Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Literato Cantabile





Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim:
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. 

agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.
você não tem que me dizer
o número do mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo
só tem que me dizer
o nome da república ao fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o trem do tempo vindo;
não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento. 


torquato neto, os últimos dias de paupéria
imagem: francesca woodman

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Está na hora de explodir as outras torres gêmeas
Por Sebastião Nunes, publicado originariamente no site Cronópios 2/03/2009
         Tem gente que não me perdoa, mas continuo achando que a maior obra de arte do século 21 até agora – incluindo literatura, cinema, música, teatro e todo o resto – foi mesmo a explosão das torres gêmeas. Tudo perfeito. A hora escolhida, a beleza crua dos aviões detonando os edifícios, a transmissão em tempo real, a monumentalidade da realização... e até algumas vítimas inocentes (sic: ninguém é inocente, não é mesmo, João Paulo Sartre?) para temperar com sangue o grandioso espetáculo da manhã em chamas, que mergulhou em pânico e espanto os sentimentais, e encheu de sádico prazer os que não rezam pela cartilha do Tio Sam.
         Mas meu assunto não é este. Estou pensando mesmo é em livro e leitura, embalado pela crônica de Geraldo Maia, “Bienal do Livro: cadê a leitura?”, publicada aqui em 23/2/2009, e pelo post-resposta de Ney Ferraz Paiva, de 28/2/2009, “mercar, sim, mas assim não”.
         A resposta que eles procuram e não encontram, e eu também não encontrei, mas sei que tangenciaram, aponta pelo menos o problema maior: o livro transformado em mercadoria, e só mercadoria, foda-se o mundo e dane-se o leitor.
         A questão básica é a seguinte: por que, existindo tantos programas de compra de livro e de incentivo à leitura, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes?
         A resposta, alegórica: porque os empata-fodas continuam empatando a foda. E os empata-fodas são os vendedores de livros fantasiados de produtores de livros ou, se preferem eufemismo, em editores, distribuidores e livreiros, argh!

         Perguntinha número 1: quais são, pela ordem, os três produtos mais vendidos nas tão badaladas bienais e feiras de livros?
         Resposta: estandes, comida e bebida. Em quarto lugar ficam os livros, mas só em quarto lugar, assim mesmo com 99% de best-sellers vagabundos, biografias e fofocas de e sobre gente famosa, e obras de auto-ajuda, que não ajudam ninguém, é claro, só ajudam a encher o bolso dos autores de tais babaquices e das grandes empresas que mamam no público que sucumbe aos cantos das sereias do mercado.

         Perguntinha número 2: por que as bienais de livro são tão badaladas, se em vez de servirem à cultura servem apenas a seus promotores e paus-mandados?
         Resposta sintética: porque a grande imprensa está cheia de autores editados na base da troca de favores e precisa desovar seus próprios produtos pseudoculturais, ou seja, incrementar o círculo vicioso da mútua badalação.

         Perguntinha número 3: quem são os “famosos autores” que ajudam a promover essas bienais de livros?
         Resposta cínica: exatamente os autores de best-sellers, quase todos encastelados na grande imprensa do mundo todo (que culturalmente também está globalizado), que a cada peido recebem um milhão de dólares, e a cada arroto, idem.

         Perguntinha número 4: por que, apesar de comprar e distribuir de graça tanto livro, o governo federal ainda não conseguiu, com seus milhares de “parceiros” da iniciativa privada, consolidar programas de leitura e escrita consistentes, seja a curto ou a médio prazo?
         Resposta dedo-duro e longa, relendo a crônica de Geraldo Maia:
Sim, 70% dos livros editados no país são comprados e distribuídos de graça pelo governo federal, que mantém há alguns anos o maior programa de compra de livros do mundo. Pequena mas importante parcela é constituída de livros literários de boa e ótima qualidade. Falo do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, ligado ao FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, órgão do MEC. Os outros, a grande maioria, são didáticos, também indispensáveis nas escolas públicas.
Por outro lado, boa parte das entidades ligadas a livro e leitura, sejam elas editoras ou fundações, são pouco ou nada confiáveis.
Exemplo número 1: os governos da cidade  e do estado de São Paulo fizeram expressiva compra de livros literários em 2008, meio por baixo dos panos, com aval da CBL (Câmara Brasileira do Livro), que privilegiou editoras paulistas, lógico. O garoto-propaganda, com sempre, foi nosso sorridente Ziraldo, o que faz tudo por dinheiro e holofotes, mesmo estando velhote e rico. Não preciso citar Maurício de Souza, claro.
Exemplo número 2: A Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, lançou edital para compra de cerca de 2.000 títulos pré-escolhidos não se sabe por quem, já que a divulgação só apareceu depois do edital pronto, isto é, dos livros já escolhidos, se não loteados entre as editoras mais espertas. O CEM, Clube de Editoras Mineiras (do qual faço parte como sócio da Dubolsinho, de literatura infanto-juvenil), entrou na justiça contra a licitação. Perdemos, porque atiramos contra o que vimos (a licitação) e não visamos quem ordenou a compra (a FBN). Parece que a tramoia melou parcialmente, pois deve ter chegado aos ouvidos do Juca Ferreira, que quase certamente não sabia do rolo. Bravo editor cearense (não estou autorizado a escrever seu nome) recusou participação na gandaia, declarando em carta-aberta que não venderia seus dois títulos escolhidos, por não concordar com os critérios sombrios e sem transparência da escolha. Por outro lado, mesmo sendo Minas um importante polo na produção nacional para jovens, numa briga feroz por qualidade contra quantidade, as editoras do estado não tiveram um único titulo incluído na lista.
Exemplo número 3: a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), baseada no Rio de Janeiro, e que fica a dois ou três quarteirões da FBN, promove todo ano o julgamento da produção editorial para jovens, com ênfase na badalada distinção “Altamente Recomendáveis”. Dos 25 votantes, 11 moram no Rio.

Perguntinha número 5: e então, como ficam a leitura e a escrita nesse país?
Resposta final: é preciso separar o joio do trigo, com perdão pelo truísmo.
As mais badaladas instituições ligadas a livro e leitura não passam de entidades de fachada, criadas por grandes empresas para não pagaram impostos e se promoverem na mídia. Literatura não faz parte de seus interesses, a não ser como meio.
Por mais que os “intelectuais” torçam o nariz para o governo Lula (a maioria inclusive não se cansa de fazer piada com seu pretenso “analfabetismo”, sem perceber que é o primeiro presidente digno do título em 110 anos de república patrimonialista, seus programas educacionais são motivo de admiração (e de reprodução) em muitos países, tanto mais ricos quanto mais pobres que nós.
Literatura com L maiúsculo, ou seja, aquela magnífica escola de vida que fez a glória dos grandes autores de todo o mundo, é dinossauro soltando os últimos suspiros. Me refiro especialmente aos romances de alto nível. Sobrou a escória, os que não sabem escrever porque nunca leram nada. São esses que alimentam a cadeia do toma-lá-dá-cá, a nojenta cadeia “produtiva” de livros que assola o país e que infesta tanto as editoras quanto a grande imprensa, ou seja, a que se vende em tempo integral.
Voltando às feiras de livro, com as famosas bienais (Rio e São Paulo) à frente: seu objetivo, não faz mal repetir, é encher de grana o rabo dos grandes editores, das grandes distribuidoras, das montadoras de estandes e das entidades que as promovem, além dos periféricos vendedores de cachorro-quente e refri. Só. Apenas isso. Nada mais do que isso. Leitura e literatura não foram – e nunca serão – convidadas para a festa, por mais que as duas palavras sejam citadas e usadas todo o tempo, como uma espécie de “abre-te sésamo” para a mais deslavada picaretagem livresca.
Enfim, e depois de tanto malhar em ferro frio, será que ainda preciso revelar o nome das novas torres gêmeas, infinitamente mais perniciosas que as outras? Aquelas, coitadas, eram apenas edifícios arrogantes e cheios de empáfia, produtos da grosseira megalomania ianque. As nossas, ah, essas fazem um mal danado a este pobre Brasil, tão precisado de seriedade e tão entregue às baratas do mau-caratismo e do pseudo-intelectualismo da classe média.


Sebastunes Nião, também conhecido como Sabião Bestunes, Nastião Sebunes e diversos outros codinomes, é ex-poeta, cronista e ficcionista, autor de vários livros de prosa satírica, entre elesDecálogo da Classe Média e Somos Todos Assassinos, relançados em dezembro pela Editora Altana, de São Paulo. Sobre sua obra, poética ou não, a Editora UFMG lançou recentemente, organizado por Fabrício Marques, o livro Sebastião Nunes (o título é esse mesmo). Passou dos 70 anos, está quase caduco mas, ainda assim, continua metendo o bico na vida alheia, tanto de vivos quanto de mortos, principalmente de mortos-vivos. E-mail: dubolso@uai.com.br

terça-feira, 30 de novembro de 2010

cariri vertigo
a arte de se retirar (atirar-se, subir-descer, gingar, jogar) como uma das belas-artes

Para Carolina Maria de Jesus, Madame Satã e Cara de cavalo – pelas vertigens desenfreadas da rua & do morro.

