domingo, 30 de agosto de 2015

MAX MARTINS
Ensaio fotográfico

       
       Já então é tudo pedra/ os dias, os desenganos.
 

Ney Ferraz Paiva 


sábado, 29 de agosto de 2015

Bagualeros

Fiquei pensando que podia, mas talvez não possa. Por causa de um monte de coisas, entre elas, o fôlego. A vida dos peões é mais bonita e muito mais dura. Não tem comparação. Desprendem muito mais esforço. Pensei que podia. Que houvesse uma comunicação entre as duas coisas, mesmo que fluida. Peões que capturam gado bravio com quem escreve. São paisagens deslumbrantes, selvagens, mas poucos escolhem a ocupação. E há por aí tantos escritores. Mesmo numa ilha minúscula do Caribe eles se multiplicam e se acotovelam. E escrevem de tudo. Até as suas memórias. Haverá entulho pior para pôr nas estantes? Pensei que podia. Que pudesse haver uma remissão, uma referência. Algo não tão tolo a ponto de se dizer: “Escrever é capturar touros”. Sabe-se que não há touro que recue a um poeta. A respiração acelerada dos peões – a oxigenação do sangue de quem escreve. Nem mesmo essa relação se pode estabelecer. Mesmo um escritor minucioso, preciso, denso. Não tem comparação. Escrever vem de outro lugar. Peões não perdem pistas – escritor apaga os rastros. O que poderiam ter em comum um com o outro: peões que capturam gado bravio e quem escreve. Talvez eu venha a fazer descobertas, e não constatações. Ir aos confins da Patagônia. Não analisar mais proposições. Contentar-me com alguns critérios meramente visuais de identificação. Uma pequena casa nas montanhas. Sua história, seus arredores. Vaqueiro, cavalo, gado. Algum critério aberto às conexões improváveis. Ao que não pode acontecer, mas acontece, e contamina o outro. Nunca vi, nem nunca verei os bagualeros. Terei deles aqui apenas uma visão paralela. Não escrevo para fazer descrições. Meus contos da década de 90 exemplificam bem essa minha tendência. E indicam que devo ter um problema de percepção. A vida a céu aberto eu jamais consigo explorar completamente. Interesso-me por coisas escondidas no sótão. Quase todo enredo eu o retorço para caber num quarto cada vez mais escuro. Ignorava, para ser sincero, até outro dia os bagualeros. Tratou-se, de resto, de simples encontro fortuito. Eu farejava em jornais e revistas os meus próprios passos. A sobrecarga dos temas a que sempre recorro. E me deparei com a surpresa de algo que me rasgou a carne. Eu tinha 43 anos quando publiquei meu primeiro romance, e desde então venho repetindo o que a crítica reconheceu como a força estranha de um estreante promissor. O trabalho em terrenos planos da euforia e da consagração gera uma sobrecarga de mesmice, besteira, repetição. Nunca se olha nos olhos um touro bravio. Todos os convites e todas as viagens são para promover meus livros. Mesmo se me infiltro mar adentro, não há águas nem ventos enfurecidos. Navego sempre em segurança. Faço cada vez mais leitores. Bagualeros não têm vida social, concluí, depois de ter lido a matéria na revista chilena. Eu estava em Santiago para celebrar mais uma vez a mim mesmo. E fui escavado por aquelas figuras. Dissecado pela rudeza interminável e longínqua que avistava. Eu sabia que Kafka havia sido sepultado às quatro horas da tarde. Essa é uma hora pela qual estou marcado. E agora, ao término da minha leitura, noto no relógio do hotel que são quatro horas. O tempo fechado sobre os bagualeros me escorraça. Estou nos confins da Patagônia. A combinação clima e lugar inóspito me esgota. Uma pequena casa nas montanhas como a de um ente querido. Vaqueiro, cavalo, gado. Fumamos um cigarro enrolado à mão. Amanhã vamos sair bem cedo para capturar baguales. Alguns dos mais violentos animais de criação do planeta. Fiquei pensando que podia comparar, mas não posso. O cigarro sempre colado ao lábio inferior. Nada falamos. Fumar é o único apoio moral que nos permitimos. Peões que capturam gado bravio com quem escreve. Eu pensava ser normal mergulhar na escuridão de um sótão. Mas há zonas bem mais inacessíveis, que encerram coisas mais difíceis de definir. Pensei que podia. Vou arrastar ou ser arrastado por um bagual amanhã cedo. Não tem comparação. Não se olha nos olhos um touro bravio.
 
