Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

terça-feira, 2 de julho de 2013

RAYMOND ROUSSEL OU O HORROR DO VAZIO (DL)




Gilles Deleuze, 1963

Daido Moriyama


            A obra de Raymond Roussel, cuja publicação foi retomada pelas edições Pauvert, compreende dois tipos de livros: os livros-poemas, que traçam a minuciosa descrição de objetos miniaturas (por exemplo, todo um espetáculo sobre uma etiqueta de garrafa de água de Evian) ou objetos dublês (atores, maquinários e máscaras de carnaval). Um segundo tipo são os livros-procedimento: partindo, explicitamente, ou não, de uma frase indutora (ex. “les lettres du blanc sur les bandes du vieux billard”), acaba-se por reencontrar a mesma frase ou quase (les lettres du blanc sur les bandes du vieux pillard”), mas no intervalo terá surgido todo um mundo de descrições e enumerações, onde duas palavras tomadas em dois sentidos vivem vidas diferentes, ou melhor, são deslocadas para comporem outras palavras (“j’ai du bon tabac...” = “jade tube onde aubade...”)1.

                  Este autor, que tanta influência teve sobre os surrealistas e hoje a tem sobre Robbe-Grillet, continua pouco conhecido. Michel Foucault publica um comentário impressionante, de uma grande força poética e filosófica. Ele encontra as chaves da obra em uma direção bastante diferente da que os surrealistas haviam indicado. Parece indispensável associar a leitura do livro de Foucault àquela do próprio Raymond Roussel. Como explicar o “procedimento”? Segundo Michel Foucault, existe na linguagem uma espécie de distância essencial, de deslocamento, de desmembramento ou de rasgão. Acontece que as palavras são menos numerosas que as coisas e que cada palavra tem vários sentidos. A literatura do absurdo acreditava que faltava sentido; de fato, o que falta são os signos.

            Há, então, um vazio que se abre no interior de uma palavra: a repetição de uma palavra deixa escancarada a diferença de seus sentidos. Seria a prova de uma impossibilidade da repetição? Não, e é aí que aparece a tentativa de Roussel: trata-se de aumentar esse vazio ao máximo, tornando-o determinável e mensurável, e de preenchê-lo, então, com toda uma maquinaria, com toda uma fantasmagoria que religa e integra as diferenças à repetição.

           Por exemplo, as palavras “demoiselle à prétendant” induzem “demoiselle (hie) à reitre en dents” e, como numa equação, o problema torna-se o da execução de um mosaico com a ajuda de um maço NRT. É preciso que a repetição se torne uma repetição paradoxal, poética e compreensiva. É preciso que ela compreenda em si a diferença, ao invés de a reduzir. É preciso que a pobreza da linguagem se torne sua própria riqueza. Foucault diz: “Não a repetição lateral das coisas reditas, mas a repetição radical que passou por cima da não-linguagem e que deve a esse vazio transposto o seu ser poesia DLa.”.

O vazio será preenchido e transposto pelo quê? Por extraordinárias máquinas, por estranhos atores-artesãos. As coisas e os seres seguem aqui a linguagem. Tudo nos mecanismos e nos comportamentos é imitação, reprodução, récita. Mas récita de uma coisa única, de um acontecimento incrível, absolutamente diferentes. Como se as máquinas de Roussel tivessem tomado para si a técnica do procedimento: a exemplo do trabalho de turbina, que remete por sua vez a uma profissão que nos força a levantar cedo NT. Ou o verme que toca cítara arremessando gotas de água sobre cada corda. Roussel elabora várias séries de repetição que liberam: os prisioneiros salvarão sua vida através da repetição e da récita, pela invenção de máquinas correspondentes.

        Precisamente, estas repetições liberadoras são poéticas, porque elas não suprimem a diferença, mas, ao contrário, a experimentam e a autenticam ao interiorizar o Único. Quanto ás obras sem procedimento, obras-poema, elas se explicam de uma maneira análoga. Desta feita, são as próprias coisas que se abrem em favor de uma miniaturização, ou melhor, à custa de um dublê, de uma máscara. E o vazio é agora atravessado pela linguagem, que dá surgimento a todo um mundo no interstício dessas máscaras e dublês. Desta forma, as obras sem procedimento são como o avesso do próprio procedimento. Em ambos os casos o problema é o de falar e fazer ver ao mesmo tempo, falar e dar a ver.