Achava belo, a essa época, ouvir o poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber as razões de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados.
Osman Lins: Guerra sem testemunhas

Alguns pequenos extras e outros tantos desenlaces:

Favela e sertão se conciliam. Favela é sertão a poucos passos do mar.
Favela não é contradição do sertão.
Favela não é continuidade do sertão.
Favela não é destino do sertão.
O que é favela? O que é sertão?                                      
Brasil profundo – Brasil pro fundo. Brasil-problema.
O sertanejo. O proletariado.
Samba. Candomblé.
Favela posta em conserva, sertão acondicionado in vitro – os dois possuem o grande e terrível dom de renascer.
O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro. O Câncer (dois filmes de Glauber Rocha, vocês lembram? duas portas entreabertas para o mesmo lugar à margem de tudo: dos influxos das zonas rurais do Nordeste às conjunções do imaginário urbano do Ser-Tudo e do Ser-Nada a um só tempo).
Mostra Opinião 65, no MAM do Rio de Janeiro, Hélio Oiticica apresenta pela primeira vez a instalação Tropicália, um jogo de experimentação dos espaços labirínticos (sertão-favela etc.) que ironiza e renova as imagens das zonas tropicais vistas tradicionalmente ora como paraíso perdido ora como região de transcendente tristeza. Tropicália enfatiza os trópicos para além das coordenadas “céu” e “inferno”. É o fragmento, o primitivo, o improviso que está sempre se fazendo.
Favela e Sertão se encontram aí, renascem, se misturam, coexistem e se estranham.

Fixemos estes pontos de partida para irmos encaminhando nossa abordagem e do fracasso presumível fazer dar um passo à frente. O ano é 1964 e o apocalipse não é amanhã, ainda que daqui a pouco se descerá a uma temporada no inferno, mas não se nomeará aqui os atos covardes e brutais que seguirão implacáveis por mais de duas décadas cometidos pelos distintos e perfumados militares e suas complexas redes de apoio – no avesso das armaduras o relógio continuará frágil como roseirais a mover a paisagem ante as aparições múltiplas da adversidade e do Grito, aquele que aturde e descongela corpos, almas e mentes – sacode-os, desperta-os, uma vez que a ferida (em reverência à morte) é invisível em seu início.

“Cada um vive como quiser”, “É proibido proibir”, “Abaixo a ditadura”, exclamava-se, insultava-se nas ruas anonimamente enquanto as incontáveis inscrições escorriam dos muros. Gritos sem dono como só um animal consegue ser. É pela voz que se começa a tornar-se animal. Muda-se a voz ao se entrar no coração dos caminhos (ou no espelho), girando agradável o corpo numa qualquer direção que não mais aquela: “já cortaste o cabelo?”, “arrumaste já a cama?”, “abotoaste a camisa?”. Sair da casa, sair-se do outro, retirar-se. “É para ir, vai”. Bancando o Rimbaud. Parte o menino que um dia foi tão nosso. Abre-se o buraco, a lacuna cada vez mais funda. Terá sido uma das tantas ficções a infância, esta a que nos pomos a recontar? Os pés fatigados de quem tentou tudo e fracassou. Nós que um dia fomos sem ter nem como um Kafka a escrever cartas, agora as recebemos – será a quem se escreve tais cartas – carta-crônica, carta-romance inconcluso, carta-poema nunca de amor? A mão que empunha a pena equivale à que guia o arado, no solo mais extremo da distância, o que se cavou dentro de nós? Ao pai-discurso, ao pai-estado, ao pai-caminho. “Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais braços dados ou não... vem, vamos embora...”. Cantar-dançar-delirar a rua como o espaço privilegiado de tensões, intervenções, instabilidades. A rua que passa a ser teatro que libera ecos que irrigam/nutrem um olhar-outro, e um pouco de medo – de abismo – e ver aí a inscrição simbólica da liberdade. O GRITO a soar, a doer. “Parangolé, essa a palavra”. Palavra-senha que Oiticica terá que arrancar/despregar a um espaço de indiferença – a um mendigo que desconcerta o olhar voluntário do artista, este que quer encontrar no descoberto das ruas o indício do enunciado expressivo da imanência, que se esboça na sensação visual, tátil e rítmica do movimento improvisado de uma dança e já num átimo se perdeu. Há de se estar atento. Emaranhado a um empreendimento particularmente difícil a que se quer expandir. Uma esfregadela nos olhos é pôr tudo a perder. A incitada serpente vibrando, vibrando, vibrando os guizos. Oiticica num giro banal de ônibus pelo centro do Rio de Janeiro, não apenas vê passar a sua frente e sim tem a carne atingida em cheio por essa palavra-tempestade que dissipará de sua obra os elementos picturais de representação. Não mais um modernismo de convento em peleja contra o corpo, a se referir como uma lição de coisas a isto que pode – a isto que não pode no ambiente da cultura artística. As desgastadas regras acondicionadas como que numa moldura que deve proteger-assegurar-redobrar as forças dominantes do mercado consumidor pequeno-burguês da arte. Aí o lucro maior é, em verdade, reverência, respeito, prudência, submissão. O sistema de publicidade do modernismo acaba por auto-retratar seus monstros. Exceção e honra a uns poucos – a Oswald de Andrade que escapou com considerável positividade artística, um a um, aos fracassos e ao envelhecimento prematuro que se seguiu à Semana de 22. Desde o “Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade” que se pôs a operar, acionado apenas pelo motor da linguagem, a caligrafia irregular que anuncia o total desapego e o surpreendente divórcio com as musas decadentes. É com ele que se instalam os processos da diferença. Os cortes de relação. Os impasses. A deglutição antropofágica. E suas propostas artísticas progridem e prosperam no ambiente marcado pelo pensamento marxista e pelos anseios de liberdade da juventude dos anos 1960. Gritar para ouvir aí lemas e alertas, o procedimento menor e, no entanto o mais estrangeiro. É sempre melhor seguir Gritos, tambor, dança, dança, dança, dança! Ecos prescindem de explicação.

Se Sertão é a Carne de Corpos do Avesso a Secar ao Sol, Favela é a Utilidade Marginal da Caverna, da Toca, da Quebrada, do Beco sem saída de corpos desterrados. Labirintos revisitados a uma só vez por um Neo em “Matrix”. Por um K. em “O Castelo”. Mas seria apenas – e meramente – de uma Arquitetura a ser desbloqueda que faríamos ressoar aqui as linhas horizontais, ou pior, as linhas pendulares de uma não-arquitetura a que se quer deter, esvaziar para que não prolifere pela cidade? De que lugar esse homem coberto de pó e de silêncios? O lugarejo paralítico e perdido entre as duas Espadas do Evangelho, as moscas, os ossos, as pedras, os intestinos intumescidos das crianças cujos corpos se esvaziam pelo ânus? Onde tudo é seco, duro e oco e mesmo a Beleza tem o rosto enterrado, a cabeça achatada, as costas como que de uma carapaça? E será que aí ele se “ajeita”? terá ele “jeito” – a que incontáveis “jeitinhos” e a que combates protagonizará frente às leis e os modos paranóicos de como a cidade se administra e se reveste em sua cúpula de concreto das casas-edifícios? Ele que saiu de seu mundo em busca de emoções humanas, que o aproximam de escolhas sempre muito mais penosas. Que saberá das guerras entre homens e máquinas que aí se dão? E dos trajetos que percorrerá morro-acima-morro-abaixo, evidenciarão ainda mais a irracionalidade humana?  Por essas altas ideias navegará mal?  Ou será que aí ele se “ajeita”, se apruma, se arruma? Terá ele rumo? Será muito pobre coitado nesse seu quarto de despejo? Se já no Sertão as moradias eram anti-residências, será que na Favela, barracos, por dentro, podem vir a ser casas-ninhos?...

Hélio Oiticica pressupôs isso. Sonhou isso. Flutuou como gás entre paredes de plástico papelão e zinco atadas por cordas, arames, barbantes. Homens-aranhas subindo/descendo o morro, lançando e traçando seus frágeis caminhos.

Em plena explosão da Pop Art, Oiticica se reserva à surpresa dos saberes para além de uma arte como produto direto da sociedade de produção e consumo em massa – com esse comportamento ele se coloca de passos trocados, desequilibrados, em tropeços com o resto do ambiente culto da arte-instituição. Oiticica desencaminhou-se para o lado íngreme do grande terreno da arte, e tornou-se, mesmo sem o pretender (ele aspirava ao grande labirinto), a expressão do contemporâneo de uma atualidade sem precedentes, máquina desejante na direção da arte e do pensamento, que se põe a funcionar pelo festivo, artesanal, interativo, carnavalesco, corporal, engendrando questões que envolvem muitos deslocamentos, toda uma geografia, dobras e redobras cuja consequência implica em uma quebra no estabelecido, na direção de outra maneira de pensar a arte e se incorporar a ela – o CORPO, as articulações em CARNE VIVA.

Eu tinha a ideia de me apropriar de lugares que eu amava, de lugares reais, onde eu me sentia vivo. Na realidade, o penetrável Tropicália, na sua multiplicidade de ideias tropicais, era um tipo de condensação de lugares reais. Tropicália é um tipo de mapa. Um mapa do Rio e um mapa da minha imaginação. É um mapa dentro do qual se pode entrar. (H.O.)

