quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vicente Franz Cecim


A asa e a serpente
(primeiro livro de Andara)


Minha mão esquerda está cuidando da direita como se fossem dois irmãos

E há aves caindo do céu e se transformando em terra. A mão direita que ainda mata

Bem no começo da viagem, é preciso dizer o que contém este primeiro livro. Ele é o relato da aparição de uma assombração militar em Santa Maria do Grão.

Esta viagem a Andara
E aonde mais?
Na vida.
Andara é perto e longe. Andara está dentro de ti. E fora. E dentro de mim.
Diz a voz

Esta voz

E agora, se vocês já estão prontos para as febres do sangue sem esperança de um prisioneiro da cabeça escura e das idades do homem
Já?

Mais tarde teremos um dia na vida do homem sem memória.
E depois, arte mecânica e revolta.
Isso anuncia dois finais. Falsos. Para escolher

E bem no finzinho, cairá a chuva.
Mas essa, irmãozinhos, é uma outra, e rara, chuva

Eles ainda entregarão outras crianças às águas, arrastados pelo desejo de tocar o fundo

Por que estas palavras, e não outras, para contar pela primeira vez a vocês a história?

Agora passo a narrar, sem fôlego,
às vezes alegre, às vezes triste,
todo o conteúdo de um dos meus sonos.
Um dos mais reais

Tudo se dá aqui, entre luzes e sombras.
E não lá, onde respira o vapor dos venenos cotidianos o leitor impossível de tocar de outro modo, à traição. Com estas mãos. As mesmas que revelarão uma última porção de terra fértil na palma,
depois que o último homem houver passado,
distraído,
olhando os pés que vão porque querem ir como os olhos vão porque querem ir neste texto que fala de uma tarde dada ao acaso.
O morto voltou numa tarde. Então começo por essa tarde.
Também voltam os guinchos e os animais que fazem uma careta cômica para a origem do bem e do mal.
Eu falo do tecido fino onde a vida dá sentido à vida.
E este é o relato.
Nele, vocês verão apenas dois focinhos humanos.
O meu e o do sargento Nazareno.
Os outros estarão velados pela noite de uma fábula detestável.
Mas ao mesmo tempo é uma atmosfera limite o que me leva esconder as identidade das suas carnes e a intenção de dar a vocês um jogo e um ingrediente do susto infantil

A memória. Um retorno sobre os mesmos passos para onde quer que se vá.
Mas não neste caso, talvez
Será uma fala da outra voz a invenção do Nazareno e desta história escura, estremecida de relâmpagos em plena estação do medo

Meti a mão no passado,
mas é um passado que guardo na memória sem ter vivido um só momento dele, eu não estive lá
para extrair um fantasma assim sem vida, um tanto estragado e mutilado depois que o matei pela primeira vez. E sujo de terra depois que eu o enterrei com a ajuda de um cortejo de miseráveis e infelizes criados pela imaginação, ou sonhados. Ou é sem dúvida a memória. Ou dos quais apenas me lembro desde que comecei a falar de improviso, sem nenhuma realidade sob os pés.

E no entanto eu não minto
Tenho ainda um olho vivo e este outro olho, morto, enterrado na cara. Mas ele é necessário, como verão. Sem ele não teríamos um morto de volta à vida.
E é pelo segundo olho, o que morreu, que posso jurar
Embora seja o primeiro que veja que estamos prontos para dar início.

- Tu és pó e do pó retornarás.

Esta é a operação revoltada que alterará o passado e a tradição dos circos ambulantes, pela substituição de uma única letra numa voz que fala de fatalidade

E assim caímos, ou volta à tona o texto, no momento exato em que o Nazareno está regressando para começar a sua segunda vida, na qual ele recusará todo o horror e as cruzes de vidro que o dia de ontem alimentou no seu ventre com rações de violência. Não teremos mais seus dentes à mostra. Eu falo de um homem que dirá adeus às cidades e penetrará num rio com vegetais vermelhos, em busca da felicidade, com uma provisão de mistérios em cada lábio.

