quarta-feira, 31 de março de 2010

Jogos de Salão






Passei pelo 6º Salão do Livro feito copydesk de jornal vencido. Aos trancos e barrancos, falhas muitas (de minhas visitas); falhas muitas (de minhas vistas). Assumi, ostensivamente, ouvidos de mercador no mercado dos livros. Senti-me desajudado, enjoado pelo cheiro da autoajuda que emanava dos discursos, das palestras, das reclamações. Nos shows minhas visitas falharam, mesmo. Já não tenho paciência para enfrentar as enormes filas até o momento de se descobrir que não há mais lugar no recinto, nem para sua pessoa, nem para seu próximo, nem para seu póstero na fila. Minha paciência, deixei-a aguardando meu retorno em uma fila em Sampa. Deve ainda estar lá, no aguardo, já que não voltei.

Por conta das falhas nas visitas ao Salão, deixei de ver amigos, deixei de ouvir poemas, deixei de ouvir as penas. Perdoem-me os amigos, mas a dengue tomou-me pela mão e perdi muito do Salão, de sexta a domingo.

Contudo, vivi boas emoções. Primeiro, com Odir homenageado, e depois, com um fenômeno lindo de poesia que agitou, feito furacão, a calmaria dos meus olhos, do Salão, do meu coração. Uma poeta singular, ainda que de nome composto (Elisa Lucinda), tomou, ou melhor, arrebatou o palco do Café Literário e fez jus a todas as mentes que veem poesia como delírio. Embarcamos todos, os da platéia, no seu vendaval vermelho e negro, abobados, abestados, abilolados no frenesi poético.

Um tanto de Iansã, outra dose (forte!) de Pomba Gira, nas rosas vermelhas dos sapatos, nas franjas da saia a ferrugem com que toureava o distinto público. Aliás, distintíssimo, entre estudantes, professoras, comerciantes, literatos, artistas, secretários, governador e outros tantos que foram se achegando e entregando os pontos, amansados pela indomável palavra, pelo verbo lúcido e forte de Lucinda.

Lucinda nem veio declamar (ela detesta tal palavra!)... Veio para mostrar e nos dar a delícia de seu livro “A Poesia do Encontro” onde despetala em letras prosas a poesia do encontro com Rubem Alves onde, aliás, não faltam poemas e poesia... Mas como hei de passar para essa folha branca a alucinação vermelha da poética aparição? Dá, não. Quem não viveu aquela emoção, morrerá (como de resto, todos os outros, é claro). Mas morrerá faltoso consigo mesmo, em pecado pelo prazer que não se deu.

É isso o que precisamos no Salão do Livro: a sublimidade, o enlevo, o arrebatamento e mesmo a loucura da poesia! O estardalhaço do texto cuspido nas caras de pau de todos os matizes e envergaduras; o artigo esparso da denúncia; a crônica que estranha e estraçalha a politicalha; o ensaio que ensaia o breque na falcatrua malajambrada de compras e vendas a preço vil (nós sabemos, viu?) dos suados escritos nas bandas de cá.

Não nos venham com as soluções didáticas que nada plenificam mas, muito ao contrário, nos cavam vazios enormes, inconcebíveis, impreenchíveis. Risquem de vez das planilhas, peloamordedeus, a autoajuda como tema; tragam-nos literatura! É certo que literatura, de verdade, incomoda, inventa de meter-se por onde não deve, é ferina, mexe, remexe, requebra libidinosa, toca nas partes íntimas, toca naquelas ainda mais íntimas, agita consciências, revolve punhais de frases nas feridas, mas, por Baco! (in vino veritas) é vida!

Por fim perdoe, Drummond, tanto sem sabor na festa dos teus versos.


Osmar Casagrande

sábado, 20 de março de 2010



Como é que é meu caro ezra pound?


vou acender um cigarro daqueles para ver
se consigo lhe dizer isto. andei fazendo um pouco
de tudo aquilo que voce aconselhou para desenvolver
a capacidade de bem escrever. estudei Homero; li
o livro de Fenollosa sobre o ideograma chines,
tornei-me capaz de dedilhar um alaúde; todos
os meus amigos agora são pessoas que tem o
hábito de fazer boa música; pratiquei diversos
exercícios de melopéia, fanopéia e logopéia,
analisei criações de vários dos integrantes do paideuma.
continuo, no entanto, a sentir e mesma dificuldade
do início. uma grande confusão na cabeça
tão infinitamente grande confusão um vasto
emaranhado de pensamentos misturados
com as possíveis variantes que se completam
antiteticamente.


