quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Versos do testamento



A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.



Pier Paolo Pasolini
Tradução de Cide Piquet e Davi Pessoa
Imagem: Duane Michals, Salve, Walt Whitman

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESTA NOITE MANSA


Não entres docilmente nesta noite mansa:
A idade deve arder e irar-se ao fim do dia;
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

Mesmo sabendo no final que a justa escuridão avança,
Pois seus gestos não forjaram raios, o homem sábio
Não entra docilmente nesta noite mansa.

O homem, à onda derradeira, gemendo
Que seus frágeis atos poderiam ter brilhado e dançado na enseada,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

O homem louco que reteu e cantou o sol em fuga,
E aprendeu, tão tarde, que apenas lamentava seu passar,
Não entra docilmente nesta noite mansa.

O homem grave, ao morrer, já cego vendo
Que olhos cegos poderiam brilhar como as estrelas e alegrar-se,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

E tu, meu pai, aí da tua altura triste,
Amaldiçoa-me, abençoa-me, te peço, com tuas lágrimas ferozes.
Não entres docilmente nesta noite mansa.
Grita, grita contra a luz que está morrendo.



DYLAN THOMAS
Tradução: Ana Cristina Cesar
Imagem: Francis Bacon  

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

TODOS SÃO POETAS, EXCETO OS QUE NÃO SÃO

                                aqui onde o escuro chegou rente
então aqui deve ser onde se encerra o escuro
doris lessing

chega-se a mais um dezembro e convém não só puxar conversa, mas também avaliar e fazer prognósticos. e aproveitem, estou otimista. penso que a poesia está em excelente forma. dá sinais de uma exuberância surpreendente. ainda que outro dia, ou melhor, há um ano, por aí, fiquei mesmo impressionado, e talvez um pouco perturbado... a posse de ferreira gullar à academia brasileira de letras. eu, que sou perfeitamente mortal, esperava morrer sem ver isso. e não sei se realmente vi, ou se estava, como aquele acadêmico na plateia, com os olhos fechados e parecendo dormir. gullar ainda é capaz dessa ironia. mas, de dentro daquele fardão asséptico ao novo, o que mais terá a dar à poesia? mudar-se para a casa de machado, para um gullar muito à vontade lendo ali o seu discurso, faz parecer o “destino” natural do poeta (de todo poeta; quem não consegue fracassa). ao mesmo tempo não se pode ficar sem perceber a verdadeira força do que gullar vive. ele não deixa dúvidas de que é capaz de continuar. de ir adiante. ainda que sobre isso ele não tenha dito nada, e eu tenha tido a mente tomada por essas fantasias. me concentrei nos sintomas. a posse, a festa, a pose. já as fraturas, as lesões me escaparam. o modo lento e cauteloso. as frases breves. a fadiga. o poeta em seu triunfo ameaçado pela pacata pungência. tudo tão pequeno e tão grandioso ronda gullar para fechar a sua obra. destino verdadeiro do poeta. o que inclui rastrear os próprios insucessos e colapsos até o êxito e a ascensão. a poesia está em excelente forma porque pode estar em forma. bem como a minha contínua incapacidade de prever – e, pior, avaliar – está aí porque está aí. tão certo como não ocorre mais a ninguém ir a uma banca de jornal comprar uma revista de mulher nua, e disfarçar a compra “imoral” com outras publicações “sérias”. coube à revista playboy vestir as “coelhinhas” para termos outra vez que imaginar a silhueta do mistério? por sua vez a literatura terá que vir com toda a carga de variadas revezadas e diversas pirações. extraordinariamente em 2015 a editora autêntica republicou  por amor ao deus dos hospícios  numa só caixa a esgotadíssima maura lopes cançado. o anúncio infernal, perturbador, amargo da vida. e para além da loucura, venha a nós, leitores dos abismos, o erotismo da grande poesia, do romance, do teatro a partir das ruas, das noites, dos precipícios – e não da insuportável modelagem comercial da obra, desde a capa, como ainda se faz impunemente à clarice, a machado e a outros tantos. puxar esse pesado véu para revelar o imprevisto o inesperado, de uma só vez, como faz na fotografia a mexicana graciela iturbide: vestir uma mulher (a obra) de iguana em vez de um prosaico chapéu. estranho & bonito, terno & perverso. que na arte os extremos se encontrem; os extremos se transformem em seus opostos.

Ferreira Gullar toma posse na Academia. Foto: Fábio Mota/Estadão Conteúdo

Hospício é Deus e O Sofredor do Ver, de Maura
Lopes Cançado, pela Editora Autêntica.