Eu e os infelizes havíamos enterrado o seu corpo, depois que eu o matei, num caixão capaz de resistir ao ódio de um morto à traição.

Mas a sua volta era a evidência, em pleno ar daquela tarde, de que nem a madeira mais dura pode resistir à outra intenção com que eu conto esta história.

O Nazareno voltava.
E carregava seu caixão na cabeça. Ia entrando, com passos exaustos, pela rua que o levaria à sombra dos monumentos irônicos que espiam a vida na praça de Santa Maria do Grão enquanto olhos ocultos o viam chegar. E não respire, não viva. Ninguém quis acreditar no que viu

Ele estava acabado como um morto que segue em busca de uma estrela, naquele fim de tarde de resto igual aos outros, lento, parando para se deixar engolir pela noite.
Quando parou, espanto e medo. Estava onde eu temia. Vi que era o mesmo lugar onde eu havia espetado o seu corpo com a faca,
uma emoção do rancor. Uma sombra de homem com uma faca por trás de um homem adormecido.
Digo tudo o que vi no meu sono. Sem pudor.
Ele sentou. E era o chão onde eu fiz correr um mar vermelho, o sangue apagado pela memória das testemunhas e, também, pelos pés do acaso fazendo a sua passagem por ali
Pôs o caixão do seu lado. Apoiou a costa na parede de uma casa. A costa onde haveria uma cicatriz azul, ao redor da ferida,
ou nada. Tudo podia ter sido apagado pela morte. E sua cabeça caiu da altura de um abismo para a paz do seu peito, um jardim sem piedade.
Afundando assim, ele dormiu. E esqueceu que havia voltado.
E veio a noite com um vento negro, que deu fim em alguns homens, espetáculo rodopiante de desesperos e gritos.
As mulheres e as crianças, porém, ousaram sair para as ruas e não foram molestadas por estranhos. É assim a vida.

Quem inventou esse vento?
O medo, que voltava, como antes, junto com o morto.
Ou ele é apenas o efeito artificioso com que quero instalar, assim logo de início, uma atmosfera ainda mais suspeita para fortalecer este meu relato suspeito e destroçar todo o poder infantil que vocês têm de aplacar as tempestades.
Escolham

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Poema Ver-o-peso de Max Martins, lido pelo poeta em novembro de 2001 pra compor o cd encarte do livro O cadafalso. Max recuperava-se de uma esquemia, o que não o impediu de a cada sequência de poemas dar uma saidinha do studio do Maizena & Zé Arcanjo pra tragar calidamente um cigarro. Àquela altura Max ainda fumava três carteiras diárias olhando a todos no rosto, ou seja, sem nenhum problema de consciência. A leitura compõe o documentário Porto Max, do coletivo de documentário da Fundação Curro Velho, em Belém.

>http://www.youtube.com/watch?v=PoouQZ6Z7Lw

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Da educação que faz mal ao corpo