 
Ney Ferraz Paiva

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O RELES E O CACHORRO


Franz Kafka teve um cachorro
Que poucos souberam o nome
Nem sempre estavam fazendo
As mesmas coisas um cão de
Nenhuma raça ladrão habituado
Em esgoto ignorava os silêncios
Que tanto estimulavam o dono
Não era um parasita não metia
Absorto o focinho na literatura
Não temia o risco de levar por
Trás um chute nas costelas por
Amizade um canto um osso
Kafka sentia-se acorrentado
A uma aberração irreversível
Andava sempre tão pra baixo
Esperava que seu cão pudesse
Protegê-lo mas nada havia a ser
Feito apenas rosnar morder latir
Estava fora de caso terminar bem
Não podia ter mais alguma saúde
Não podia dar um passo adiante
Não podia se virar na imundície
Vetado todo contato com a vida
Manteve-se murcho intumescido
Ora fosse ele o animal que fosse





























Ney Ferraz Paiva


domingo, 9 de agosto de 2015

NÃO VÃO ME VER MAIS

Ligo para Glauber Rocha
Hospitalizado em Portugal
Desde 6 de agosto de 1981
Ele vai morrer em dez dias
A luz solar a força eólica
A biomassa o gás a água
Com problemas bronco-pulmonares
“Você está preparado para morrer?”
Ele pergunta e ri escandalosamente
Do meu silêncio da minha pena
Eu devo ter baixado os olhos
Engolido em seco o momento
Daquela extravagância que nele era tão normal
E como poderia deixar de ser assim?
Queria colocar tudo abaixo
Demolir abater desbaratar
Dinamitar a marca Hollywood S/A
Mesas de sinuca circos concursos de miss
Coisas pelas quais nutria aversão extrema
Exagerou tudo que pôde
Ocultou como pôde sua intrínseca fragilidade
Acrobata do choque quebra espaços distantes
Anjo naufragado à deriva cão demônio abutre
Serpente dragão lagarto enormemente vários
“Vão pensar o pior de mim
Mas não vão me esquecer”
Tinha de si mesmo as próprias miragens
“Se voltar a pôr os pés no Brasil
Vou tirar a roupa e me masturbar
Em praça pública”
Queria se livrar de um fardo
E deixar um rastro
Não ia ficar acuado esfolado vivo
Jogado na vala comum do medo
“É claro que você sabe que não está preparado”
Fiquei sem responder o que
Ele também não podia saber
Um silêncio que vem das entranhas
Quando o que resta é aderir ao erro


ney ferraz paiva
JULHO DEVO VIAJAR


Penso se devo tirar férias
Se devo me aposentar
Trabalhei duro nestes
Versos com o corpo todo
Devo viajar comprar
Música pop on-line?
Como sabem que estou
Interessado? Como me
Observam? Devo
Trabalhar ainda mais
Ou andar de bicicleta?
Seria então isso a viagem?
Esta espera este impasse?
O que deve entrar nos
Meus versos? Empenho-me no
Ato de escrever um romance?
A quem tomaria como modelo
Proust Joyce Kafka Machado?
Seria ou não seria esse o caso?
Devo procurar em outro lugar
Chaves a que não tenho acesso
Enxerto paisagens mortas
Realidades longas inertes
Em que me perco de vista
Deserta despovoada pele
Devo ir de visita a Ítaca
Devo perder lá o coração
Desaparecer sem deixar
Notícia um corte súbito
Talvez por alguns dias
Outra passagem de ar
Anteprojetos de escrita
Todas as outras coisas
De que devo me livrar
Sei que não quero estar
Aqui pra que meus lábios
Ressequem rachem mudos
Nem ser guiado pra algum
Destino traçado mapeado
Amar o mar como Melville





Ney Ferraz Paiva
Ismael Nery, resignação diante do irreparável