Rogério Duarte

terça-feira, 16 de março de 2010

NO ENTERRO DE CLARICE LISPECTOR, 200 PESSOAS



Túmulo de Clarice, Cemitério Israelita do Caju, Rio de Janeiro


Duzentas pessoas compareceram ao enterro da escritora Clarice Lispector no Cemitério Comunal Israelita, no Caju (RIO). Seu corpo, velado desde sexta-feira no oratório do cemitério, foi colocado no túmulo 123, da fila G. depois de ter sido purificado por quatro mulheres da Irmandade Sagrada "Hevra Kadisha", de acordo com o ritual judaico. O caixão fechado e coberto apenas por um manto negro com uma estrela de David, bordada, foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca, além do embaixador Vasco Leitão da Cunha.

Clarice, um enterro simples

Numa cerimonia simples, sem discursos, na qual a família chegou até a dispensar a presença do grão-rabino Henrique Lemle, substituido pelo cantor-mór Joseph Aronsohn, a escritora e jornalista Clarice Lispector - ela completaria anteontem 53 anos de idade - foi sepultada ontem no Cemitério Comunal Israelita, no Caju. Cerca de 200 pessoas, entre parentes e amigos, acompanharam o corpo - velado desde sexta-feira no oratório do Cemitério - até o túmulo 123, da fila G, onde ao lado, repousa o corpo do deputado Francisco Silbert Sobrinho.

Antes de ser enterrado o corpo da escritora, de acordo com o ritual judaico, foi purificado, sendo lavado, interna e externamente, por quatro mulheres da Irmandade sagrada "Havra Kadisha". No oratório, o caixão, fechado, coberto apenas por um manto negro com uma Estrela de David bordada em prateado foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca e pelo embaixador Vasco Leitão da Cunha. Nélida Piñon e José Rubem Fonseca acompanharam Clarice nos seu últimos momentos no Hospital da Lagoa, onde a escritora morreu vitimada por um câncer.

Ainda no oratório, precisamente às 11 horas, o substituto do rabino deu início à liturgia lendo, em aramaico, o Salmo 91, do Artigo Testamento, seguido de cânticos em hebraico e de uma leitura, agora em português, de alguns Salmos. Ali, antes do caixão ser conduzido à sepultura, Joseph Aronsohn ainda fez a despedida do corpo, rezando o "El Molê Rachamim". De lá o caixão seguiu até o túmulo 123, onde o filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente (o filho Pedro não compareceu por se encontrar com o pai, o embaixador Mauri Gurgel Valente, em Montevidéu) chorou, sendo constantemente amparado pelas tias Elvira e Tânia, também escritoras.

A beira do túmulo, Joseph Aronsohn, tendo ao lado Pedro Gurgel Valente, rezou o "Kadish" - oração fúnebre -, enquanto a última homenagem a Clarice Lispector era prestada com o lançamento de três pás de terra sobre o caixão, indicando que "da terra viestes, à terra voltarás". A cerimônia foi encerrada com o substituto do rabino pedindo aos presentes que se voltassem para a direita, em direção ao Oriente, indicando o sentido de Jerusalém.

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Publicado na Folha de S.Paulo, segunda-feira, 12 de dezembro de 1977

sábado, 13 de março de 2010

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA3
















livro inconfesso fechado em segredos
não abre [dedo-duro] a boca
não rima – que terá a ver ainda
poesia com rima?
não terá a ver com fome?



