Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ode ao Burguês



Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…








MÁRIO DE ANDRADE. 50 poemas e um Prefácio interessantíssimo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013
Imagem: Gerhard Richter

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Helena


No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram




Alexei Bueno, Lucernário, 1993
Imagem: Sruli Recht

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Fascismo Eterno



por Umberto Eco


A máquina antiguerra, Guernica, de Pablo Picasso











Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?


Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no antissemitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”: 1 – 2 – 3 – 4
                                              abc bcd cde def

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se veem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg.


Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:“Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte                                    Na amurada da ponte
Le teste degli impiccati                                      A cabeça dos enforcados
Nell’acqua della fonte                                        Na água da fonte
La bava degli impiccati                                      A baba dos enforcados
Sul lastrico del mercato                                     No calçamento do mercado
Le unghie dei fucilati                                         As unhas dos fuzilados
Sull’erba secca del prato                                    Sobre a grama seca do prado
I denti dei fucilati                                             Os dentes dos fuzilados
Mordere l’aria mordere i sassi                            Morder o ar morder as pedras
La nostra carne non à più d’uomini                      Nossa carne não é mais de homens
Mordere l’aria mordere i sassi                            Morder o ar morder as pedras
Il nostro cuore non à più d’uomini.                      Nosso coração não é mais de homens
Ma noi s’è letto negli occhi dei morti                    Mas lemos nos olhos dos mortos
E sulla terra faremo libertà                                E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Ma l’hanno stretta i pugni dei morti                     Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
La giustizia che si farà.                                     A justiça que se há de fazer.


Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais,
Tradução: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A Terra Devastada

T. S. Eliot

Tradução de Gualter Cunha



Elaine Pessoa, Tempo Arenoso


I. O Enterro dos Mortos

Abril é o mês mais cruel, gera
Lilases da terra morta, mistura
A memória e o desejo, agita
Raízes dormentes com chuva da Primavera.
O Inverno aconchegou-nos, cobriu
A terra com o esquecimento da neve, alimentou
Uma pequena vida com bolbos ressequidos.
O Verão apanhou-nos de surpresa, veio por sobre o Stambergersee
Com um aguaceiro súbito; paramos na colunata,
E seguimos, já com sol, para o Hofgarten,
E tomamos café e ficamos uma hora a conversar.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos pequenos, e ficamos em casa do meu primo,
O arquiduque, ele levou-me a andar de trenó
E eu apanhei um susto. Disse, Marie,
Marie, segura-te bem. E fomos por ali abaixo.
Nas montanhas, aí sim sentimo-nos livres.
Leio, quase toda a noite, e vou para o sul no Inverno.


Que raízes se prendem, que ramos crescem
Neste entulho pedregoso? Filho do homem,
Não consegues dizer, nem adivinhar, pois conheces apenas
Um montão de imagens quebradas, onde bate o sol,
E a árvore morta não dá qualquer abrigo, nem o grilo alívio,
Nem a pedra seca qualquer ruído de água. Apenas
Há sombra debaixo desta rocha vermelha
(Anda, vem para a sombra desta rocha vermelha),
E vou mostrar-te uma coisa ao mesmo tempo diferente
Da tua sombra quando ao amanhecer te segue
E da tua sombra quando ao entardecer te enfrenta;
Vou mostrar-te o medo num punhado de poeira.


                     Frisclz welzt der Wind
                     Der Heimat zu
                     Mein Irisclz Kind,
                     Wo weilest du?
«Deste-me Jacintos há um ano pela primeira vez;
«Diziam que eu era a rapariga dos jacintos.»
Porém quando viemos, já tarde, do jardim dos jacintos,
O teu braçado cheio e o teu cabelo molhado, não consegui
Falar, os meus olhos toldaram-se, eu não estava
Vivo nem morto e não conheci a nada,
Os olhos postos no coração da luz, o silêncio.
Oed' wzd leer das Meer.


Madame Sosostris, vidente famosa,
Estava muito constipada, no entanto
Passa por ser a mais sabedora mulher da Europa,
Com um maldito baralho de cartas. Aqui, dizia ela,
Está a sua carta, o Marinheiro Fenício afogado,
(Aquilo são pérolas que eram os olhos dele. Veja!)
Aqui está Belladonna, a Senhora dos Rochedos,
A senhora das complicações.
Aqui está o homem dos três bordões e aqui a Roda
E aqui o mercador zarolho, e esta carta,
Que é branca, é alguma coisa que ele leva às costas,
Que não me é consentido ver. Não encontro
O Enforcado. Tenha medo da morte pela água.
Vejo multidões de gente, a caminhar em círculo.
Obrigada. Se vir a querida Sra. Equitone,
Diga-lhe que eu própria levo o horóscopo:
Hoje em dia temos de ter tanto cuidado.


