quinta-feira, 29 de setembro de 2011


5 de junho de 1977. para manter no esquecimento


Gostaria de escrever tão simplesmente, tão simplesmente, tão simplesmente. Sem que nada nunca chamasse atenção, salvo a sua unicamente, e ainda assim, apagando todos os traços, mesmo os mais inaparentes, os que marcam o tom, ou a pertença a um gênero (a carta, por exemplo, ou o cartão-postal), para que a língua sobretudo permaneça secreta à evidência, como se ela se inventasse a cada passo, e como se pegasse fogo imediatamente, assim que um terceiro colocasse os olhos nela (aliás, quando você vai aceitar que nós próprios queimaremos tudo isso?). É um pouco para “banalizar” o número da tragédia única que prefiro os cartões, antes cem cartões ou reproduções no mesmo envelope, a uma única “verdadeira” carta. Ao escrever “verdadeira” carta, lembrei-me da primeira carta vinda de você, que diria exatamente isto, gostaria de ter respondido imediatamente a ela, mas ao falar de “verdadeiras cartas”, você me impedia de escrevê-las

“Envio-lhe novamente Sócrates e Platão

minha pequena apocalipse de biblioteca. Sonhei novamente com o inglês titubeando em torno do telefone: ele esfregava um lápis novo numa caixa de fósforos e eu tentava impedi-lo. Ele corria o risco de queimar sua barba. Então ele gritou seu nome com um sotaque estranho e

Ainda não me restabeleci desta catástrofe reveladora: Platão atrás de Sócrates. Atrás ele sempre esteve, achava-se, mas não desta maneira. Eu sempre soube, e eles também, eles dois, quero dizer. Que casal. Sócrates vira as costas para platô, que fez com ele escrevesse o que ele próprio queria, fingindo que recebia isto dele. Vende-se aqui esta reprodução como post card,

você viu, com greetings e address. Sócrates escrevendo, você se dá conta, e num cartão-postal. Eu não sei nada além do que diz a lenda a esse respeito (é então tirado de um fortune-telling book, livro de astrologia: o futuro, o livro dos destinados, a sorte, o prêmio, o encontro, a chance, não sei, precisarei ver, mas gosto desta idéia), tive vontade de enviá-lo imediatamente a você, como uma novidade, uma aventura, uma sorte ao mesmo tempo anódina e estonteante, a mais antiga e a última.

Uma espécie de mensagem pessoal, um segredo entre nós, o segredo da reprodução. Eles não compreenderiam nada disso. Assim como tudo a que nos destinamos. E, todavia, é um cartão-postal, dois, três cartões-postais idênticos no mesmo envelope. O essencial, se possível, é que o endereço seja único. O que eu gosto no cartão-postal é que mesmo no envelope, ele é feito para circular como uma carta aberta mas ilegível

Escrevo-lhe amanhã mas chegarei provavelmente, mais uma vez, antes da minha carta

Caso contrário, se eu não chegasse, você sabe o que lhe peço sempre para esquecer, para manter no esquecimento


Jacques Derrida, Cartão-Postal, 1979, tradução Simone Perelson e Ana Valéria Lessa.

domingo, 25 de setembro de 2011


5 de junho de 1977. a louca é você...


Você me dá as palavras, você entrega, dispensadas uma a uma, as minhas palavras, voltando-as em direção a você e endereçando-as a você – eu nunca as amei tanto, as mais comuns tendo se tornado muito raras, nem tampouco amei tanto perdê-las, destrui-las com o esquecimento no próprio instante em que você as recebe, e este instante precederia quase tudo, meu envio, eu mesmo, para que elas aconteçam apenas uma vez. Uma única vez, você percebe a loucura para uma palavra? Ou para qualquer traço que seja?

Eros na idade da reprodutibilidade técnica. Você conhece esta velha história da reprodução, com o sonho da língua cifrada. Vontade de escrever uma grande história, uma grande enciclopédia do correio e da cifra, mas de escrevê-la cifrada novamente para despachá-la para você, tomando todas as disposições para que você seja sempre a única a poder decriptá-la para você (a escrevê-la, portanto, e a assiná-la), a reconhecer nela seu nome, o único nome que lhe dei, que você me deixou dar a você, todo este cofre-forte de amor, suponho que minha morte esteja inscrita nele, ou melhor, que meu corpo esteja preso nele com seu nome sobre a pele, e que em todo caso minha sobrevivência ou a sua estejam limitadas à vida – sua.