A literatura desestabiliza, abala, esgarça mais ainda as feridas.
Saquei na pré-conferencia de "literatura livro leitura" realizada em Brasília esta semana por que a grande literatura não entra nas escolas e incontáveis gerações vêm se formando sem conhecê-la.
É que caímos no abismo das simplificações!
Vou insistir: Caímos didaticamente no abismo das simplificações!
E mais: Caímos estatisticamente no abismo das simplificações!
Descemos aos infernos da idiotização e do atraso.
Isso tudo agradeçamos à Escola!
Vejam: outro dia minha filha chegou em casa com o “livro” de resumo de Dom Quixote. Em casa há pelo menos três traduções de Dom Quixote que ela conhece. E a escola dá a ela um resumo. É assustador!
Não é difícil constatar que num ambiente favorável à desolação as ervas daninhas proliferem.
Professores não são mais leitores. E, no entanto, avaliam e indicam que livro a escola deve comprar.
Na avaliação que fizemos do Plano Nacional do Livro e Leitura durante a pré-conferência "literatura livro leitura", no texto em que existia a palavra “não-didático” trocamos por "literatura". Uma tentativa premente de se recuperar o sentido da leitura que devemos todos aplicar nos ambientes de cultura, o da literatura estritamente literária. É ela que empurra a sociedade pra frente.
Na pré-conferência, no meu grupo de trabalho, além de mim tinha apenas outra escritora. A pressão das editoras de livros escolares e das sacerdotisas da Verdade - as bibliotecárias, sempre no ataque com seus programas de leitura e seus didatismos seculares, seus rituais simplificadores que abolem de vez os grandes autores das escolas, e o acesso, nas fases iniciais, aos clássicos. Isso então, pra elas, chega a ser uma heresia. Não vêem que todo o fracasso escolar a que estamos lançados advém daí. De não ler a grande literatura, não ler no sentido literário.
Insisti na proposta de que as bibliotecas devem ampliar seus horários de funcionamento. Há bibliotecas que só funcionam miseravelmente no horário comercial. Jamais visam atender os trabalhadores, por exemplo. Isso deu pano pras mangas. E muita incompreensão. Mas se o governo federal quer zerar os municípios brasileiros sem bibliotecas, que seja, mas só isso não basta. É preciso garantir o funcionamento e o acesso a todos. Tinha que virar política de governo e lei. Que as bibliotecas públicas funcionassem 15 horas diárias. E engendrar e intensificar as demais políticas. Sem desenvolvimento humano não há, de fato, crescimento e cidadania. 

PS: minha filha está lendo agora, sob indicação da escola, o livro "Mudando de casca" (Giselda Laporta Nicolelis, da Moderna). Vejam a pérola: "Aquele pirralho era pior que grude; um pentelho! Será que nem seu programa favorito ele podia assistir em paz?".
É pra chorar, não?


quinta-feira, 11 de março de 2010

O Lustre

-excerto-

Clarice Lispector


A represa gemia sem interrupção, vibrava no ar e trepidava dentro do seu corpo, deixando-a de algum modo trêmula e quente. Sentou-se sobre uma das pedras ainda sensível de sol. Por um instante, num leve turbilhão silencioso, toda a sua vida ela a passara sentando-se sobre pe­dras; outra realidade é que ela atravessara toda a sua vida olhando antes de dormir o escuro e remexendo-se à procura de um conforto enquanto alguma coisa fina e acordada espreitava: amanhã. Sim, quantas coisas ela via — suspirou devagar olhando em torno com tristeza. Pensara achar na cidade outras espécies... Continuava no entanto a sentar-se sobre pedras, a notar um olhar numa pessoa, a encontrar um cego, a só ouvir certas palavras... via o que enxergara pela primeira vez e que parecia ter completado a capacidade de seus olhos. Um longo bem-estar vazio tomou-a, ela cruzou os dedos com delicadeza e afetação, pôs-se a olhar. Mas o céu esvoaçava tão esgarçado, roçagante, tão sem superfície... O que sentia era sem profundidade... mas o que sentia... sobretudo desmaiando sem forças... sim, desfalecendo no céu... como ela... Círculos rápidos e grossos alargavam-se de seu coração — o som de um sino não ouvido mas pesadamente sentido no corpo em ondas — os círculos brancos embargavam-lhe a garganta numa grande e dura bolha de ar — não havia um sorriso sequer, seu coração murchava, murchava, afastava-se pela distância hesitando intangível, já perdido num corpo vazio e limpo cujos contornos se alargavam, afastavam-se, afastavam-se e só existia o ar, assim só existia o ar, o ar sem saber que existia e em silêncio, em silêncio alto como o ar. Quando abriu os olhos as coisas emergiam lentas de águas escuras e rebrilhavam umidamente sonoras à tona de sua consciência ainda vacilante do desmaio. A água da represa rumorejava bem no seu interior, tão distante que já ultrapassara seu corpo infinitamente para trás. A sagacidade do ar frio acordava a carne do rosto picando-a de frescura. Meu Deus, como sou alegre, pensou num fraco e luminoso impulso. Despertando tão moça do desmaio, sorria esgotada, sentia-se como pequena demais para ficar sem pensamentos protetores nem experiência no topo de um morro ouvindo o outro morro como outro mundo viver minuciosamente em domingo. Sentia em silêncio que depois de um desmaio estava no maior da vida porque não havia amor nem esperança que ultrapassasse aquela séria sensação de vôo nascente. Mas por que esse instante não a apaziguava com a satisfação do fim atingido... por quê? prolongava-a para o alto, esticava-a quase desesperada com a tensão de um arco pleno de seu próprio movimento... como se vivendo tão no cimo ela sentisse mais do que a potência do seu corpo grande e obscuro e se aniquilasse na própria percepção. Seu coração ainda batia com cansa­ço e ela pensava: desmaiei, foi isso, desmaiei... Olhava a luz acesa e vermelha vacilando na mataria em penumbra. O que significa sua luz? insistiam seus olhos abrindo clareiras na confusão doce de seu cansaço. Ela não poderia compreender, poderia concordar, só isso, e apenas, com a cabeça, assentindo assustada. Concordava com a tarde, concordava com aquela frágil força que a sustentava de encontro ao ar, concordava com o seu medo alegre — o medo de enfrentar o jantar de quase estranhos, o amor de Vicente, suas próprias sensações diariamente falsas? aquele erro atento — concordava com o morro vivo dizendo alto, alto dentro de si: ah sim, sim! ardentemente una e quieta. Não porém no plano da realidade inegável, só numa certa verdade onde podia dizer tudo sem jamais errar, lá onde não havia erro sequer e onde tudo vivia inefavelmen­te por força da mesma permissão, lá onde ela mesma vivia esplendorosa-mente apagada, vaga e coisa, puramente coisa como o piscar úmido de uma cadela deitada contra o ar e arfando, concordando profundamente sem saber como uma cadela. Sentiu-se quase perto de um novo desmaio, junto de desejo de ceder — e mesmo no presente seco ela pertencia ao anterior de sua vida que se perdia numa distância calma.
Depois do desmaio tudo era como fácil. Equilibrou-se. Há anos não desmaiava. A noite agora quase caía e abaixando as pálpebras ela podia sentir os raios amortecidos de luz como música translúcida sombria resva­lando da montanha em macia torrente largada à força do próprio destino. Apertava com uma das mãos o áspero cabo do guarda-chuva. Seria im­possível chover agora, sentia olhando distraída o céu frio de espelho. Pare­cia-lhe confusamente que também lhe seria impossível libertar-se de seu modo e seguir por outro caminho — sorria ela um pouco séria e flutuava numa sensação assustada mas de si mesma tranquila — tão potentes e aprisionadas ela e a natureza pareciam se achar dentro do tênue equilíbrio de suas vidas. Mas havia uma liberdade — como um desejo, como um desejo — acima da possibilidade de escolher, nela e na natureza, e daí vinha a serenidade esquisita e cansada da quase noite sem chuva nas montanhas, a vaguidão mais uma vez renovada dentro de seu corpo.


