segunda-feira, 29 de abril de 2013


A AUTO-EXPRESSÃO É SAGRADA E VITAL
Depoimentos escolhidos, publicados pela primeira vez em 1992 por Ammann Verlag, Zurique, em Louise Bourgeois: Desenhando em queda livre, de Christiane Meyer-Thoss.

1.
Meu trabalho inicial é o modo de cair. Depois se tornou a arte de cair. Como cair sem se machucar. Mais tarde é a arte de se manter no ar.
4.
Quando eu estava crescendo, todas as mulheres em minha casa usavam agulhas. Sempre tive fascínio pela agulha, o poder mágico da agulha. A agulha é usada para consertar os danos. É um pedido de perdão. Nunca é agressiva, não é uma ponta perfurante.
5.
Minhas facas são como uma língua - eu te amo, eu te odeio. Se você não me ama, estou pronta para atacar. Elas têm fio duplo.
10.
As espirais - em que sentido girar - representam a fragilidade num espaço aberto. O medo faz o mundo girar.
20.
O falo é um tema de minha ternura. Tem a ver com vulnerabilidade e proteção. Afinal, vivi com quatro homens, meu marido e três filhos. Eu era a protetora...
29.
Eu preciso de minhas memórias. Elas são meus documentos. Eu as vigio. São minha privacidade e tenho um ciúme intenso delas. Cézanne disse: "Tenho ciúme de minhas pequenas sensações". Lembrar-se e devanear é negativo. É preciso diferenciar entre as lembranças. Você vai na direção delas ou elas vêm em sua direção. Se vai à elas, está perdendo tempo. A saudade não é produtiva. Se elas vêm à você, são as sementes da escultura.
49.
Se uma pessoa é artista, é uma garantia de sanidade. Ela é capaz de suportar seu tormento.
54.
A auto-expressão é sagrada e fatal. É uma necessidade. A sublimação é um dom, um golpe de sorte. Uma não tem nada a ver com a outra.
Hoje digo com a minha escultura o que não podia no passado. Era o medo que me impedia de entender. O medo é o inferno. É paralisante. 
Minha escultura me permite experimentar o medo, dar-lhe um caráter físico para que eu possa destruí-lo. O medo se torna uma realidade manipulável. A escultura me permite reviver o passado, ver o passado em sua proporção objetiva e realista.
O medo é um estado passivo. O objetivo é ser ativo e tomar o controle. O movimento é do passivo para o ativo. Se o passado não é negado no presente, você não vive. Passa pelas emoções como um zumbi e a vida passa por você.
Como no passado os medos estavam ligados às funções corporais, eles reaparecem por meio do corpo. Para mim, a escultura é o corpo. Meu corpo é minha escultura.
75.
Breton e Duchamp me tornaram violenta. Eram próximos demais de mim e eu discordava deles violentamente - de sua pontificação. Como sou uma fugitiva, figuras paternas nestas praias me marcavam de maneira errada. "The blind leading the blind" (1947-49) se refere aos homens velhos que a conduzem para o precipício.


LOUISE BOURGEOIS