Cidade Irreal,
Sob o nevoeiro pardo de um amanhecer de Inverno,
Uma multidão fluía pela London Bridge, eram tantos,
Eu não pensava que a morte tivesse aniquilado tantos.
Suspiros, curtos e raros, eram exalados,
E cada um fixava os olhos adiante dos pés.
Fluíam encosta acima e desciam King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth dava as horas
Com um som morto na derradeira badalada das nove.
Aí vi alguém que conhecia, fi-lo parar, gritei-lhe: «Stetson!
«Tu que estiveste comigo nos barcos em Mylae!
«O cadáver que plantaste o ano passado no jardim
«Já começou a dar rebentos? Será que dá flor este ano?
«Ou o canteiro foi estragado pela geada imprevista?
«Oh, afasta de lá o Cão, que é amigo dos homens,
«Ou ele com as unhas ainda o desenterra outra vez!
«Tu! hypocrite lecteur! mon semblable , mon frère!»


II. Uma Partida de Xadrez

A Cadeira onde ela se sentava, como um trono polido,
Reluzia no mármore, onde o espelho
Apoiado em colunas ornadas de vides com uvas
Por entre as quais espreitava um Cupido dourado
(Outro escondia os olhos com uma asa)
Duplicava as chamas de candelabros de sete velas
Refletindo a luz no tampo da mesa enquanto
Para a luz se elevava o brilho das suas joias
Derramadas em exuberância de estojos acetinados.
Em frascos de marfim e vidro colorido
Destapados, emboscavam-se seus estranhos perfumes sintéticos,
Em creme, em pó ou líquidos perturbavam, confundiam
E afogavam o sentido em odores; agitados pelo ar
Refrescante vindo da j anela, eles ascendiam,
Engordavam as chamas alongadas das velas,
Lançavam o fumo sobre a moldura do teto,
Onde agitavam o desenho dos caixotões.
Madeiros do mar ali mentados com cobre
Ardiam em laranja e verde, enquadrados pela pedra de cor,
Em cuja luz triste nadava um golfinho entalhado.
Sobre o lintel da vetusta lareira era mostrada
Como se uma janela desse para a cena rústica
A mudança de Filomela, pelo bárbaro rei
Tão brutalmente violentada; mas aí o rouxinol
Enchia todo o deserto com voz inviolável
E ela ainda gritava, e ainda o mundo persegue,
«Chac Chac» a ouvidos imundos.
E outros ressequidos cepos de tempo
Eram narrados nas paredes; formas de olhares fixos
Assomavam, inclinavam-se, e emudeciam a sala que cercavam.
Vinham passos arrastados pela escada.
Sob a luz do fogo, sob a escova, o cabelo dela
Espraiado em pontos faiscantes
Cintilava em palavras, depois ficava ferozmente calmo.

«Esta noite os meus nervos estão mal. Sim, mal. Fica comigo.
Fala comigo. Por que é que nunca falas? Fala.
Em que estás a pensar? A pensar o quê? O quê?
Nunca sei o que estás a pensar. Pensa.»

Penso que estamos no beco das ratazanas
Onde os homens mortos perderam os seus ossos.

«Que barulho é esse?»
                     O vento debaixo da porta.
«Que barulho é esse agora? Que está a fazer o vento?»
                     Nada outra vez nada.
                                                                                  «Tu
Não sabes n ada? Não vês nada? Não te lembras de
«Nada?»

Lembro-me
Aquilo são pérolas que eram os olhos dele.
«Tu estás vivo, ou não? Não há nada na tua cabeça?»
                                                                                 Mas
Oh Oh Oh Oh aquele ritmo de rag Shakespeheriano
É tão elegante,
Tão inteligente
«Que hei-de fazer agora? Que hei-de fazer?
Vou sair tal como estou, e andar pela rua
Com o cabelo solto, assim. Que havemos de fazer amanhã?
Que havemos de fazer alguma vez?»
                                                           A água quente às dez.
E se chover, um carro coberto às quatro.
E jogaremos uma partida de xadrez,
A apertar olhos sem pálpebras e à espera que batam à porta.


Quando o marido da Lil saiu da tropa, eu disse
Não tive papas na língua, fui eu mesma que lhe disse,
VAMOS EMBORA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
Agora que o Albert vem aí, vê lá se te pões jeitosa.
Há-de querer saber o que fizeste ao dinheiro que te deu
Para te pores uns dentes. Deu-te, sim, eu estava lá.
Trata de tirá-los todos, Lil, arranja uma dentadura bonita,
Disse ele, juro, nem sequer aguento olhar para ti.
E já nem eu aguento, disse eu, e pensa no pobre do Albert,
Quatro anos de tropa, agora há-de querer desforra,
E se tu não lha dás, há outras que sim, disse eu.
Ai há, disse ela. Olha o que te digo, disse eu.
Então já sei a quem agradecer, disse ela, e olhou-me nos olhos.
VAMOS EMBORA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
Se não gostas, olha, o mal é teu, disse eu.
O que não souberes colher outras hão-de saber.
Mas se o Albert se for, não digas que não te avisaram.
Devias ter vergonha, disse eu, de parecer um caco velho.
(E ela só com trinta e um.)
Não sei que fazer, disse ela, a pôr cara de caso,
É dos remédios que tomei, para o desmancho, disse ela.
(Ela já teve cinco, e quase morreu do George, do pequenito.)
O da farmácia disse que não fazia mal, mas nunca mais fui a
   mesma.
Tu és mesmo parva, disse eu.
Então, se o Albert não te deixa em paz, lá está, disse eu,
Para que te casaste se não queres ter filhos?
VAMOS EMBORA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
Então, nesse domingo o Albert estava em casa, tinham cozinhado
   presunto,
E convidaram-me para jantar, para o apreciar quentinho
VAMOS EMBORA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
VAMOS EMBORA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
Banoite Bill . Banoite Lou. Banoite May. Banoite
'Deuzinho. Banoite. Banoite.
Boa noite, senhoras, boa noite, gentis senhoras, boa noite, boa
   noite.