Sem ir ao Nordeste, Oiticica subiu ao Sertão no morro da Mangueira e ali teve o Sertão que desconhecia. Caiu de vez na Alternativa, entregou-se à Experiência do Pensamento Selvagem, Nômade, Primitivo do Improviso, do Salto, da Ginga, da Malandragem. Integrou-se (e entregou-se) ao Bando da Mangueira, à comunidade de criadores e parceiros, num encontro de consequências e reverberações. Antes, a morte do pai o libertara. Nada melhor do que a morte do pai para indicar o quanto se pagou da dívida que, por vezes, nos coloca na razoável categoria de sobreviventes. Sobretudo porque a arte não é um desses negócios especiais de família. E aí, nos atos de criação, a dor abre lugar também para se experimentar sensações além da perda. Na Mangueira Oiticica não estava interessado em minimizar perdas, fazer catarse ou submeter-se à terapias. Órfão e desnorteado, seu coração circulava pelas nuvens de um céu de intensidades e singularidades, arrastando a arte para além dos suportes, mas numa jornada que passava decisivamente pelo fazer artístico... Lygia Pape se referindo a esses fatos que os anos não cauterizam a beleza, conta sobre as mudanças operadas na vida de Oiticica: “Hélio virou uma outra pessoa... (‘Eu não sabia/que virar do avesso/era uma experiência mortal’, acrescento providencialmente os versos de Ana Cristina Cesar). Isso começa a interferir na obra dele, em 1964. A morte do pai coincidiu com o fim do movimento neoconcreto, já não havia aqueles compromissos mais ortodoxos. Aí Ele começou a incorporar essa experiência do morro... Essas barreiras da cultura burguesa se rompem lá, é como se ele vestisse um outro Hélio, um Hélio do ‘morro’, que passou a invadir tudo: sua casa, sua vida e sua obra”. Mas Oiticica não se livrou automaticamente de suas fantasias escapistas apenas por expressar outras agora mais prontamente disponíveis. Penso que Oiticica, de uma forma ou de outra, sentiu isso, teve que se encarar, despir-se, retirar-se e encenar mais uma vez o ritual, corporificar a mudança de forma extraordinariamente vívida e criativa. Seguindo um processo comum da cultura popular, sobretudo do romanceiro do Nordeste, Oiticica toma uma história que não é sua e versa-a (VESTE-A), reescreve-a, conta-a a seu próprio modo. Recoleção de opostos.
Há uma fotografia de uma noite em que ele samba ao lado de uma passista negra. Ela usa um vestido discreto, fechado, que desce até os joelhos sem marcar o corpo, mas que deixa os braços à mostra, caídos, suficientemente livres. O rosto dela é altivo, o olhar hierático, misterioso, assemelha-se a um ídolo pagão, e como tal não olha Oiticica. Ele está a seu lado, usa um austero traje escuro, mas ela não o vê, estão juntos, ao centro, mas apartados, deslocados pelo olhar. No ardor indeciso dos quadris, ele tem o corpo inclinado à frente, a cabeça e os olhos voltados para o chão. Os braços e os pés seguem o mesmo ritmo, se repetem quase que com exatidão. Mas são duas as danças ali – duas gingas, dois Dionisos. Se assim pode se dar/acontecer: que os pares se dispersem numa diferença de Vertigem do Corpo em movimentos e gingas, como que prestes a desaparecer abruptamente no território comum, aberto, delirante, baldio da favela. Por que não? Por que não?

Muito a propósito, no conto “Solar dos Príncipes”, Marcelino Freire fala de um grupo de negros do Morro do Pavão que param na frente de um prédio para fazer um filme. A primeira reação do porteiro é: ”Meu Deus!” A segunda: “O que vocês querem?” A terceira: “Por que ainda não consertaram o elevador de serviço?” O grupo tenta dialogar: “A ideia é entrar num apartamento do prédio, de supetão, e filmar, fazer uma entrevista com o morador.” O porteiro: “Entrar num apartamento?” “Não.” “Tô fodido.” E segue o diálogo: Fazer o “condômino falar como é viver com carros na garagem, saldo, piscina, computador interligado. Dinheiro e sucesso.” E acaba que o porteiro não deixa ninguém entrar-subir-filmar coisa nenhuma e chama a polícia. O grupo retorquiu: “Esse porteiro nem parece preto, deixando a gente preso do lado de fora. O morro tá lá, aberto 24 horas. A gente dá as boas-vindas de peito aberto. Os malandrões entram, tocam no nosso passado. A gente se abre que nem passarinho manso. A gente desabafa que nem papagaio. A gente canta, rebola...”. Subir o morro para fazer filme é consensual. Agora, descer o morro para filmar – sorria! você está sendo filmado –, é transgressão da norma, ameaça, caso de polícia! Esse espaço parece não estar destinado ao negro desde sempre, ao nordestino, sobretudo à mulher negra, nordestina. Ela nunca teve grande coisa para dizer. Daí o olhar altivo da parceira de Oiticica? Ela sentir-se no território que lhe é próprio, constante e inabalável, garantido e seguro, não só por tratar-se do morro, mas por estar na favela, seu teto e abrigo transcendental. Sabe-se que na origem favela era a casa dos antigos escravos. Que favela era o amontoado das gentes entregues à própria sorte (ou azar) em CANUDOS. E em meio a isso, a partir daqui, eu não sei mais se pergunto ou se afirmo. Se alguém além de mim viu isso – se você aí viu, se você aí disse ou se estamos com bocas e olhos costurados ou pior: se estamos fazendo caras e bocas, muxoxos, bocejos... Eu os desafio, desejo que vocês encontrem, em breve, em seu caminho um dos senhores donos de toda terra, leitura e suma doutoração, bem como dos corpos desejantes de saber, e que ele ao afrontá-los com a vigilância de cada palmo de seu improdutivo território, inclusive com a oligarquia de seu presunçoso conhecimento, tão inútil quanto as outras e não menos reativa, vocês encontrem um meio de atingi-lo em cheio: não obedeçam, não baixem a cabeça, não sofram uma vez mais as consequências da paciência...  – Terei visto? terei sonhado? alguém me terá contado? tudo é irreal?

Reconto, não desalembro. Oiticica não chegou a morar na Mangueira; por lá vagabundeava dias e noites como alguém que “seguia o samba”, e partia para amplas conquistas. Sambava bem. Era considerado o melhor passista branco da escola. Ia aos ensaios. Recebia a fantasia como todo passista. Não tinha essa de pagar para desfilar. Mas na fotografia o que vemos é um Oiticica numa dança arrancada a fórceps – mais SALTO do que GINGA, de um passista que se esforça mais do que os outros para se desenvolver. Encontrar a brecha. Se fazer entrar/sair/passar como quem salta do ônibus não para evadir-se, mas para subir a favela) – Dédalo a voar sem rede de proteção – para ter a sensação de estar pisando outra vez a terra.

Foi durante a iniciação ao samba, que o artista passou da experiência visual, em sua pureza, para a experiência de tato, do movimento, da fruição sensual dos materiais, em que o corpo inteiro, antes resumido na aristocracia distante do visual, entra como fonte total da sensorialidade. (Mário Pedrosa)

No ambiente da contracultura aqui e alhures Elvis, Beatles, Stones saiam de dentro do rádio e faziam crer a todos que só o Rock existia. Foi no Morro que Oiticica percebeu que a dança é a dança que se dança e que o Rock também podia ser samba – e isso compreendia tudo mais: rodas de capoeira, competições de batuque, congadas, eleições de reis Congo e juízes de Angola, folguedo dos quilombos, maracatus, frevo, bumba-meu-boi, termos e ranchos, louvores a São Benedito. Mas que fique claro, Oiticica não estava interessado em exotismo ou folclore de espécie alguma, então desses que te sapecam uma etiqueta para a vida inteira (“construtivismo”, “concretismo”, “neoconcretismo”, “hippe”, “pop”, “não-objeto”, “tropicalismo”, “suprematismo”, “neoplasticismo” etc.), ele pulava fora do barco. Oiticica visava descondicionar os ritmos. Tudo para ele é ritmo, participAÇÃO. “A música é a maneira de você ver o mundo, de você abordá-lo.” E foi no espaço dionisíaco da Mangueira que ele ouviu-celebrou a música que o modificou irremediavelmente – e mais, descobre que o que faz é MÚSICA – “que MÚSICA não é ‘uma das artes’ mas a síntese da consequência da descoberta do corpo”. Na Mangueira Oiticica inventou ritmos que passou a Vestir. (Uma descrição apequenada dessa experiência de vestir os ritmos das capas-parangolés pode ser percebida na eletrizante aparição de Oiticica no “Programa Buzina do Chacrinha”, onde graças a contingência do apresentador de contar patranhas, Oiticica foi saudado como o “maior costureiro do Brasil”). Que são as etiquetas frente à beleza das aventuras?

Hoje, recuso-me a qualquer prejuízo de ordem condicionante: faço o que quero e minha tolerância vai a todos os limites, a não ser o da ameaça física direta: manter-se integral é difícil, ainda mais sendo-se marginal: hoje sou marginal ao marginal, não marginal aspirando à pequena burguesia ou ao conformismo, o que acontece com a maioria, mas marginal mesmo: à margem de tudo, o que me dá surpreendente liberdade de ação – e para isso preciso ser apenas eu mesmo segundo meu princípio de prazer: mesmo para ganhar a vida faço o que me agrada no momento. (H.O.)