E como frequentemente sem saber Você me dá a palavra, é mais uma vez você que escreve a história, é você que dita enquanto eu me esforço puxando a língua, letra após letra, sem nunca me virar

aquilo que nunca decidirei é publicar algo que não seja cartões-postais, a falar-lhes. Nada me parecerá alguma vez justificá-lo. Adolescente, quando fazia amor contra a parede, e que me dizia a respeito deles – você sabe, eu lhe contei

O que prefiro no cartão-postal é que não se sabe o que está na frente ou o que está atrás, aqui ou lá, perto ou longe, o Platão ou o Sócrates, frente ou verso. Nem o que mais importa, a imagem ou o texto, e no texto, a mensagem ou a legenda, ou o endereço. Aqui, em meu apocalipse de cartão-postal, há nomes próprios, S. e P. acima da imagem, e a reversibilidade se desencadeia, ela se torna louca, eu lhe havia dito, a louca é você – a ligar. De antemão, você distorce tudo o que lhe digo, você não compreende nada, absolutamente nada ou então tudo, que você imediatamente anula, e eu não posso mais parar de falar.



Jacques Derrida, Cartão-Postal, 1979, tradução Simone Perelson e Ana Valéria Lessa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


MONÓLOGO

Niño, si mañana no estoy,
quiero que recuerdes
que estuve.
Que te di mi vida,
mis mejores años,
mi ilusión,
mi abrazo cálido.
Niño, quiero que
recuerdes que fui
parte de vos mismo
y que tus manos han sido
hechas por mis manos;
que tus ojos son
parte de mis ojos,
que tu frágil cuerpo
lo construí con el amor
que te tuve,
que le tuve a él
que te tuvimos los dos.
Niño, si mañana no estoy,
quiero que sepas
qua aunque te perdí
vos, vos no me perdiste.
Cada noche, viajo
a encontrarte entre los sueños,
voy rescatando tu risa,
tus lágrimas, tus dulces gestos.
Voy rescatando el abrazo
qua antes te daba,
los besos que recibías
cálido, con la risa en los
ojos azul-verdes.
Ahora, sos una foto,
el dia te transforma
en una pequeña fotografia
en colores.
Ah, pero a la noche,
cuando llegala noche
y voy a tu encuentro,
siento que vuelvo a vivir.
Pero otra vez el dia,
irremediablemente,
me trae la distancia,
el peligroso abismo de lo incierto,
y una tristeza insistente
me have llorar,
una vez, y otra vez...
Cuánto te quiero, pequeño,
cuánto te he querido.
Qué difícil este tiempo
de estar separados,
de que tus pequeñas manos
no se sostengan cálidas
de mis hombros,
de que tu boca chiquita
no se acerque a mi mejilla,
de que tu voz,
tu diminuta voz
no me llame a media lengua...
Cuánto tiempo sin tenerte,
mi chiquitin,
pienso,
que tal vez ya no me recuerdes,
tal vez mi cara sea hoy,
otra cara,
que mis manos que te acariciaron,
sean hoy otras manos,
mi chiquitín,
cuánto tiempo,
cuánto dolor,
cuánta distancia,
tal vez volvamos a vernos,
pero i no volvermos a vernos
quiero, por favor quiero
que en medio de tus confusos recuerdos
busques mi cara.