       O que dissemos ainda está aquém da riqueza e da profundidade do livro de Foucault. Esse enlace da diferença com a repetição contém também a vida, a morte e a loucura. Pois parece que o vazio interior às coisas e às palavras é um signo de morte e aquilo que o preenche é presença da loucura.

     Todavia, isso não quer dizer que a loucura individual de Raymond Roussel e sua obra poética tenham um elemento positivamente comum. Ao contrário, seria necessário falar de um elemento a partir do qual a obra e a loucura se excluem mutuamente. Ele é comum apenas nesse sentido; esse elemento é a linguagem. Pois a loucura pessoal e a obra poética, o delírio e o poema representam dois investimentos da linguagem, em níveis diversos, exclusivos.

         Foucault, em seu último capítulo, esboça, a partir desse ponto de vista, toda uma interpretação das relações obra-loucura, que se aplicaria, e que talvez aplicará a outros poetas (Artaud?). O livro de Foucault não é decisivo somente em função de Roussel; ele marca uma etapa importante nas pesquisas pessoais do autor, dedicadas, em primeiro lugar, às relações entre a linguagem, o olhar, a morte e a loucura2.

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Tradução de

Hélio Rebello Cardoso Júnior



DL  Arts, 23-29 outubro 1963, p. 4 (Sobre o livro de M. Foucault, Raymond Roussel, Paris, Gallimard, 1963). Deleuze e Foucault se haviam encontrado na casa do filósofo e epistemólogo Jules Vuillemin, em Clermont-Ferrand, no ano anterior (eles haviam se encontrado alguns anos antes, em Lille, por intermédio de um amigo, Jean-Pierre Bamberger). Foucault sugeriu que Deleuze se juntasse a ele na Universidade de Clermont-Ferrand, mas foi finalmente Roger Garaudy quem seria nomeado com o apoio do Ministério (Deleuze será nomeado para Lyon). Tal episódio é o início de uma amizade e de uma admiração recíproca entre Deleuze e Foucault que se prolongará até finais dos anos 70. Ver DRF, o texto “Désir et Plaisir”.
1 Já lançado pela Pauvert: Comme j’ai écrit certains de mes livres?; la Doublure; Impression d’Afrique. [NRT: embora insuficiente para reproduzir a aplicação desse procedimento em língua portuguesa, eis a tradução literal dos exemplos aí citados: “as letras em branco nas tabelas do velho bilhar” / “as letras em branco nas costas do velho ladrão”; “tenho bom tabaco...” = “jade tubo onda alvorada”. Notar, em francês, o duplo uso de “bandes” como tabela e costado, assim como o jogo sonoro/surdo das consoantes b/p em “billard”/”pillard” (bilhar/ladrão)].
NRT [Eis apenas a tradução literal dos exemplos: “senhorita para pretendente” / “senhorita (maça) para experimentado em dentes”. Em francês, a inteligibilidade dos exemplos depende do emprego do termo “demoiselle” tanto no sentido de “senhorita” quanto no sentido de “hie”, isto é, de maça ou maço, instrumento usado para embutir, implantar guias de calçada, segmentos que se sucedem como dentes separando a calçada do leito da rua].
DLa RR, p. 63.
NT [Trata-se de um procedimento lingüístico de difícil tradução, posto que a expressão “trabalho de turbina” (“métier à aubes”), contém o vocábulo “aube”, que serve ao mesmo tempo para pá de uma turbina e alvorada].
2 Cf. Michel Foucault: Maladie mental et psychologie (PUF, 1954); Histoire de la folie à l’âge classique (Plon, 1961) e, recentemente, Naissance de la clinique (PUF, 1963), onde o autor pode dizer: “Neste livro está em questão o espaço, a linguagem e a morte,  está em questão o olhar.”