Assim como subiu o morro, Oiticica fez o morro descer. Quase que uma façanha esportiva, uma vez que se dedicou cotidianamente a subir-descer para ver como o morro funcionava em sua cúpula de selvagerias. Não era mais o Hélio-língua-de-fora da fotografia com a passista anônima. Era agora o jogador habituado a correr os riscos totais de uma inteira perda de si. A força de sua arte devia-se em parte à maneira corajosa como teimava em seguir o fio de sua estética até a Toca do Minotauro. Cutucava a ordem estabelecida com a vara curta da desmesura dionisíaca. Por isso fico pensando, permitam-me essa divagação um tanto quanto passional: não combina nada aquele Hélio epicurista dobrado sobre a angústia, encontrado morto e diagnosticado como causa um acidente vascular cerebral. O cérebro mais vasto que o céu/o cérebro mais profundo que o mar/o cérebro estrutura mais complexa da terra. A morte quase de um epicurista que assumiu a culpa não bate com o artista provocativo, afirmativo, que resolvia todos os impasses criativos e as adversidades existenciais com AÇÃO – “in(corpo)ração”. E Hélio está longe de ser um caso isolado naqueles dias de pedradas criativas nas vitrines das estruturas de domínio e consumo cultural alienado. A morte do poeta e letrista Torquato Neto estabelece um paralelo com a mesma coragem psíquica, petulância, insubordinação, imprudência. Torquato Neto morreu convenientemente no auge criativo dos seus 28 anos. Ele e Hélio chegaram a se mandar em 1966, numa providencial viagem de navio para Nova York. A sorte talvez estivesse a favor. Mas que nada! os cálculos estavam errados, e eles perderam. Thor estava irritado: boom boom boom! Thor estava com raiva: “Nós nos importamos! Esses rapazes quebraram as vidraças, as normas, as regras, as caras! Nós nos importamos, sempre haveremos de nos importar: boom boom boom!”. O artista ou desce ou é lançado ao inferno. Mesmo um escritor como Jorge Luis Borges esteve atento à rua, a suas movimentações e errâncias. Ele desceu ao submundo de Palermo, foi amigo de Paredes, um bandido atirador de facas, a quem escreveu um tributo "Hombre de la Esquina Rosada". Boa parte de nossos artistas hoje são a contrafacção disso – querem os prêmios, a ribalta, o sucesso. A vanguarda tem o seu preço. O marginal não!
Oiticica desceu o morro rolando moças e moços negros-nordestinados da Mangueira portando bandeiras e estandartes, um verdadeiro rolo compressor abrindo alas que irão remontar, progressivamente, o sertão com refrões do samba dos canaviais do Nordeste e dos cafezais do Rio de Janeiro. Contra o martelo de Thor os ziriguiduns da África dos descendentes dos negros e mulatos que combateram pela independência da Bahia, 1822-23, especialmente os que formaram o “Batalhão dos Libertos”. Molhado dos limos primitivos da anarquia, Oiticica jamais foi cristão, pertencia à raça que cantava no suplício, molhado dos limos primitivos, e que bebeu do licor não selado, da fábrica de Satã, não incorreria no equívoco de convocar às ruas uma África que não fosse negra – como um Castro Alves suplicando a seu Deus por uma África de Igreja, de canto gregoriano, de Anjos juvenis em suas nuvenzinhas de ingenuidade, de Pirâmides do Egito. Que teria a ver tal apelo místico com os Navios Negreiros, com as Vozes de uma África Negra – que já não se é ou talvez nunca se quis que fosse... Artista da AÇÃO e do COMBATE, de uma atualidade sem precedentes, Oiticica desce com os passistas e ritmistas do bloco “Vê se entende” (alguém aí não entendeu?). São como uma turba de vândalos, juntos invadem o lugar, para bagunçar o coreto, armar o maior barraco, desafinar o coro dos contentes, como lindamente se referiu a isso Waly Salomão: “Hélio Oiticica, sôfrego e ágil, com sua legião de hunos. Ele estava programado mas não daquela forma bárbara que chegou, trazendo não apenas seus parangolés, mas conduzindo um cortejo que mais parecia uma congada feérica com suas tendas, estandartes e capas – Que falta de boas-maneiras! Os passistas da escola de Samba Mangueira, Mosquito (mascote do parangolé), Miro, Tineca, Rose, o pessoal da ala “Vê se Entende”, todos gozando para valer o apronto que promoviam, gente inesperada e sem convite, sem terno e sem gravata, sem lenço nem documentos, olhos esbugalhados e prazerosos, entrando pelo MAM adentro.” Levante efusivo, Odisséia sem erro, Migração, Cruzamento a um espaço enrijecido de uma cultura que não Joga, não Brinca, não Envolve, e que ainda assim se presume o ambiente dos esclarecidos. Museu-Mundo em conexões máximas, fora isso não serve para mais nada, senão para difundir maneirismos e fazer ainda mais bloqueios de toda má sorte. Morro-Museu contíguos, segmentares à Rua. Tudo que os caretas temiam. Espaços eminentemente abertos às Cenas do Desbunde. Foi assim com o Museu, Teatro, Cinema, Literatura, Música, Dança. A Estética da Polidez descombinada com as coordenadas da Moda, do Glamour, da Afetação sumária a que se foi desmanchando sem docilidades. Expulsos do MAM, a turba encena nos jardins do museu um baile que escapava às regras e tomava de assalto as engrenagens. Num dos maiores elogios que já se fez a um artista Ezra Pound, ao se referir a Henry James, considera que “os artistas são as antenas da raça”. Palavras que alcançam e envolvem com exatidão, num prolongamento das Ações Criativas dos Artistas em que tempo e lugar, não apenas a figura emblemática de Hélio Oiticica, bem como seu Projeto de Arte Ambiental e Coletiva. Oiticica é um artista Vidente. Ele prevê que há grandes fendas no Muro do Castelo. O artista é um agente de destruição e não apenas de mediação e (pior dos males) de diversão das massas. Oiticica enfrenta acontecimentos históricos especificamente relacionados a uma história contemporânea da cidade e dos grupos que tentam se firmar, mandar, controlar aí – a isso os dardos precisos arremeçados a favor de um conceito de autogoverno de igualdade no morro, onde fique garantido o acesso a todos sem distinção de cor, e onde se incentiva a capacidade de Ação Atração Invenção Criação Desnudamento. Sair-Subir-Gingar-Jogar-Dançar como uma das belas artes.
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Conferência apresentada no II Seminário Arte e Pensamento A Reinvenção do Nordeste, realização SESC-CE, em Juazeiro do Norte

Bibliografia

Basualdo, Carlos, Tropicália uma revolução na cultura brasileira, São Paulo: Cosac & Naify, 2007.
Freire, Marcelino, Contos Negreiros, Rio de Janeiro: Record, 2005.
Jacques, Paola Berenstein, Estética da Ginga, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
Salomão, Waly, Hélio Oiticica, qual é o Parangolé?, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.