ANA MARÍA PONCE, 14 de octubre de 1977


Loli, como era conhecida pelos companheiros, mulher-militante-mãe, foi sequestrada a 18 de julho de 1977 e levada a ESMA (Escola de Mecânica da Armada), onde permaneceu até 1978 e desde então é tida como desaparecida. Seus poemas foram entregues a sua família por Graciela Daleo e Alicia Milia. A primeira edição de Poemas saiu em março de 2004, com prólogo do presidente Néstor Kirchner, no qual ele diz ser Ana María Ponce parte dessa "generación signada por el deseo de desterrar del suelo de la Patria la desigualdad y la injusticia". Em fevereiro de 2011, os poemas de Ana María Ponce foram designados por seu filho Luis Macagno como patrimônio do povo argentino. Em junho de 2011 sai a segunda edição de Poemas, passados 35 anos do golpe militar na Argentina.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

 

MORTE-ESCRITURA, MICHEL FOUCAULT 


É preciso falar sem cessar, por tanto tempo e tão forte quanto esse ruído infinito e ensurdecedor – por mais tempo e mais forte para que, misturando sua voz a ele, se consiga se não fazê-lo calar, domá-lo, pelo menos modular sua inutilidade nesse murmúrio sem fim que se chama literatura...

Do interior da linguagem experimentada e percorrida como linguagem, no jogo de suas possibilidades estiradas até seu ponto extremo, o que se anuncia é que o homem é ‘finito’ e que, alcançando o ápice de toda palavra possível, não é ao coração de si mesmo que ele chega, mas às margens do que o limita: nesta região onde ronda a morte, onde o pensamento se extingue, onde a promessa de origem recua indefinidamente...[a literatura se dá como experiência:] como experiência da morte (e no elemento da morte), do pensamento impensável (e na sua presença inacessível), da repetição (da inocência originária, sempre lá, no extremo mais próximo da linguagem e sempre o mais afastado); como experiência da finitude (apreendida na abertura e na coerção dessa finitude).  

Foucault, As palavras e as coisas,1987 
imagem: Rodrigo Andrade

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

  

MORTE-ESCRITURA, ROLAND BARTHES


A escritura é a destruição de toda voz, de toda origem. Essa é a idéia central em “A morte do autor: da obra ao texto”, de Roland Barthes (In: O Rumor da Língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1988).

Para Barthes, a escritura é um neutro, um composto e um oblíquo para o qual se lança o sujeito. É também o branco e o preto onde toda identidade se perde, principalmente aquela identidade do indivíduo que escreve. Conte-se um fato e esse desligamento acontece. A voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escritura começa. Isso contrasta em muito com a postura de elevação da pessoa do autor por parte do positivismo em assuntos de literatura.

Mas é a linguagem que pronuncia, não o autor, com sua história, seus gostos e suas paixões. De forma intrigante, Barthes opina que fornecer ao texto um autor é travá-lo, é fechar a escritura. E o reinado do Autor foi também aquele do crítico. Barthes anuncia o lugar onde o texto se escreve: a leitura. Vai-se, portanto, da obra ao texto. É o leitor que dá ao texto suas múltiplas significações, conexões a partir de diversas escrituras que dialogam, parodiam-se e contestam-se. É sintomático, portanto, que o nascimento do leitor implica a morte do Autor.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011


MORTE-ESCRITURA, MAURICE BLANCHOT
"A morte trabalha conosco no mundo: poder que humaniza a natureza, que eleva à existência o ser, ela está em nós, como nossa parte mais humana; ela é morte apenas no mundo, o homem só a conhece porque ele é a morte por vir. Mas morrer é quebrar o mundo: é perder o homem, aniquilar o ser; portanto, é também perder a morte, perder o que nela e para mim fazia dela morte. Enquanto vivo, sou um homem mortal, mas, quando morro, cessando de ser um homem, cesso também de ser mortal, não sou mais capaz de morrer, e a morte que se anuncia me causa horror, porque a vejo tal como é: não mais morte, mas a impossibilidade de morrer."

num outro ponto Blanchot esclarece o que a uns ainda é tão obscuro: a relação Morte-Escritura: 

"Escrever é ser atraído para fora do vivido, do mundo, em direção à Eurídice, aos infernos – espaço da escritura. Orfeu se volta para Eurídice, pois não voltar-se seria trair uma experiência simultaneamente essencial e arruinadora da obra, experiência onde se atinge o ponto extremo, o extremo risco, exigência paradoxalmente impossível da obra. A experiência é experiência da escritura, busca impossível da origem e da morte. É experiência da atração da origem: o desobrar; e impossibilidade de “olhar” a origem: o obrar."
Maurice Blanchot, 1997
imagem: Francesca Woodman