 
Nossa Senhora das Iguanas, Graciela Iturbide.


ney ferraz paiva

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

POESIA DE AMOR – AMOR PELA POESIA: E NÃO UMA PROVA DE QUE EROS NOS PERDOA


Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Fernando Monteiro, Vi uma foto de Anna Akhmátova


UM GRANDE PROBLEMA talvez não mais da Poesia e sim dos poetas no Brasil, dos poetas que vão aparecendo cada vez mais cedo com novos livrinhos gestados na toxidade noturna da internet ou do mercado editorial – esse principalmente que a baixo custo anuncia a um país que não lê, que não lê sobretudo poesia, o seu Grande e Desmesurado Poeta do Dia-Mês-Ano para uso compulsório do leitor incauto, pois bem, talvez o grande problema, que também muito contribua para que essa maquinaria opere observando leis, editais, prêmios e etiquetas próprias, deixando à parte a divulgação, circulação e discussão da Poesia, seja o fato de que os poetas, entregues a seus transes festivos, amam cada vez mais não a Poesia (substância maior a que até mesmo o Estado parece querer banir com as suas instituições desestabilizadoras da cultura), mas apenas a “sua” diluída e hibridizada poesia, conectada a seu próprio umbigo e revestida de desimportância exemplar. Poetas amantes de si mesmos. Velhos e jovens, que bem ao contrário do vinho, não melhoram com o passar dos anos, apenas envelhecem, pioram a safra e reprisam o ciclo decadente. Atados a uma mesma teia cada vez mais estranha à Poesia e a seu desenvolvimento como organismo relevante. E do mesmo modo que falar inglês não resulta no estabelecimento de uma comunicação global, o declínio da Poesia mesmo nos ambientes de cultura aparentemente cultos não se reverte pelo anúncio e acúmulo sucessivo dos nomes e dos respectivos “livros à mão cheia”. O mercado, neste caso também, não de amor, mas de puro negócio, não é a melhor reação. Ele não tem como fecundar, renovar e ampliar as possibilidades de acesso e circulação, incendiando corações e mentes com a Poesia, este Amor que quando se revela é sempre uma descoberta revolucionária – “crescer, criar, subir”. Amor pela Poesia. Nele e através dele, diz Mário Faustino, não há a imprecisão do “etc”. Com o surgimento da internet e da tecnologia digital esse Amor não prosperou. Ampliaram-se às escâncaras os egos invioláveis, isto sim, claro. Os tributos ao “eu” e ao “meu”. Território de livre circulação a toda sorte de investidas, a Poesia perde espaço aí. Apequenada, energia reduzida à baixa intensidade, o mercado a colocou sob sua cúpula como objeto estático, dependente e isolado. E apenas pelo efeito ilusório das vitrines a Poesia aparenta ter sido prolongada em redes como os outros segmentos. Resulta disso é que raros livros quase despercebidos como este Vi uma foto de Anna Akhmátova, Fernando Monteiro, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2009, a prorrogam com força e intensidade próprias desde uma ida banal à padaria na esquina, ao bar ou à praia a uma viagem incomensurável para o outro lado do mundo, com o qual os grandes mercados turísticos das Festas, Feiras e Bienais estão de passos trocados e por isso não têm como enlaçar as mãos num mesmo momento de afeto. Inverossímil Viagem de Amor. Isto não apenas por um deslocamento subjetivo entre Brasil, Ucrânia e Rússia é o que esta escrita promove, sem medir nem desmentir a distância entre uma Akhmátova e uma Clarice (lado a lado a outras articulações: Hilda Hilst, Adélia Prado, Olga Savary, Marize Castro) – não mais uma viagem pelo “Mesmo” como tantas histórias a contar ou a representar os dias adversos, aqui e alhures; não mais um “poema-clichê de sofrimentos/de poetas perseguidos”. Antes, uma poesia de deslocamentos, que reflete inclusive as condições de leitura de duas grandes escritoras em variados revezados trânsitos de importância, tentando escapar sobretudo ao intimismo a que sempre são lançadas. Fernando Monteiro não ilustra quem tenha sido Anna ou Clarice. Ele relaciona. Parte de uma imagem a outra, sobrepondo-as, sem atá-las uma à outra. De uma Anna correlata a uma Clarice. Do Recife intercambiável a Tchechelnik Moscou Maceió Paris Pequim a que não lugar mais seja – ali onde somem. Na foto como no poema o que se quer abordar são terras desconhecidas. Conectar o que está por vir. Nunca a paisagem, mas a vida como uma estranha jornada. “Você pode ver numa foto o que não está nela”. Variações e revezamentos do olhar. O conciso. A nuance.  