Ney Ferraz Paiva
Salgueiro-PE novembro 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Do engenho ao êxodo – para inscrever Lins do Rego na travessia[1]
por André Queiroz
para um menino o futuro é quase sempre uma pequena distância”
José Lins do Rego
O sobrado velho sujo descarnado onde antes fora a casa-grande. Cenário do agora o sobrado sujo descarnado. Outrora a casa-grande onde era ao fim do ano a 1ª. comunhão em conjunto o que lá não se fazia. Ou era a reunião dos homens ao negócio, as conversas giravam sobre safras, preços de açúcar, compra de terras[2], e quem fosse mulher não entrava. Eram as regras. As negras até a cozinha. Eram as cismas. A das gentes lá da casa. Eram as cismas, eram os hábitos. As negras até a cozinha. Era a festa, a ‘comidoria’ à mesa redonda. Todos numa celebração. E bastava que se rodasse o tampo que da mesa se desprendia, e bastava se o girasse até o ‘onde’ que se estivesse e era a comida o que chegava – a melhor manteiga da Dinamarca, os queijos-do-reino da Holanda[3]. Comida farta de regalar os olhos, de lambuzar as fuças, de molhar os beiços. Comida farta de remexer a remela na prega das vistas. Era pelos olhos que se começava o empanturro. Era desde os olhos que a digestão ela se iniciava. As mãos asseadas ao tanto da fome e ao bocado da encomenda pelos modos de quando à mesa. A velha Janota a fazer valer os seus ensinamentos - as mãos asseadas, as pernas juntas, o estômago afastado do tampo. A posição ereta do corpo como se lá se estivesse em prontidão. Isento dos erros. Mas eis que as fuças lambuzadas punham-se em revolta àquilo tudo - os modos os moldes as cerimônias como um anteparo e nada que isto.  Desvergado o corpo às penitências era então que o corpo ele se fazia liberto, arrancado às iras dos santos frouxos de meia tigela, o corpo então ele se fazia entregue às sofreguidões de uma fome canina, o fogo perigoso, um seu assentamento por debaixo das saias, o abafamento em vício, a freqüentação aos currais[4]. Era de um quase paganismo o colocar-se de fora aos rituais sacros. Mas havia os batismos, os casamentos. As visitas do padre. A colaboração do avô às obras da igreja. Os poderes locais destilados aos compromissos e acordos. As notícias que vinham de longe, as capitais, Recife, João Pessoa – os jornais à informação do que lá se costurava. O partido, os homens da justiça, os conservadores, os outros senhores de engenho, os seus aplicativos na política. Havia isto. Porém bem mais do que isto o que havia eram os tipos da casa. Os do engenho. Os dos arredores. Os da sala, a família. Tia Naninha, a negra Marta, o avô José Lins. Tia Maria a ocupar lugares onde a casa. Era-lhe a providência a tia, espécie de lugar sagrado onde Deus depositara a sua sabedoria. Tia Maria. Era tia, era mãe postiça, era a amiga dos consolos desde o colo quente à cabeça pesada de pandemônios, o colo de tia Maria era o silêncio do sono o acalanto, ela era aquela que desde há tempos se destilava a sua despedida como numa segunda, numa terceira morte que a se experimenta. Porque primeiro fora a mãe, e depois fora a prima Lili, e agora o casamento de Maria era o novo sepulcro, um novo sítio às dores de quando a perda. Mais dia menos dia e seria isto, aquela morte se chegando na forma de um encerro ao convívio, a desaparecença. Tia Maria iria para os longes depois da festa de seu casamento. Tia Maria seria então para nunca mais. Fora da vida, fora do livro, fora da história. Tia Maria. Era ela quem tocava as coisas – fazer que as coisas funcionassem. Mas não apenas era ela. É que havia o horário rigoroso aos afazeres. E apitava, cedo, bem cedo, o engenho, e os homens vão ao trabalho. Faz-se a aguardente, moía-se o algodão, descaroçavam o algodão. E era o colégio de Itabaiana o que tão logo se faria quando fosse o caso o ‘desasnar’, o milagre da aprendizagem, o milagre das letras ajuntadas ao tanto da palavra que se lê, e era a leitura o que chegava aos olhos do menino, e então que tão logo seria o colégio de Itabaiana[5], e seria nele o internato. Nas férias, era o engenho, sempre nas férias o Engenho Itapuá, o Corredor ele como que retornava ao campo da visão – o menino no descortino da paisagem que desde o trem se lhe fazia, o regresso quando das férias, trazer aos olhos um engenho, arranjá-lo ao modo das palavras que já se tinha, colocá-lo todo no corpo do livro, amoldá-lo ao invólucro. O engenho que era imenso ele cabia no livro curto. Talvez que não em um. Talvez que ele vazasse num para fora do livro. Talvez que ele ocupasse todo um ciclo, uma meia dúzia de livros[6]. Talvez. Ou talvez que todos fossem apenas que um o livro, o mesmo livro. Ele como que desdobrado – um livro descolado, um livro desfolhado, arrancado aos editores num assalto que é desde as lombadas, e uns outros nomes postos ali uma prensa a ouro em capa dura, os nomes às laterais, outros nomes, sopro de um mesmo livro – quando será se o encerra? Ou será que se termina um livro quando se o fecha sob o signo de uma assinatura? Sob a senha de um nome como rasto ao códex - será se o encerra ali o livro no que caberia o engenho? Resta fora do livro o menino ele resta fora. Entregue talvez ao tempo que o leva ao longe ele o menino ele se desmantela, ele se desatualiza. Talvez que ressurja lá à frente modificado de todo, alterado desde as suas bases, ceifado à personagem que lhe coubera um dia ao livro e então outro é que ele se faria, o menino Carlinho, o moleque Ricardo, este agora no Recife a preencher de afazeres o tanto de sua saudade, o abandono do engenho, o deixar atrás o engenho que lhe era o continente a mãe Avelina, o irmão Rafael, o menor dentre eles os irmãos, o irmão Rafael que parece ele percebera que Ricardo se ia naquele dia, naquela tarde, o irmão Rafael a chamar-lhe ‘Cardo, Cardo’[7], mas nada que será o seu chamado senão a dor de lembrá-lo, Recife será a perdição e o experimento, o negrume das gentes à busca do virar ao alto as coisas que se lhes apequenam, Recife será o ordenar-se para o quando da greve que tudo pára – alistar-se ao coro dos muitos, tomar o centro da praça pública, testar a avalancha das repartições oficiais, forjar desde ali a greve que tudo pára, a greve que pára o trabalho extenuante no que se está emperrado o homem que se é, e Recife será o gozo desde as carnes trêmulas das mulheres que se vem e que se vão, e Recife será o ‘onde’ no que o moleque Ricardo ele sem que se lhe faça motivo a tal - ele será encaminhado à Fernando de Noronha, a prisão estadual, pois que será necessário também a aprendizagem a ferro e fogo das injustiças tamanhas na que se fundam o governo dos homens, o Estado a fazer cumprir os seus desmandos na manutenção da ordem que a tão poucos contempla, o moleque Ricardo, o menino Carlinho, Ricardo que não volta ele nunca é que voltará ao engenho, Carlinho que é sempre a volta, mas para onde esta volta, será que ao engenho de ainda ele ainda lá a comportá-lo? Talvez que ressurja lá à frente o menino um menino ainda ao engenho, porém questão seria a de saber onde é este lugar a que se o apelida tão somente de o ‘lá a frente’ – espécie de porto seguro à memória, o tudo dizer sob efeito à regressão, o pôr-se às marchas de um para atrás, os olhos que é desde a nuca os olhos ao escrutínio, quando é isto? Será o ‘lá à frente’ um algo compatível ao que seria o engenho? Seria o dia seguinte ao que o engenho não mais, os anos de depois, eles todos somados em conta de cinco a cinco, eles multiplicados até que fosse a maturidade a do homem ‘o aquele’ que se dá ao trabalho do contar? Será se o perdera de vista – o engenho que se tinha à palma da mão, de sob a planta dos pés, ao tanto dos galopes dos cavalos de porte, aos fantasmas soltos ao tempo sem tampo da imaginação – será se ainda o tem ao engenho? Será se restaura o engenho, será se o busca desde a desatenção ao agora a fazer cumprir uma fórmula de Proust – a de que se deva evitar sobremaneira os mergulhos afoitos e repetidos de uma bolachinha madelena em um bule inteiro de chá da Índia? Onde então o engenho? O quê, um engenho? Será já um conceito o dizer das coisas soltas que elas se ajuntem ao formato que seria o do engenho? Lugar onde o deslumbramento eram as roupas menstruadas das meninas tomadas de arrasto ao varal. Lambuzar o rosto imberbe ao mênstruo seco grudado ao pano. Decorar a ele a forma aos corrimentos, as mulheres a se vazar em pingo, o sangue ali retesado, preso, desfalecido. O deslumbramento começava. Era lá o menino. O Engenho Itapuá ao campo de visão. Lugar no que o sexo parecia pregado à concupiscência das negras a emprestar-se de forma desbragada a luxúria. Luxúria a delas, luxúria a dos meninos à iniciação às parcas desde o curral a impetuosidade dos touros por cima das vacas, a vara vermelha dos bichos à procura de se contentar[8], era ali o sexo a desabrochar, era ali a tela à fabulação obstinada na que se voltava então à concupiscência das negras, e eram os filhos do povaréu o que se arranjava àquela montaria – povoação da ambiência, fabricação de mão de obra barata rasteira às carradas, bando de filiações incertas entregue ao destino da bastardia o arranho que era nada e apenas o que era o era às turras e era o impreciso das contas de quando o dia seria o fértil de entre os quadris a casa de lava a fornalha na que se arranca o barro que é a vida mas que é a vida pouca a vida que ali se fazia arrancada ao improviso onde não se fazia as contas de um não haver sequer a precisão aos abortos – não se tinha à cabeça o lápis de ponta, e aos dedos à condição da soma às precauções. A luxúria era cega aos números e às letras. Era iletrada, e insabida, nada cautelosa. A luxúria era parideira. Ela era o bastante o balouço a que fossem os filhos na desprega do ventre frouxo. Os moleques de tão logo ao estrago. Colegas de quando a infância. Infância que lhes seria pouca coisa. Um filete de tempo. Depois o que lhes seria era o trabalho. Ou ainda ali no aturdido dos primeiros anos já lhes seria isto, o depois – este espaçamento de tempo em lhes sendo desde sempre o já agora – o talho de quando é a lida o que costura o batismo ao sangue do degenerado. Tão logo é que lhes seria o trabalho a estreitar a infância para o fundo de um corpo miúdo. Alojá-la ao esquecimento. Despistar a infância no despovoar de seus ritos. Suspender as brincadeiras, o tempo das farras e dos risos escancarados por nada. Trocar a inocência da traquinagem pelo trabalho. Cedo já a começar. Na vida e no dia, era cedo que se começava. O trabalho este fazimento do demônio. Inscrição contínua do corpo no que o consome. O trabalho no eito – o trabalho escravo desde o cedo o mais cedo quando seria uma impostura dizer que o que havia ali era gente este pequenino pedaço de não ser, aqueles meninos nus, de barriga tinindo como bodoque, e o mais pequeno na lama, brincando com o borro sujo como se fosse com areia da praia.[9] Era isto. Aquele tempo. Agora, a casa arruinada. Como fora um dia a de seu Lula de Holanda. Os cavalos magros. O leite ressequido às tetas surradas e dependuradas, os bens penhorados. A casa arruinada. O sobrado velho sujo descarnado onde antes fora a casa-grande. O reboco caído, a tintura gasta. Goteira sequer porque água é que não. Já ninguém a ocupar-lhes os aposentos. Já ninguém de sob a mira de olhar cumprido de algum santo pregado à parede. A parede é em tijolos à mostra a parede exposta, os morcegos no teto, o mundo destruído. O capinzal é desde o interior da casa, e a moenda onde? Onde o bagaço da cana esparramado em forma de montes desde os quais deslizassem os meninos como que por um escorrega? Ninguém também por lá como era a canalha ao trabalho forçado sob os comandos do feitor José Felismino dia após dia – cacete na mão, reparando o serviço deles[10], o avô logo ali a testar a extensão de sua ordem. Porque ontem era assim – o engenho como se fora ele mesmo o avô. Lá ia o gado para o pastoreador, e era dele; lá saíam os carros de boi a gemer pela estrada ao peso das sacas de lã ou dos sacos de açúcar, e tudo era dele; lá estavam as negras da cozinha, os moleques da estrebaria, os trabalhadores do eito, e tudo era dele. O sol nascia, as águas do céu se derramavam na terra, o rio corria, e tudo era dele[11]. Hoje não mais. Não mais. Não mais. Ontem, agora. Está-se aí, entre tempos e modos distintos. Será à comoção os modos do estar-se aí? Será à melancolia como num repuxo da alma a matéria mesma a que não fora o tudo então que se planta? Tanto o que dizer. Tanto o que se disse. Mas será se o disse sobre o tudo o que se viveu, e o tanto que se se deu ao viver daquilo? Ou será que nada, nada – e ao nada o que seria é a condição a que se faria ao livro um seu enredo – forjar desde o nada o que se conta, e mentir, e mentir, e de sob as hastes soltas do mentir depositar a condição na que se tece a ficção, um romance de causos de que nunca é que eles o foram de fato, será isto? Ou será que não, será que foi sempre desde um eu qualquer – este eu a contar de si e tão somente de si o seu quintal, as suas prendas, as suas dores enxutas às mezinhas e crendices, será assim? Entre o ontem, e o agora. Ali, logo atrás, a infância toda à mão. Agora, a ruína e a morte do mundo – sem que fosse de um esbarrão de cometa que a morte do mundo se fizesse inteira. Ainda assim, ali, a morte do mundo. Ontem, hoje. Está-se de entre. Entre dois. Entre tantos. Lugar-curioso-lugar no que parece que tudo é o que escapa. Como se tudo estivesse a uma sua condição fluida. Tudo ao escape. Tudo como que à corredeira, à enchente do rio Paraíba que é o quando não se firmava de pé a inteireza das coisas – barro boi morto árvores destroços redo-moinho sumiu e nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras[12]
