A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela! Lima Barreto, Diário do Hospício, 1920. Imagem: Igor Malaschenko

domingo, 25 de setembro de 2016

Testamento do Homem Cansado


Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim...
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.





         Carlos Pena Filho
         Imagem: Dionysos

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre-se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demônio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e
vazio poema de sentido e de endereço e
de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora




HERBERTO HELDER, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
Imagem: Igor Malaschenko, da série "back to babel - back and forth from babel", 2015.


domingo, 18 de setembro de 2016

ENCONTROS MARÍTIMOS PARA UMA NOVA LITERATURA


Voltai ao mar – você Burroughs está cego no inferno
Já não pode avançar sobre a terra que fora de teu pai
Ela corrói tanto quanto o vento e as tempestades e o silêncio
Poetas não se fazem marinheiros em terra seca ou nas
Rochas ou nas estilhaçadas pirâmides do velho Texas –
Arrancam do mar bem mais do que laranja algodão maconha

Voltai ao mar – você Plath que na turva noite velejaria
Ao cerco derradeiro num labiríntico apartamento sem
Aquecimento só porque este pertencera a W. B. Yeats
         A neve cobre terra mais vasta que a cabeça do poeta
Deposita-se como explosivos sobre o Oceano Atlântico
Pode-se ter neve em qualquer lugar – nevou em Auschwitz

Voltai ao mar – você Barreto bancando o engomadinho
No início da carreira reconhecido pelo colete aberto no
Umbigo este buraco negro mal ajambrado atraindo os
Detritos guarda o entulho o ferro-velho do Império
De colete gravata paletó colarinho retine a impostura
Encalha no hospício na Praia Vermelha teu navio negreiro







Ney Ferraz Paiva
Imagem: Ricardo Teles, da Exposição O Lado de Lá, Galeria Solar Ferrão, Centro Cultural Solar Ferrão, Pelourinho, Salvador, 2010.

domingo, 11 de setembro de 2016

EM ALGUM LUGAR SECO E ENORME, 1949


Você e eu vestidos confortavelmente observando a linha reta
enquanto no céu as nuvens correm como no filme
que às vezes Você sonha fazer comigo sem os filhos olhando
a linha reta entre dois amarelos que antes foram
a massa amarela e que nunca saberemos em que demônios
se converteram (nem nos importa!) Você e eu na casa alugada
sentados junto ao janelão a verdade dizes é que poderia
chorar por toda a tarde a verdade é que não tenho fome e sim
um pouco de medo de embebedar-me outra vez sentados junto
a um janelão reto, não? enquanto atrás de nós
os pássaros saltam de galho em galho e a luz da cozinha
pisca Você e eu em uma cama, ali estamos! Observando
as paredes brancas – dois contornos que se misturam – ajudados
pela luz da rua e pela luz de nossos corações frios
que se negam a morrer.






ROBERTO BOLAÑO
        Tradução: André Caramuru Aubert
Imagem: Eugenio Recuenco

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dá-me um poema
Para despedaçar o coração dos homens
Puro como lâminas
Como o som de um relógio
Sobre o pântano.
Diz-me o significado, espectro,
E diz-me a hora
Em que me perco,
E em que quarto serei encontrado outra vez.
Dá-me o poder da minha mão
E que as minhas palavras sejam sãs
E fortes como o voo.
Conduz o meu aparo,
Ajuda-me a escrever,
Mostra-me as portas
Onde estão as ordens;
E a prisão
Que a minha alma contempla,
Onde a minha coragem
Ruge entre as grades.








