quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

NADAR SEM OS SINAIS DE ORIENTAÇÃO



ela sai para nadar no mar do fundo dos quintais
no chafariz da praça na chuva nos pomares
pela cidade cada mergulho fica o rascunho dela
que água não lava nem leva só dura um minuto
ela nada para emanar chegar aos lugares aéreos



ney ferraz paiva
ernesto timor

sábado, 11 de janeiro de 2014

MATEI ONTEM DURANTE A CHUVA UM CACHORRO PRETO



Matei ontem um cachorro preto
Eu me preparava pra ouvir você
Pego o telefone o cachorro avança
Ouço cada pata a música do medo
Contra os dentes nenhum muro
Nem de levinho um cavaquinho
Pra desviar o salto sobre mim
O ataque ali se definindo
Sofro por causa do modo
Como a chuva me esgota
Primeira verdadeira infelicidade
Inevitável como o dia seguinte
Chuva & cão se adiantam
Entram nos lugares mais fechados
Surpreendem tudo fica de través
Não tem espaço pra mais nada
Ouço cada pata cada gota d’água
Nenhum dos dois abranda o ataque
– cada vez mais bruto cru frontal –
Detalhes da cena de um assassinato
Na peça no filme no quadro
Tento escapar pelo piso interminável
Encoberto pela gigantesca chuva
A imensa habilidade técnica do cão
Me ameaça por algo que só ele sabe
De forma cristalina límpida viril
O cão avança a chuva me adoece
Percebem o que está acontecendo?








Ney Ferraz Paiva
Tatiana Blass, "cachorro molhado", 2009