O Senhor Secretário de Educação de Palmas, Danilo de Melo Souza, seria reprovado se suas recentes declarações na TV local acerca das visíveis inadequações do projeto de escola integral se se tratasse de uma prova escolar. Mais do que uma questão dos poderes de palavra, uma questão de Poder: quem é que pode contar, falar, concluir o debate, se este houver, ou a entrevista. Esta pelo menos se deu. Perguntado sobre as razões da falta de estrutura e de instalações adequadas em algumas unidades de ensino de tempo integral, que chega a inviabilizar o banho e o uso dos banheiros por grande parte dos alunos, o Senhor secretário respondeu didaticamente o que pode ser tomado como um tesouro de ensinamento que deve ser consignado para o futuro: “banho não é uma prioridade pedagógica da escola” e arrematou: a maioria desses alunos sequer “têm o hábito de tomar banho”. A visada do Senhor secretário faz lembrar o entendimento que o europeu tinha em relação aos índios. Que excluía de imediato avaliar qual o entendimento que o índio tinha sobre si mesmo. O europeu saberia? Quereria saber? E Senhor Danilo, tão preocupado com o processo de formação do sujeito racional, saberia dizer qual é o entendimento que as crianças têm sobre o próprio corpo e os hábitos de higiene? Sua resposta não tentaria esconder, em horário nobre, a negligência com os aspectos básicos do bem estar, da saúde e da cidadania? Coisas ditas em sua ausência que podem desdobrar numa série de questões tanto mais insidiosas que a resposta do Senhor secretário. Vale lembrar, já que a educação que este Senhor propõe se reduz a ter ou não hábito, que os alunos também “não têm hábito” de leitura, não têm casa digna para o “dever de casa”, acesso às galerias, cinemas, bibliotecas, livrarias. Deixados de lado pelo poder excludente. Domesticados e apaziguados pelas estatísticas que a tudo mascaram e fantasiam, como num desfile de inconsciências e delírios, já que o carnaval está sempre nas ruas. À educação seus ornamentos e adereços pedagógicos. Educação “integral” e tantas e quantas mais nomenclaturas, franjas, adjetivações? Tais e tais projetos pedagógicos plenos de bons sentimentos, que reconstituem o ambiente da escola num misto de melancolia e de utopia. De empobrecimento que a cada ano se repete e se intensifica. Mas que a ninguém reprova. Nem ao Senhor secretário com suas respostas tanto enfáticas quanto desastrosas. À sociedade resta pagar a conta de mais um samba do criolo doido da administração pública.

Ney Ferraz Paiva

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Analfabeto Político
Berthold Brecht

O pior analfabeto

É o analfabeto político,

Ele não ouve, não fala,

nem participa dos acontecimentos políticos.


Ele não sabe que o custo de vida,

o preço do feijão, do peixe, da farinha,

do aluguel, do sapato e do remédio

dependem das decisões políticas.


O analfabeto político

é tão burro que se orgulha

e estufa o peito dizendo

que odeia a política.


Não sabe o imbecil que,

da sua ignorância política

nasce a prostituta, o menor abandonado,

e o pior de todos os bandidos,

que é o político vigarista,

pilantra, corrupto e o lacaio

das empresas nacionais e multinacionais.


(Berthold Brecht)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Para Salinger, whit love and squalor
Por Leonardo Padura
Havana, fevereiro/2010 – Às vezes, parecia que estava morto há muito tempo, e a notícia de que morreu fisicamente no dia 28 de janeiro, recém-completados 91 anos, não desmente essa sensação estranha de ser e não estar (ou de estar e não ser) que aquele homem forjou, inclusive a golpes. Porque, talvez, há quase meio século J. D. Salinger estava morto, como costumam morrer os escritores: quando deixam de escrever. Mas o fato incontestável é que sua morte nunca seria possível porque, graças ao que já havia escrito, Salinger era, é e será, e mais a partir de agora, terrivelmente imortal (para dizê-lo com um de seus mais queridos advérbios).

Seu último suspiro (ou a passagem necessária para uma nova encarnação budista) exalou tal e qual ele havia decidido: longe do mundo, em total silêncio, naquele remoto rincão de New Hampshire chamado Cornish, onde se mantinha em autorreclusão voluntária e ferreamente decidido a viver em paz e meditação.

Morreu do modo salingeriano no qual sempre viveu. Porque nunca um escritor se pareceu de maneira tão visceral com seus personagens. Até o final, Salinger foi uma mescla do adolescente Holden Caulfield, de The Catcher in the Rye, com uma síntese de cada um dos irmãos Glass, protagonistas de várias de suas novelas e relatos. Um homem atormentado que não encontra nem encontrou um lugar no mundo material e perseguiu seu lugar na sunya (vazio) do budismo zen quando abraçou esta filosofia.

Um narrador que considerava a si mesmo o mais importante acontecimento nas letras norte-americanas desde a existência de Herman Melville, que conheceu a guerra e o fracasso literário aos 20 anos, que ganhou fama e fortuna aos 30, que deu as costas aos efeitos de sua celebridade e a toda atividade social aos 40, e aos 45 cortou a última amarra com o mundo editorial quando entregou ao The New Yorker o relato “Hapworth 16, 1924”, e, definitivamente, uma personagem literária, mais do que um homem real.