Tudo como que ao êxodo. Está-se entre. Nunca é que se pensou que se acabasse. A casa do avô. Tudo lá parecia impregnado de eternidade[13]. E não mais. Tudo tomado de assalto – o arrasto dos bens e dos bens o que se poderia pensar ao acúmulo era o tempo, o tempo. Nada ninguém. Não mais as vozes daquele tempo. A avó. O avô. Totônio Rodrigues Tomásia Rosa onde estão todos eles? – estão dormindo. Estão todos deitados[14] Tia Maria. Zefa Cajá. Lins do Rego. A negra Luísa, o menino Carlinho, a prima Lili, o primo Gilberto, o pai, a mãe. Aquele um que vos conta. Todos dormem sonos cerrados onde nada é o aceno desde a porta, ou a beira da estrada ao apito do trem que não.  Ontem, hoje. Está-se de entre. Entre dois. Entre tantos. Tudo ao escape. Tudo como que ao êxodo, o disparate, o desajuste, o corre-e-corre, o corrimento seco magro preso naquele pedaço de pano pregado à parede de uma Itabira como se fora de um retrato. O retrato da avó. O que há é a lembrança de que se tirou este retrato. Ela a sua pose de lavrar. Ouvir-lhe ainda a voz, já é difícil – há quantos anos? Cinqüenta, talvez. Está ainda viva ali, mas já sem voz audível na memória. Estava quente naquele dia de há cinqüenta anos. As escadas da cozinha ainda lá estão. Ela só está lá na memória e no retrato que está ali na parede. Um dia estará só o retrato. Um dia alguém perguntará de quem é este retrato. E um dia não estará o retrato. Até que não se saberá que esteve[15]. Ontem, hoje. Agora é este dia. Dia em que não se sabe quando e onde o engenho. Dia dos mortos. Dia de finados. Dia no que dormem todos a modorra da tarde cinzenta. Dia que é entre o não mais e o ainda não. Tempo que é o tempo de entre. O tempo suspenso. Aí é que se está. Ao êxodo. Questão seria saber o quão largo é a dimensão do entre. O que será se pode fazer caber ao interstício quando já nada é o que persiste em ser de forma absoluta? Quando já não atestam contra ‘um aquele que fala’ qualquer fisionomia aguda de um testemunho a dardejar impropérios. Ninguém ainda a levantar-se de forma peremptória a dizer que não era deste modo que as coisas lá se faziam cumprir. Nada, ninguém.  Já não há o corpo em recuo da testemunha, o contraponto que desde ela se fizesse. Apenas o que há é a fenda, o interregno. E o quanto será que aí se pode fazer caber? Será que se pode um tudo de coisas que mesmo as coisas que lá não haviam não pareceriam agora descabidas que se estivesse lá a depositá-las? Que fosse desde lá que se estivesse a lê-las?  Ou será que menos mal do que mexer nos fatos como que a embaçá-los seria mexer na condição ordenada na que os fatos foram eles um se fazendo, e então o reembaralhá-los, e então o revertê-los até outra a regra, até outro um outro o intérprete, e então o realinhá-los desde uma escrita que os renovasse à condição de ocorrido, mas que pudesse quem sabe esta renovação vir a constranger a alguns dos fatos a que eles não buscassem outra vez e de forma insistida se fazer valer e ponto. O fato a querer se fazer valer como que à revelia e ponto. Será não é o caso evitar o despotismo de um fato assim? Buscar um seu constrangimento como se se estivesse a operar a desmesura – espécie de arritmia entre os atores e as suas ações, espécie de desprega que acabasse por remontar os cenários todos no que as personagens viessem a costurar os seus planos de ação, e fazer com que se perdesse ‘as deixas’ que de um ator a outro fosse agora tão somente o esquecimento, agora e tão somente isto o tempo, o esquecimento, o esquecimento, o chiste, o lapso, o esquecimento fosse o que se lhes viesse à memória, e então a memória fosse como um imenso rasgo, um buraco, uma cratera, e nela tudo fosse caindo, caindo a ver o que se acha e nada o que se achasse dentro da memória, e a memória fosse como que um rasgo, um borrão, e que se a rasgando fosse desde o de fora dela que as coisas se lhe fossem pregando e de tal maneira isto que o tudo o que se lhe pregasse fosse como que aos modos do que nunca antes havia sido, fosse ela a memória algo assim como o invento – somatório contínuo de não haveres, soma encantada do que nunca e tal soma fosse o desprego o descarrilo de bandos de livros em revoada eles a jurar em nome dos santos que não renderam sequer joelhos aos milhos, injúria, perjuro, credo falho, a memória o invento. Ninguém mais a fazer cumprir os rituais desde os quais era o mundo o que se fazia mantido de pé – os domínios extensos do avô. De perder de vista, léguas e léguas ao horizonte, e tudo o que era nele era a ele que atendia, toda a vastidão das terras, os matos verdes, e o caminho cheio de lama e de poças d’água, e o açude coberto de uma camada espessa de verdura, e a estrada estreita em que de vez em quando passava um boi, tudo era do avô, e a casa branca, e o alpendre cheio de gente[16], e mesmo as gentes que enchiam o alpendre, e mesmo os dias inteiros das gentes que lá havia, dias nos que coubesse o esforço da lida, a crença nos santos com seus milagres de plantão arrancados à barriga da miséria posta desde logo ao sopé da porta em pedaços, era o casebre dos que se arrastam ao trabalho escravo do eito, e a horta carregada de goiabas e jambos, o grande pomar, e as laranjeiras, e as jaqueiras, e o gado, e o leito de espuma morna, e o frio das cinco horas da manhã, e a fábrica bem perto da casa-grande, enorme edifício de telhado baixo, com quatro biqueiras e um bueiro branco, a boca cortada em diagonal, e as caçambas com mel batido, e a casa de purgar onde a safra de açúcar do ano encontrava-se nos grandes caixões de madeira e nos tanques cheios de mel-de-furo, e a pobre gente do eito, os seus meninos[17], as suas maleitas, os seus bichos de pé, os seus piolhos que ninguém consegue a cata, a barriga de inchaço e fome, os olhos murchos porque não há de ser vida o que se desprega daqueles olhos murchos - que será enxergam uns olhos assim quando se está na infância esfalfada dos que nada têm? Que será podem uns olhares assim que se entregam ao nada ter como quem se arrasta para dentro dos buracos da face as cavidades sulcadas mais a fundo uma vez a fome na que se está e desde os buracos da face uns olhares assim eles se voltam para dentro como que a fazer a caça do que lhe seria e em nada lhe sendo uns olhares assim eles acabam por pregar nos olhos a desconfiança que é desde si e em si e por si e os olhos eles baixam eles mínguam e os olhares eles tendem ao chão e não mais se será capaz de um mirar nos olhos do mundo tamanho tamanha a vergonha na que se habita um aquele que de seu pode se dizer que apenas é que ele seria o dono de uns olhos os de olhares esvaziados e então este homem estes uns homens assim eles estarão prontos a dizer ‘Senhor, senhor – eu vos obedeço’. O avô ali o senhor ao altar dos que se lhe prostram. Tudo ali era do avô. Nada era daqueles tantos. Nada é que traziam consigo, nada o que tivessem de seu. Mas dizer que nada eles têm é dizer que é nada o tudo aquilo que eles carregam - a sua miséria pesada que se renova, que se renovasse dia a dia, e se for de ser verão será uma miséria expelida no suor magro que sequer lhes escorre, o suor lhes gruda à pele curta como num borro sujo e mal cheiroso, e se for o caso estar-se ao inverno será a asma, a tosse contínua, o puxado, a falta do fôlego que faz tropeçar e fazer que tomba e que se levanta, e fazer que outra vez tomba e que outra vez se levanta, e vão-se os dias, e vão-se os anos, e eis que já se é o homem, e eis que já eram os homens que ficavam de sol a sol, no eito puxado do avô, os seus porcos, as suas panelas, as suas galinhas, o seu café com açúcar bruto, a batata-doce do velho Amâncio, a carne-de-ceará com farofa, a cama de vara, a casa que pinga chuva dentro por não sei quantas goteiras, o cheiro horrível do chiqueiro de porcos que era ali perto o chiqueiro de porcos[18]era tudo do avô, mantida a ordem dos fatos e assim seria, tudo do avô, o passado todo estendido à mesa do agora, nele o tampo giratório, o tampo a escolher sempre e sempre o mesmo lado a uma sua paragem, o tampo que desde a mesa ele se fizesse uma rodada de cartas, ele um tampo giratório uma roleta russa, um jogo a jogatina que é o cassino o que assim seria, ele o tampo a girar, a girar, a girar, três vezes isto, e ele a girar, a girar, a girar como se se estivesse a um programa de televisão de péssimo gosto a ver se pára o tampo no que se sorteia um vencedor - mas que quando pára o tampo o que se estivesse a fazer parar fosse o tempo no registro das mesmas horas, e os mesmos calos o que seria fossem as mesmas horas, e como se ao parar o tampo o tempo, ele mesmo o insistido, fosse o presente sob o arrasto amargo de um passado-presilha a sua forma/sua fôrma tal e qual o que se estivesse a ver retornar, eterno retorno desde o tampo o tempo a insistir-se o mesmo, como se fosse o tampo o tempo o aquele a que se se estivesse condenado a repetir, a repetir como farsa o que já fora num outrora, e a repetir como cisma e vício o que fora o ensejo de uma primeira investida, e então a senha da que se não desgruda o ingresso a todo o mundo o silêncio de às sete chaves às sete portas às sete moradas o orgulho interminado da casta as palavras chaves seriam estas, tudo era do avô, tudo do avô, e mesmo que se se repetisse como que a surdina aos sustos que o avô não mais, que o avô encarquilhou-se na curva que é o tempo ele mesmo uma curva a que não atende a interesses, ele mesmo o tempo a absoluta incertidão o absurdo do sem sentido, e mesmo que se repetisse que o tempo do avô era o tempo do não mais e que ficara num lá atrás o avô que já não, haveria quem dissesse a palavra mágica que é a palavra inventário, e a palavra inventário que é palavra de posse, que é palavra que garante a posse o passe a propriedade esta palavra seria repetida dez quinze cem mil vezes até que se firmasse a palavra inventário não mais como uma palavra entre outras mas como se fora ela ele o inventário uma substância algo que tivesse um substrato por detrás mesmo da condição sonora a que se restringe uma palavra, uma caixa de sons a nomear o que lhe escapa a palavra isto aí e não mais, aqui não, o inventário ele fosse a condição material das coisas, ele fosse o impermeável a todo e qualquer os humores, o intratável for o caso um refazer desde as partes as forças todas a que se presta a  composição de um tempo mas não não não o tampo a girar outra vez o mesmo, o tampo a emperrar no mesmo, as mãos que o impedem de girar fossem as mãos que supõe que ele está a girar, e que desde as mãos obstinadas no forcado do viramundo o tomá-los a fórceps às mãos talvez elas buscassem as armas de fogo, ou elas se fizesse histéricas umas mãos dadas a uma fala contínua e ramerrona a fala insistida e gritada a perguntar como que em afronta quede o inventário, quede o inventário, quede o espólio?, e se traria para junto de si os argumentos que é desde o deus dos justos o argumento a ceifar o que se lhe opõe, e o argumento seria o de que se se não é o dono do mundo se é o filho do dono, e há de se ter direitos sobre um mundo que é desde o pai e que desde o pai é o mundo o que lhe é seu meu, ou que não, porque se lhe objetaria que não era o pai porque o pai não estava na história, porque o pai na história fora o expelido do livro, porque o pai do personagem o pai do autor o pai de todos ele fora o que gerara de forma comumente o silêncio dos adultos da casa-grande, ou melhor, que o pai fora o excomungado porque matara, ou porque enlouquecera – de um livro a outro é assim esta andança de um pai que é nunca que ele, ou porque ou porque ou porque, mas haveria de se retomar a palavra, estava-se a proteger os bens perdidos, estava-se a dizer do que há de ser de césar porque césar é pai, ou melhor que não se diga que ele é pai uma vez que já se entende que o pai não, mas que se deve ser o dono uma vez que se é o filho do dono, não não não é isto, loucura da palavra, loucura do dizer, loucura que é desde os livros tomados em revoada eles tombam à cabeça em desordem eles voltam as palavras – porque a palavra é sempre uma coisa que se retoma aos sentidos do que se lhe as quer (e um escritor bem serve para isto, e o que dizer então de um advogado?), mas ao se retomar a palavra o que se diria seria outra vez à salva dos que nomeiam e os que ao nomear imprimem a história como que numa retidão às miríades de acontecimentos soltos, e então que se diria que não era o pai mas que era o avô o dono do mundo e que se é desde o avô é ainda mais