sábado, 27 de agosto de 2016

NA LINHA LOGO ABAIXO DA LOUCURA


Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da cintura
Nos rins fígado baço como um
Cavalo exausto a que Nietzsche
Não pudesse interceder a favor
Um cavalo que não dá mais pro
Trabalho integralmente dedicado
A fazer delicados versos de amor
Discretamente evitado deixado de
Lado que não vai mais ao páreo
Agredido numa das ruas de Belém
Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da cintura
Nos rins fígado baço como um
Nietzsche exausto a que um cavalo
Não pudesse interceder a favor

E chega aonde nada mais reluz
Descompensado sem crina admirável
Apavorado de ir às pistas pra ganhar
Só vai leguar sertão afora mais nada
Agredido numa das ruas de Turim
Eu devo ter levado muitos socos
Na linha logo abaixo da loucura



Ney Ferraz Paiva
Imagem: Béla Tarr, O cavalo de Turim, trailer




video




sábado, 13 de agosto de 2016

ABAIXO A DITADURA FORA TEMER

Brasil, 1968





















Brasil, 2016






















O Brasil recluso no labirinto da crise da ganância global e do
entreguismo da direita local – trapaceira corrupta e golpista.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL


gatos roeram a cara de Picasso numa revista
gatos deram a Picasso uma sepultura rasa de
arranhaduras cortes pontapés na cara o que era
pra ser só brincadeira acabou em morte quando
o corpo não é realmente nada belo faz-se outro
corpo Picasso não estava nem aí pra beleza mas
gatos não passam sem ela se param se despistam
não vão a outro lugar onde ela não esteja Picasso
se deixava derreter na praia sob o sol gatos odeiam










Ney Ferraz Paiva, Arrastar um landau debaixo d'água, 2015

sábado, 6 de agosto de 2016

BLANCHOT A KOZOVOI

De todo coração a ti
Maurice Blanchot



Ele, Blanchot, recebeu
O livro de Paul Valéry
Traduzido por Kozovoi
– “Quero agradecer” –
Uma carta, um livro
Uma iniciação louca
No ventre da velhice
Começa-se a amizade
Um nunca viu o outro
Mas foram enlaçados
Com devoção irrestrita
De muito longe ressoa
O silêncio que não isola
Abre o coração imensurável
Cartas curam catástrofes:
“Precisas de dinheiro?”
“Tens notícia de teu pai?”
“Ira recebeu minha carta?”
“A mãe dela está doente,
É grave? O que vais fazer?”
Andas o incessante caminho
Anda-se também em círculos
Sobre as próprias pegadas
O desgaste do solo é grave
A solidão está logo abaixo
O esquecimento o atraso
Uma ferida que não seca
Considerai essa viagem

A contrapelo à flor da pele
A amizade vela o desastre


Vadim Kosovoi e Maurice Blanchot






















Ney Ferraz Paiva

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

os vocábulos
                    fúnebres
quando se juntam
                          ocultos dentro de nós
só os olhos
                 podem tocar
isto poderia ter sido dito por rosário fusco
mas foi por mim
                         ou terá sido por ti?
                         nem estou mais certo
                         [teus olhos ainda escutam?]




ney ferraz paiva, nave do nada, 2004