O fastio existencial, que o levou à prática do zen, e a decisão terrivelmente dramática (sim, terrivelmente) de viver em solidão e não voltar a publicar texto algum, quando já era considerado um clássico da literatura universal e um ícone de toda uma geração e dos traumas de um país, assemelha-se mais a uma obra de ficção do que a uma vida terrena. Mas, é que em Salinger tudo foi literatura e tudo o que nos legou foi mais literatura. Talvez – e seria lamentável – não tanta como deveria...

Porque o verdadeiro mistério de sua existência, que agora se converte em expectativa, é, na realidade, que seu silêncio foi apenas editorial ou se também foi criativo. A afirmação que alguns asseguram ter ouvido dele, de que continuava escrevendo, mas apenas para seu prazer, não para publicar (tão parecida com a de Juan Rulfo e sua inexistente próxima novela, anunciada por décadas), ilumina como uma luz de esperanças no fundo da caverna. O que terá escrito – se é que escreveu? Mais histórias dos irmãos Glass? Os frutos de sua contemplação budista?

Como tanta gente que hoje habita a Terra e leu Salinger, meu primeiro encontro com sua obra foi quando ele já havia rompido relações com o mundo das publicações. E o encontro foi brutal: da comoção que me causou The Catcher in the Rye (a peça que o tornaria célebre em 1951), passei à leitura – e quase morro de inveja – de suas Nine Stories (editadas em 1953), para depois cair, deslumbrado, em Franny and Zooey (meu Salinger preferido, de 1961), e terminar no apocalipse de Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour: An Introduction (seu último livro, quase agônico, saído das prensas em 1963).

Desde então, me fiz militante do partido dos salingerianos, li uma e outra vez cada um de seus livros, me meti na vida de seus personagens e até me apropriei do sentido de um de seus relatos (“For Esmé, whith Love and Squalor”) para tratar de escrever, eu também, “histórias esquálidas e comovedoras”, como as que preferia ler a adolescente Esmé.

Desde então, por tantos anos, me acompanhou um sonho: que Salinger, lá de seu refúgio do norte, não só se dedicasse a meditar, mas também a escrever (como dizem que alguma vez falou). Porque um homem capaz de criar tanta beleza, de provocar a inquietude que nos deixam seus livros, de conseguir a perfeição que outros jamais poderemos sequer tocar, de engendrar criaturas capazes de mudar nossa percepção do mundo, não tem o direito de fechar a torneira e nos deixar com sede. Salinger tinha de continuar escrevendo. E, se não o fez, cometeu um dos crimes mais imperdoáveis da história da literatura.

Mas, como eu sei – claro que sei – que teve de escrever durante estes anos de silêncio, agora espero que alguém coloque em circulação seus manuscritos, e deste lado do mundo, onde aguardamos o momento de nossa próxima reencarnação, desejo a J. D. Salinger uma feliz chegada ao seu novo estado, e o desejo with love and squalor...

Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem que Amava os Cães, tem como personagens centrais León Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.

Publicado originariamente na Revista Envolverde

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O LIVRO INFINDÁVEL















Folheio o livro
infindável
em temas
e termos
e resumos
e resenhas
e cálculos
e artifícios
e artilharia
pesada

releio o texto
e desconcerto
palavras em letras
indispostas
aos olhos
fechados

o livro infindável
multiplicado
em páginas
repete passagens
de errados personagens:

os mortos
os amortecidos
as mortalhas
a sensação indecifrável
do mistério na página
seguinte.

Absorvo o tema e o contemplo
em escala: a janela
do mundo transportada
à página anterior.

O livro infindável traz
a perda de tempo. O tremor
da terra devastada.

Nenhuma vírgula acrescentada
ou diminuída. Nenhum ponto de vista
encontrado ou escondido.

Na infindável história em capítulos
e subtítulos o livro se depara com a vontade
férrea do leitor. O livro nas mãos.

Em qualquer cidade, na espera, na angústia
da ante-sala do hospital. A aproximação do clímax
e a antecipação da vida repetida.

