedida.
Franz Kafka


Como entrar na obra de Kafka? Perguntam Deleuze/Guattari, já sem a perplexidade intrincada dos primeiros críticos. Levou tempo, mas agora sabe-se bem que Franz Kafka pode ser nomeado como grande escritor. Sem creditar nada na conta das injustiças casuais, nem dos acontecimentos isolados. Não há na sua escrita nenhum ensejo de compensação do cronista, nem mesmo nos seus diários. Em Kafka escrever deixou de ser pessoal. Se houve esse jogo na literatura, a partir dali ele entendeu tratar-se de um jogo levado ao exagero. Mas não apenas um exagero literário. Erigir mais um edifício no estreito e concorrido centro da literatura, que progressivamente se esgueirava entre as cosmovisões vanguardistas e modernas. Nem chegou a cogitar. Seu projeto de escrita voltou-se para o desabrigado núcleo baldio, arrastado para fora dos muros das reconhecidas significações. É na sua última fase que Kafka expõe e comenta a enorme escavação a que se lançou desde o início. Em “A Construção”, 1923, aquilo que pretendeu levantar vai muito rapidamente se afastando de parecer “bem-sucedido”. Num tempo de rupturas e transições, em que a aspiração maior parece ser a Passagem, a Travessia, Kafka torna “visível apenas um buraco”, cujas trilhas e direções não levam a parte alguma. Abaixo da superfície, não se está construindo os fundamentos de alguma coisa surpreendente. Quando muito, a estrutura de uma toca ou uma armadilha, o que não requer responsáveis pela construção nem contratantes proeminentes. O canteiro de obras não atrai visitantes. O que dá ao empreendimento uma dimensão assustadora e dramática. Até há os que farejam a entrada – procuram, gesticulam, investigam, com o “focinho lúbrico”. Era de se supor, e Kafka como nenhum outro escritor assim o pressentiu: que a caçada pelo “sujeito” continuaria feroz. Pouco importa se “Ele” está de volta a sua casa, naturalmente tragado pela terra. Há os que não perdem o faro pela memória nem pelas íntimas recordações. “Ele” desgarrou-se, mas não está a salvo. É ainda uma atração, um grande negócio. Há os que não observam a passagem interrompida. Que ali sequer há passagem, tão pouco saída. O buraco é uma espiral de deslizamento e caos, uma ruína. Infinita extensão de silêncio. Fosse o Castelo, não reconheceriam os muros. E mesmo no quarto de Gregor Samsa, sobre a cama, não perceberiam a máquina. Quanto que um inseto pode vir a ser uma draga ou um guindaste. Desatento de todos os pormenores que a escrita de Kafka suscita, o focinho pregado na escavação, o visitante supõe que o complexo, depois de terminado, se tornará lugar de concentração. O buraco pedrento. Tudo em Kafka está obstruído. Entonação, assobio, gesto. Corpo recolhido, comedido, enrodilhado. Ainda o cerco ao “sujeito”. Admira-se a logística e discute-se como o empregado medíocre de uma companhia de seguros mudou de ramo com considerável êxito. Todos ainda muito aturdidos pelos ventos frios da Montanha. Sob a Montanha o “sujeito” encalacrava-se em seu túnel. Kafka, ao contrário de Thomas Mann, não mais carregava o gênio como traje. A metamorfose não é a versatilidade de um corpo que se troca em outro.  É tanto mais o buraco e menos, bem menos a clareira. Um fosso bem-instalado: rasteja-se para chegar ao ponto indiscernível do emparedamento – para dentro e para fora o desastre.






Ney Ferraz Paiva
Imagem: Ernesto Sábato