Plínio Marcos, o bendito maldito



“Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando um pai escuta o seu filho chorando de fome.”

Tive a honra de conhecê-lo, de ter conversado com ele muitas vezes enquanto folheava seus livros em uma banquinha que ele armava na entrada da universidade onde eu estudava. Comprei alguns, mas o que gostava mesmo era ouvi-lo contar suas histórias, entremeadas de palavrões, impublicáveis. Dessa época ele disse certa vez: “voltei às minhas origens de camelô, vendo meus livros na rua para sobreviver.”

Fazia palestras também e afirmava que “quando tem palestra, aí é melhor, porque camelô que fala vende mais”. Se autointitulava um camelô da literatura. Ali naquela banquinha improvisada nem parecia um dos mais premiados autores de livros e peças do Brasil. Muitas delas traduzidas e encenadas em outras línguas como francês, espanhol, inglês e alemão. Foi tese de estudos em sociolinguística, semiologia, psicologia da religião, dramaturgia e filosofia, em universidades do Brasil e do exterior. Recebeu os principais prêmios nacionais em todas as atividades que abraçou em teatro, cinema, televisão e literatura, como ator, diretor, escritor e dramaturgo. Esse cara extremamente talentoso, na infância era tido como débil mental. Não conseguia aprender. Seu poder de concentração era nenhum. Para sobreviver foi funileiro, palhaço, camelô, ator, técnico de TV, jogador de futebol, tarólogo, escritor, jornalista. Muita coisa para quem detestava estudar e levou cerca de 10 anos para terminar o curso primário. Mas, o talento se sobrepôs às dificuldades e o mundo pode conhecer o irreverente, o cáustico, o desbocado Plínio Marcos. Considerado por muitos como um autor maldito, soube como ninguém retratar a vida dos submundos de São Paulo. Colocava autenticidade nos seus textos que abordavam o homossexualismo, a marginalidade, a prostituição e a violência. Esse “inimigo do sistema”, como era conhecido pela ditadura militar, morreu em novembro de 1999, aos 64 anos, vitimado por um derrame. O Brasil perdia ali um dos maiores teatrólogos do século XX.

Malu Pedarcini
Postado por Blog da Gazeta Maringaense