Uma vez estive aqui penso
como leitor
e folheio a página infindável
do livro. Pela lombada calculo
a quantidade de folhas e a multiplicidade
das páginas.

Não imagino o peso entreolhado no vértice
do conto, do romance; no hemistíquio
do poema declamado.

Infindável o corpo se junta ao livro
e sonham finais infelizes, finais
acalorados em beijos. Finais
inexistentes.

Ao contrário do prometido
o mundo se revela ingrato ao leitor
amigo: esmigalhado entre
conceitos e a concepção da história.

O livro infindável confia
ao homem a leitura do tempo
em espaços intercalados.

Dimensão: sonho a continuação
da história em palcos, em cinemas
desfeitos em estacionamentos.

A infindável história destruída
no silêncio dos automóveis estacionados.

O som da buzina, o ranger dos freios,
o personagem atropelado sobre o friso
central do palco: a rampa leva o carro
ao centro e o desfaz em capítulos.

Infindável livro: melancólico
em tristezas disfarçadas; saudoso
no sono e o sonho de páginas percorridas
com a ponta do dedo molhado no virar
a página seguinte e seguinte e seguidamente
destituída do caminho.

A mesma página reduz dramas
em comédias. A tradução em introdução.

O remédio entre duas e três
palavras ditas em repetições.

A dimensão inexata: leio e releio a página atual
e busco ao molhar o dedo a folha seguinte.

Infindável parábola metaforicamente
recolhida ao dia. O rubor da face diante
do desconhecimento do elenco formatado
na recontagem da história.

Leio o título e tateio o livro:
sobram espaços vazios de leituras
não iniciadas. A infindável vida
desregrada aos óbices
e o sexo permissível
aos homens de vontade
insubmissa à criação
literária.

O livro: capa, apresentação, dedicatória,
prólogo, sobrecapa, texto.

O primeiro capítulo: a letra decora
o início do texto. A sobrecarga
de tinta sobre a palavra dita
em mágica retórica.

Iniciado, o livro se demonstra infindável
em vicissitudes e tragédias. O riso esplendoroso
dos adjetivos e a aspereza das palavras
em cantos dedilhados como músicas.

Permanece o infindável assunto:
remete o leitor à profundeza
grandeza
altivez
ao alto espaço
percorrido
na civilização
incorporada
como texto.

Fecho o livro, apago minhas marcas
sobre o insucesso da leitura. Destaco
em riscos o ranger dos dentes.

O livro permanece infindável na estante
onde repousa o instante inicial do personagem.

Pedro Du Bois, inédito

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Narrativa Visual de Evandro Teixeira

Por Ney Ferraz Paiva
Não lemos as palavras: ouvimo-las; não as ouvimos: vemo-las.[Fernando Namora]
Não mais representar o visível, mas tornar visível.[Paul Klee]