do que seria um herdeiro de direito do que se fosse o pai  o aquele de quem se herda o patrimônio a casa-grande o engenho e assim sendo tudo o que há ele é nosso o espaço a este mundo ele é nosso uma vez que o avô é pai duas vezes, e que então a baioneta em punho e aos gritos deslavados outra vez aquele refrão quede o inventário quede o inventário quede o espólio?, e vai se chamar a justiça dos homens a participar na condição de terceiro neutro, e vai se convocar a justiça das armas a participar na condição de força neutra, a polícia que desaloja, a polícia que chega já a atirar na direção dos que parecem não querer ouvir que o que é do homem o bicho não come e se aqueles homens são barrigudos mesmo sem terem o que comer é porque é de bichos o de que se compõe aquela barriga e em sendo assim eles uns homens que são comidos por bichos é porque eles não são bem uns homens eles são é uns párias eles seriam párias, e então, quede o inventário? quede o inventário?, o eterno retorno dos bons e dos bens, tudo como que recolocado à justa todos em seu lugar o intérprete ele aqui o mesmo, o Lins do Rego de um seu primeiro livro, o menino Carlinho seu intérprete-narrador, Dedé o apelido agora é outro o livro onde aparece o apelido de Dedé, o olhar aos fatos ele aqui o mesmo, os fatos ao olhar sempre o mesmo o dia a noite os modos ao fazer das coisas sempre o mesmo o menino Carlinho de entre os moleques amarelos aquela gente esfarrapada e sem nome e sem inscrição, o neto do prefeito da terra, o menino da Casa Grande sob contínuo regime à exceção, ele o ‘aquele’ a quem cabia um copo separado para que ele bebesse água quando à escola e aos outros a gamela suja cuspida que era o cocho onde todos metiam o bedelho e a bocarra, ele o Carlinho a voltar nas costas de cavalo manso para a casa, finda a aula, e os outros, os pés rachados, eles juntos porque não seria de os descrever em separado, eles de pés ao chão em retorno ao casebre, à mansarda, a cama de palha, o calor imenso, o barbeiro nas frestas do sapê como que numa oferta da doença, eles a retornar à palhoça ou será que ao roçado, ajuntar o bagaço da cana, empacotar o açúcar, retirar das máquinas os restos de um seu emperro for o caso as máquinas travarem, fosse assim, assim fosse - assim mantida a ordem aos fatos, assim contida as mudanças na que se se está a mudar com o quanto que mudam as coisas, os ares que são outros, os ventos que sopram desde os longes, fosse o caso o represá-los, assim fosse,  e extirpada toda e qualquer mudança que desde os ventos, conjurado o desgoverno vá se saber se pelo poder público, as suas leis impetradas, os seus compromissos de gabinete, os seus arrendatários representantes das elites de sempre, os seus saberes firmados ao leque de um aquilo que se diz de si a cultura possível  a cultura plausível e a dizer junto o como é que lá se chega para que se firme à tradição das letras os fardões à imortalidade nossa de cada dia, para que se complete e reforce as estruturas que os rejunta, para que se esteja de sempre sob o mapa do possível e do conveniente, para que se disponha em editais o possível aos comparsas - os que jogam o jogo na sapiência das regras, os que trazem os azes à manga das camisas bem passadas, os que dispõe desde logo e tantas vezes em surdina das regras que não se dispõe, e isto tudo que se faça seja pelas forças de jagunços pagos pelo Coronel, as volantes que são toda a hora o do patriarcado rural do nordeste as velhas e as ainda oligarquias fundiárias, as volantes com cinta de couro e arma de fogo a tocar num para fora for o caso o não se os querer mais por ali naquelas quebradas àquela gente caída de sezão e assim seria, assim o fosse o desmedido desta força oficial a se fazer valer e assim seria, tudo do avô, tudo do avô,  tudo lhe diria respeito, tudo seria o que lhe devesse o respeito. Agora não mais. Aquele mundo é morto. Zefa Cajá, a negra Luísa, o primo Gilberto, o menino Carlinho, Antônio Silvino, tia Naninha, tia Maria, Ruth, Major Ursulino o barão do couro-cru, Ricardo o moleque, Firmina, a velha Janoca, Vitorino, as mulheres da boca-de-rua, todos estão deitados, todos estão dormindo profundamente. Lins do Rego é morto. Completara-se ele como autor. Mas será assim? Uma boa dúzia de livros será encerram no seu cacho um autor? E uma vez a dúzia de livros não será que se é mais do que somente um autor, será que não se é uma penca deles, uns autores a dar com os burros n’água? Será o autor fica girando, girando, girando como outrora aquele tampo, aquela roleta russa ao que dele se lhe fizer o escrutínio que é toda a crítica? Onde será se vai o autor aos atropelos se de um livro a outro parece haver vãos incontornáveis, fronteiras clandestinas, casamatas fortificadas e invisíveis? Será ele ronda descarnado à noite do engenho como o papa-vento, como a moura-torta arrancados à boca frouxa de Totônia? Será Totônia um autor uma vez que ela é quem conta os contos aumentados desde logo de um dois três pontos e a cada vez isto, e a cada vez assim ela se firmasse como um autor em disfarce, um atrás ao outro, o ghost writter, o impostor, um feitor de plágios, o copidesque? Lins do Rego é morto. Diz-se dele isto – que ele morrera. A data é de empréstimo aos outros, o ano de 1957. Consta que está ao mausoléu dos imortais. Curioso o paradoxo. Talvez que seja a senha de que ele não esteja morrido. Talvez que esteja recolhido. Reservado com relação aos curiosos. Lins do Rego, Raduan Nassar. Lins do Rego parece ele tinha medo da morte. E então quem sabe ele se recolheu até que ela. Talvez lhe prepare uma forma à recepção. Um jogo de xadrez. Ou talvez que não. Talvez que tenha morrido e junto consigo a obra perfeita que é a obra concluída. Mas quando e como? De que será feita a obra perfeita? Quando é que em nós se nos firma uma obra de tal porte? No filme de Vladimir Carvalho, o poeta Thiago de Mello ousa dizer a condição da obra perfeita. O primor. Talvez que nada isto. Ou nada que isto. Ele o morto. Carlinho, Dedé. Será foi ele ter com tia Maria Menina, será foi ele ao encontro da mãe que à morte ela aos estertores ela o vira entrar ao seu aposento ela a desferir sobre ele a mágoa daquele grito àquela hora a última ela a dizer ‘sai daí menino!’[19], ou será não fora aquela a última palavra que desde ela ele ouviu, ela aos horrores face ao nada a se lhe abrir inteiro e ela os olhos estourados e ela o filete mínimo de voz o fiapo e ela a força nenhuma a força pouca o corpo mofino as peles penduradas no braço magérrimo e ela e ela e ele a estreitar os passos até que ela e ele a chegar o mais perto possível o ouvido e ele um todo-ouvidos e ele olhos nariz bocas tudo fechado e ele todo-ouvidos e ela o que será lhe disse, qual terá sido a palavra derradeira, a última palavra a encerrar um diálogo que nunca que nunca e que nunca é que se encerra e que dá voltas imensas nos ponteiros desatados dos relógios às paredes de todas as casas nas que se esteve e dá-se o estrondo dos folguedos de todo o fim de ano em todos os anos e dá-se as gorduras os calos as ulcerações a tísica o puxado a asma o fôlego o fluxo o corrimento seco magro morto naquele pano e ele e todos os livros e ele e os engenhos de férias uma duas três vezes a arrancar a si o cenário do que é ao mundo um horizonte farto fértil herege e ele e ela e ela sob o balanço o balouço de quando a queda os líquidos todos o sangue a correr o entupimento a cabeça do rebento que é dele ela tomba dela ela a cabeça faz que sai de entre as pernas o fogo a casa de lava as altas temperaturas o forno que desde o ventre e vai nascer e vai que nasce e o moleque Ricardo a dizer tu já sabe que mulher pare mesmo pela periquita? Que tudo é igual às vaca do curral![20] e ele que nasce e ele que escuta ao moleque Ricardo e ele que se chega até que ela ela morre e ele está ele esteve à caça da última palavra que ela e ele é-lhe todo-ouvidos e qual a última palavra? Nunca e nada que a última palavra ela não chega, ela não se acerca, e é e será então como se  bastasse que se pusesse a girar o tampo da mesa uma outra vez, e eis que então e então que ele estivesse vez mais de fora da história, de fora do livro, de fora da vida! Não mais corre ele o risco grave de esquecer o seu lugar – será que desde o dentro da história escorrida em memória, será que desde o de fora do livro a manuseá-lo como se fosse de um instrumento de corte o aquilo que se traz às mãos?! Não mais os riscos. Lins do Rego é morto. Dele diz-se isto. Chegou-se mesmo a costura de uma data, 12 de setembro de 1957. Nele parece se completara a soma do que lhe seria. Nele parece não cabe mais o regresso ao lugar que é de nunca. Mas será ele o requer a si um regresso, um lugar? Será que Lins do Rego estaria ali quando do espólio a requisitar um mundo que não mais? A aposta aqui é que não. Que Lins do Rego estaria ele mesmo à travessia, ele sempre é que parece ter nela estado. Lançado ao que seria tendo os olhos todos voltados a um a frente, mas então o quê a memória? Nada a memória que não a de buracos, vazões, crateras na que se dá o invento. Lins do Rego estaria ele sempre esteve como que ao êxodo. Colocado entre o não mais e o ainda não. Aquela casa arruinada. Aquele engenho de não mais. Ontem, um dia, a infância toda, infância de pedra e de paz, e eram e foram aqueles homens ao eito, eles todos como que entregues à fúria da palavra do avô que o avô não era dado às palavras que não fossem em fúria. Será fato isto? Será era assim? Como se houvesse um tronco que se lhe despregasse em fiança ao que ele dizia. Como se em havendo um tronco ainda que sob desuso ele o tronco estivesse ali à garantia dos fatos e da obediência alheia até que os fatos se dessem em sua inteireza e disciplina. Será era assim? A existência infame de um corpo talhado à dor, a pele curtida aos lanhos do chicote, o trabalho não pago uma vez que a paga é aquilo que se fazia quando do arremate do homem, os dentes à mostra, o seu arremate ao mercado. Mas já não era de escravos o de que se tratava. Talvez que fosse de trabalhadores livres os livres trabalhadores que tem apenas de seu a força do que se lhes toma. Talvez que fosse. Ou talvez que seria desde os escravos a imagem e semelhança o que ali se fazia, o que ali se forjava – as mulheres que sequer abandonavam a senzala a ver se ganhavam a rua, mas ganhar a rua era entregar-se à condição do nada ter, do nada levar consigo, do nada saber uma vez que o que se sabe seria sempre o ‘aquilo’ que se dá a um acúmulo, um saber acumulado ao ventre do que se pode, a escola que é na cidade, as letras que é nas escolas que se se lhes apresenta, os livros que lhe emprestassem à imaginação quem sabe se um bom par de asas, nada, era nada o que elas carregavam consigo fosse o caso a rua e então porque não permanecer por lá? Sob a tutela do velho. Sob a baqueta do senhor de engenho. De sob as asas do avô. Porque não fazer durar um pouco mais o tempo que é a duração como o estar à lida, a duração à senzala, o esforço em prol do que não se lhes revertia nunca e nunca em benefício, e era e foi o menino do engenho o aquele Carlinho o aquele Dedé que assim dirá, aqui é ele quem diz o costume de ver todo dia esta gente na sua degradação me habituava com sua desgraça. Nunca, menino, tive pena deles. Achava muito natural que vivessem dormindo em chiqueiros, comendo um nada, trabalhando como burros de carga. A minha compreensão da vida fazia-me ver nisto uma obra de Deus. Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus quisera éramos brancos e mandávamos neles. Mandávamos também nos bois, nos burros, nos matos.[21] Era um retrato. Um retrato possível mas não todo o retrato. Agora não mais. Ao menos ali, agora não mais. Tudo é morto. O roteiro é morto. Permanece encerrado na forma pouco fluida do livro. O suporte rijo. A capa dura. Permanece ali. Lins do Rego é morto. Dele diz-se isto – àquela data o encerra naquela data. Ela o paralisa. Permanece ele à condição do ser lido por olhos que quem sabe lhe desestabilize. O olhar que lhe resta agora é o de empréstimo. Olhar alheio. Alguma distância. Mas quando será se está junto? Onde a comunidade entre autor e leitor? Será houve esta terra palmilhada metro a metro, página a página, letra a letra? O quanto será que custa a que se firme a palavra – o juntado das letras, o desarnar do entendimento. Em Dedé, parece, custou-lhe os carões de anos e anos. Custou-lhe o tempo o ver doutro modo o mundo. Um ver desde a medição da escrita, um mundo a ser lido. Um corpo de palavras. Um corpo de papéis. Custou-lhe tempo e surra. Todo modo, juntar palavras não será juntar leitor de palavras às palavras de quem as escreve, ou será? Será juntar personagens e aqueles que os fez ser? Onde e como uma boa leitura, um estatuto razoável a este exercício, o exame? Está-se a ver – e imenso é o risco a que não se chegue a um lugar seguro. Seguro como parecia o engenho que era o do avô. Mas será o era? Bastava que fosse o desastre, e o desastre ele sempre já o é. Está-se entre. Sob o regime do passar das coisas e das gentes. O tempo, o tampo – o viramundo.