O espelho. “Se eu errei ao nascer,/ela errou ao dar a luz./Se eu estou ainda aqui,/ela não está mais”. Ver Anna Akhmátova implica ver o impreciso que se é: episódios imperfeitos, evanescentes de calmaria e indiferença. Ainda que Clarice tenha flertado como jornalista com o mundo insípido da moda, não posou nunca como a mulher de um futuro ideal, utópico, lunar (“Princesa da Lua, por que você voltou?”), senão como a sobrevivente desfavorecida num ambiente de cultura que nem mesmo ainda hoje pode admitir uma “Esparta moderna”. A imagem de uma se conecta a outra, duas (quantas?) replicadas mulheres desmunidas de afeto, proteção, luxo, lançadas ao jogo de se prender e se soltar antes de se esgotarem os prazos. Embaralhadas e sempre dispostas ao combate. Escapar às ratoeiras domésticas da casa (apanhar depois de cozinhar bolos etc.) ou às ratoeiras das vitrines da vida cultural moderna. “Clarice não podia ter saudade/ de dois meses de vida em Tchechelnik,/ na Ucrânia de árvores nacaradas”. De que poderia ter saudade Clarice? “da casa entre movelarias e sebos/vinda da Ucrânia para o coração/deste bairro de esquecidos”, “do centro da cidade onde viveu/a descoberta do mundo no Recife”, “de imigrantes deslocados”? Clarice-criança não tinha como saber que moveria esse mundo morro acima para o lado da modernidade. Essa Clarice de quem temos que ter saudade. Da adolescente que deu a ver a linguagem daí há pouco definida mundo afora como “clariceana”, a que de cara soube escapar ao modo burocrático de lidar com a escrita no espaço público (jornalismo, universidade, diplomacia), onde a mulher ainda ocupa funções anônimas, e ela nos chega muito mais como singularidade a se prorrogar do que como originalidade pueril. Quantas Clarices aí? (“ainda que vivas outra vida, não há saída”). A casa, o sobrado dos Lispector ficou só. Como tende a desaparecer uma outra casa habitada por fantasmas (Volódia, Nikolai, Elena...), onde Akhmátova reforma aqueles versos: “Esta mulher está só” vira: “Esta mulher está no fim”. De que vida Akhmátova poderia ter saudade se perdeu todas de antemão? "A minha vida foi uma roda de enganos". Na roda de azar ela perde tudo e todos. Lev, o filho, que vieram buscar como o pai e o amante sem acusação formal, sem julgamento, para ser morto? Ela própria uma mulher com vontade de morrer, encadeada a tantos outros finais, a coisas que se partem sem conserto algum. Mas não tem escolhas: terá que engendrar a si mesma como poeta e ocupar um lugar nunca antes reservado à mulher na literatura russa. Desenfreada, irreverente, desconcertante – em posição de permanente ataque e afrontamentos, ativa, que, portanto, prejudicou a si própria. Nos espaços codificados da guerra o êxito da mulher se duplica em um fracasso ainda mais profundo. (“tantos poetas mortos,/tudo fazia crer/que algo andou errado/muito errado). A Poesia é um esgotamento que se reveza e ramifica desde o corpo até o poema. Fernando Monteiro o inventa a seu modo – o modo do grande poeta que se põe a desfalecer, ele mesmo, no que escreve. A fadiga de um poema longo, como almejava Mário Faustino e que Monteiro acata, realiza e sai de cena, pois agora que vai escrever sequer pode escovar os dentes. Quede o poeta? Irreconhecível no fedor intenso do livro. Pouco dele resta aí como autor, mas um pedaço generoso como escritor, no livro de uma editora não comercial, de Fundação sem fundos (leia-se: grana), mas de gente atenta e sensível. Não entra nem a gravata, sequer a foto de orelha. Nada se vê como fIgurações; tudo é Poesia. Amor precipitado que Fernando Monteiro nutre pelo livro que resolveu fazer para ver de perto uma vez mais Anna Akhmátova e mirar a seu lado ("Você pode ver numa foto o que não está nela") Clarice Lispector, os olhos atentos a todos os grandes livros que amou, entre eles um “muito velho”, “de capas vermelhas”, PÉROLAS DA POESIA RUSSA escrito “na lombada desbotada”  nunca deixado para trás.

Anna Akhmátova e Clarice Lispector

NEY FERRAZ PAIVA