O espírito dos tempos parece estar soprando na direção de uma arte cada vez mais digital, capaz de exteriorizar conteúdos não-verbais de linguagem. A poesia concreta ou visual dos anos 1950 conseguiu instaurar um longevo paraíso da imagem ao abrir um novo campo de possibilidades à arte de “representar” o mundo. Fomos lançados a uma outra sensibilidade artística que ultrapassou em muito o modelo tradicional de texto.
A fotografia de Evandro Teixeira se propaga a partir desse novo contexto de leitura e escritura. Atenta à diversidade dos sentidos e à interligação das formas do dizer, acaba por fazer da imagem uma narrativa. Não se trata mais de olhar o cotidiano através do visor de uma máquina (fotográfica/literária), “mostrar”, “registrar” e sim multiplicar, se dar a um espaço que não mais se fecha nem se fechará, que nem mesmo a escrita contemporânea recente dissolverá com suas irresoluções, suas personagens multifacetadas, não marcadas nem preestabelecidas. Teixeira vai utilizar um aparato de incontáveis espelhos que inventam um outro atravessar, a partir de uma estética atual e precisa que envolve a percepção da imagem redimensionada, em movimento, próxima, por assim dizer, ao cinema.
Um cinema em branco e preto tomado de uma energia que só aparentemente foi corroída. Em torno desse movimento transversal de raríssimas cores Teixeira vai fazer o mais belo, o mais forte que podia fazer, ao narrar num tempo fragmentado e dilacerado um imaginativo confronto entre fim e começo, messianismo e apocalipse. Seu vocabulário visual, quase sem cessar chamado equivocadamente de “fotojornalismo”, vai ocupar-se nestes longos dias e anos – quantos?, como saber? – de uma partilha de enunciados que não se perdem na trepidação do instante registrado – a máquina mais remove a imagem para junto de um tempo nômade do que marca uma data restrita vista tantas vezes e sempre a mesma, mero documento ou informação a dar significado aos acontecimentos ou às ondas de memória – sua fotografia mais escreve que descreve o mundo sob o céu.
Uma narrativa escrita para os olhos. Texto em imagem, na mesma medida em que Foucault chama a pintura de Magritte: “ele prolonga a escrita mais do que a ilustra e completa o que lhe falta”. Trinta segundos apenas e a infinita distância está desfeita, atravessada pelo orifício do tempo, como se Teixeira pudesse até mesmo desviar o leito de um rio para fazer a água refletir ou realçar a beleza, ainda que trágica. E talvez possa. Sua escrita revolve os abismos que se abrem em meio às coisas todos os dias e adensa territórios de cálculo e precisão, distância e aproximação. Sem se deter em “retratar”, desafia semelhanças e ativa pensamentos. Numa foto, Teixeira não conta uma curta história que se pega, vê e se descobre tudo. A imagem colocada numa vitrine como um ciclope paralisado, entre o mero comentário das redações. Ao contrário, ele “prolonga” e “completa” o visível, exercita uma vez mais nosso olhar nublado, cheio de tédio, que os jornais reafirmam. Engendra um espaço que se transforma em linguagem, sem aí esgotar-se.



A arte implica numa dimensão do humano, seja pela consciência, seja pelo desejo. Sempre precisamos escolher entre a alegria insensata e o prazer inexplicável, porém o artista investiga outras possibilidades: dor, loucura, morte. Teixeira soube indicar estes planos subversivos, seja no horizonte fechado da ditadura militar ou no espaço infinito banhado por luzes e cores de uma Canudos não menos trancada em seu labirinto. Rastros do abandono que se negam a desaparecer. Caso alguém volte a fazer uma consulta ao destino sobre algo tão preciosamente frágil como a vida, lá estará a mão do artista: singela e, ao mesmo tempo, perversa, buscando um sentido que corra paralelo ao sentido próprio da existência.



Temos assim uma linha divisória que deixa no passado a busca vã da imagem como ilustração ou ornamento para apostar numa ótica em que somos devolvidos à observação de nós mesmos, sem dissimular ou simular nada, na câmara-limite do tempo. Sem dar respostas combinatórias e explicativas às imagens, leva-nos para frente, pelo que prolifera e agencia, faz funcionar e intensifica, nesta que tem sido a proposta de Teixeira para os dias que seguem, se não estivermos inertes, apenas à espera (de Godot, D. Sebastião, do Juízo Final): nos mostrar como protagonistas de mais uma viagem, de todas as viagens, infinitamente. Esta é sua miragem, ela ecoa, desobstruída até as bordas da noite ou da luz solar, articulando conexões, vigílias, mistérios, incêndios, perplexidades.

Publicado originalmente na Storm-Magazine, Lisboa
O nosso trabalho de divulgação inclui o trabalho de artistas brasileiros, com cuja cultura nos identificamos e com quem mantemos relações de cumplicidade.Nesta edição, damos a conhecer o trabalho do fotógrafo Evandro Teixeira, baiano, foto-jornalista do Jornal do Brasil que, ao longo dos anos tem fixado, tanto os momentos mais marcantes da nossa história recente, como cenas da vida da rua. Evandro Teixeira é, ao lado de Gabriela Butcher (por exemplo) um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos brasileiros.

http://www.storm-magazine.com/novodb/arqmais.php?id=311&sec=&secn=