[1] Conferência apresentada durante o Seminário Arte & Pensamento: a reinvenção do nordeste, na região do Cariri cearense, em Novembro de 2010, em evento organizado pelo Sesc-CE.
[2] Lins do Rego, J.1956, Meus Verdes Anos, p.159.
[3] Idem, 1956, p.94.
[4] Cf. idem, 1956, p.147.
[5] Cf. Idem, 1956, p.146.
[6] Peregrino Júnior afirmou serem seis os livros da obra ficcional de Lins do Rego a fazerem parte do chamado Ciclo da cana-de-açúcar, são eles: Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, O Moleque Ricardo, Usina e Fogo Morto.
[7] Lins do Rego, J., 1935, p.06.
[8] Idem, 1956,  p.44.
[9] Lins do Rego, J. 1932, Menino de Engenho, p.66.
[10]  (1932), p.113.
[11] (1956), p.55.
[12] Bandeira, M. trecho do poema Evocação do Recife. In: Estrela da Vida Inteira, p.106.
[13] Idem, p.107.
[14] Bandeira, M. Trecho do poema Profundamente. Op.cit, p. 112.
[15] Ferreira, V. Conta-corrente 3.
[16]  (1932) p.38.
[17] (1932), p.42.
[18] (1932), p.59.
[19] (1956), p. 108.
[20] (1956), p.113.
[21] Idem, p.116. 
      Imagens: Ney Ferraz Paiva