Malcolm Lowry
Imagem: Ernesto Timor, 2012-2014

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O TEMPO EM LEGÍTIMA DEFESA


Meu relógio é uma bandeira levantada
Em que se lê “seja marginal seja herói”
Está emparedado entre maio de 1968
E junho de 2014 em gestos que o
Tempo parte ao meio ou me atinge
Com uma bala e me arranca um olho
Os poetas se misturam na cegueira
Tão pouco têm para ser arrancado
Estou cansado mas não devo dizer
Meu relógio adverte há um governo
A derrubar não sufoque respire fundo
Firme os passos ampare-se no outro
Meu relógio bate testa contra testa
Gesticula grita sofre no caminho
O sangue escorre mas não se conforma
Ele pede exige que o deixem passar
É uma navalha relâmpago fim do poço






Ney Ferraz Paiva
Imagem: Tempos Modernos, Charles Chaplin, 1936

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

SEM TÍTULO

Agora teu corpo é sacudido por
pesadelos. Já não és
o mesmo: o que amou,
que se arriscou.
Já não és o mesmo, ainda que
talvez amanhã tudo se desvaneça
como um sonho ruim e comeces
de novo. Talvez
amanhã comeces de novo.
E o suor, o frio,
os detetives erráticos,
sejam como um sonho.
Não desanimes.
Agora tremes, mas talvez
amanhã tudo comece de novo.




Roberto Bolaño
Tradução: André Caramuru Aubert
Imagem: Tempos Modernos, Charles Chaplin, 1936

sábado, 3 de setembro de 2016

AMANHECER


Creia-me, estou no centro de minha casa
esperando que chova. Estou só. Não me importa
terminar ou não meu poema. Espero a chuva,
tomando um café e olhando pela janela uma bela paisagem
de pátios internos, com roupas penduradas e imóveis,
silenciosas roupas de mármore na cidade, onde não existe
o vento e ao longe só se escuta o zumbido
da televisão em cores, assistida por uma família
que também, a esta hora, toma café reunida em volta
de uma mesa: creia-me: as mesas de plástico amarelo
se estendem até a linha do horizonte e mais além:
até os bairros distantes onde se constroem edifícios
de apartamentos, e um garoto de 16 sentado sobre
ladrilhos vermelhos contempla o movimento das máquinas.
O céu na hora do garoto é um enorme
parafuso oco com quem a brisa brinca. E o garoto
brinca com ideias. Com ideias e com cenas congeladas.
A imobilidade é uma neblina transparente e dura
que sai de seus olhos.
Creia-me: não é o amor que vai chegar,
mas a beleza com sua estola de alvoradas mortas.





ROBERTO BOLAÑO
Tradução: André Caramuru Aubert
Imagem: Elaine Pessoa, Tempo Arenoso, São Paulo, Edições Olhavê, 2015.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ESCREVER POEMA É UM ATO BÁRBARO

Esta espécie de crime que é escrever
Herberto Helder


Após a guerra se continua a fazer poesia
Após a guerra se recomeça outra guerra
O poeta recomeça a escrever a guerra
Serve-se da carne podre da memória
Que recomeça o poeta senão a guerra?
Que silêncio recomeça após o silêncio?
Poesia ainda possível em dias de horror
Após Auschwitz não se venderá poesia
Não se irá ao circo nem se fará turismo
Da beleza e alegria não haverá comércio
Após a guerra se continua a fazer poesia


Repressão ao movimento contra impeachment em SP 11.05.16 www.esquerdadiario.com.br













Ney Ferraz Paiva


sábado, 27 de agosto de 2016

NA LINHA LOGO ABAIXO DA LOUCURA


Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da cintura
Nos rins fígado baço como um
Cavalo exausto a que Nietzsche
Não pudesse interceder a favor
Um cavalo que não dá mais pro
Trabalho integralmente dedicado
A fazer delicados versos de amor
Discretamente evitado deixado de
Lado que não vai mais ao páreo
Agredido numa das ruas de Belém
Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da cintura
Nos rins fígado baço como um
Nietzsche exausto a que um cavalo
Não pudesse interceder a favor
Sem crina admirável descompensado
Apavorado de ir às pistas pra ganhar
Só vai leguar sertão afora mais nada
Agredido numa das ruas de Turim
Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da loucura



Ney Ferraz Paiva
Imagem: Béla Tarr, O cavalo de Turim, trailer




video




sábado, 13 de agosto de 2016

ABAIXO A DITADURA FORA TEMER

Brasil, 1968





















Brasil, 2016






















O Brasil recluso no labirinto da crise da ganância global e do
entreguismo da direita local – trapaceira corrupta e golpista.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016