III. O Sermão do Fogo

A tenda do rio rompeu-se: os derradeiros dedos de folhas
Agarram-se e enterram-se na margem úmida. O vento
Atravessa a terra parda, sem se ouvir. As ninfas partiram.
Gentil Tamisa, corre lento, até eu findar meu canto.
O rio não leva garrafas vazias, papéis de sanduíche,
Lenços de seda, caixas de cartão, pontas de cigarro,
Ou outros testemunhos de noites de verão. As ninfas partiram.
E os amigos delas, os vadios herdeiros dos diretores da City
Partiram, não deixaram endereços.
Junto às águas do Leman assentado eu chorei...
Gentil Tamisa, corre lento, até eu findar meu canto,
Gentil Tamisa, corre lento, que eu não falo nem alto nem muito.
Mas por detrás de mim num estrondo frio eu ouço
O restolhar dos ossos, e a risada aberta de uma orelha à outra.


Uma ratazana deslizou lenta pela vegetação
A arrastar a barriga viscosa pela margem
Enquanto cu pescava no turvo canal
Num entardecer de inverno nas traseiras da central do gás
A cismar no naufrágio do rei meu irmão
E na morte antes dele do rei meu pai.
Corpos brancos nus no chão baixo e úmido
E ossos lançados num exíguo sótão baixo e seco,
Só restolhados pela pata da ratazana, de um ano ao outro.
Mas por detrás de mim de vez em quando eu ouço
Buzinas e automóveis, que hão-de trazer
Swecney à Sra. Porter quando for Primavera.
Oh estava a Sra. Porter pela lua iluminada
Assim como a filha estava
Ambas lavam os pés em água com soda
Et O ces voix d'enfants, chantant dans la coupole!

Tuít tuít tuít
Chac chac chac chac chac chac
Tão brutamente violentada.
Tereu

Cidade irreal
Sob o nevoeiro pardo de um meio-dia de Inverno
O Sr. Eugenides, o mercador de Esmima
De barba por fazer, um bolso cheio de passas
C.i .f. Londres: documentos à vista,
Convidou-me em francês demótico
Para um almoço no Cannon Street Hotel
Seguido de um fim-de-semana no Metropole.


À hora violeta, quando os olhos e as costas
Se elevam da secretária, quando a máquina humana aguarda
Como um táxi latejante à espera,
Eu Tirésias, embora cego, latejante entre duas vidas,
Um velho com seios mirrados de mulher, consigo ver
À hora violeta, a hora do entardecer que se arrasta cansada
De caminho a casa, e traz o marinheiro de regresso do mar,
A datilógrafa em casa à hora do chá, levanta o pequeno-almoço,
   acende
O fogão, e põe na mesa comida de conserva.
Perigosamente estendidas por fora da janela,
Secam as combinações, que o sol toca com os derradeiros raios,
Em monte no divã (à noite a cama dela)
Meias, chinelas, corpetes e espartilhos.
Eu Tirésias, um velho de tetas mirradas
Entendi a cena e antecipei o resto
Também eu aguardava o visitante previsto.
Ele chega, o jovem carbuncular, um funcionário
Numa modesta agência predial, de feição atrevida,
Um pobre diabo em quem assenta o brio
Como em ricaço de Bradford cartola de seda.
A altura é, ele prevê, propícia,
A refeição acabou, ela indolente e cansada,
Procura convencê-la por carícias
Não repelidas, se é que indesejadas.
Afogueado e decidido, passa à ação;
As mãos intrometidas têm licença;
Não pede contrapartida a presunção
E até lhe é bem-vinda a indiferença.
(E eu Tirésias já de antemão penei
Tudo neste divã ou cama representado;
Eu que junto aos muros de Tebas me sentei
E entre os mortos mais rasteiros tenho andado.)
Pespega para acabar u m beijo complacente,
E sai às apalpadelas, sem ter luz na escada...


Ela volta-se e vê-se ao espelho por um momento,
Mal se dando conta de que o amante partiu;
Deixa um pensamento inacabado vir-lhe à mente:
«Bem, agora está feito: e ainda bem que passou.»
Quando mulher amável se toma inconstante
E de novo só pelo seu quarto deambula,
Amacia o cabelo com mão inconsciente
E vai pôr um disco na grafonola.


«Esta música deslizou junto de mim por sobre as águas»
E ao longo do Strand, e por Queen Victoria Street.
Oh Cidade cidade, por vezes consigo ouvir
Quando passo por um bar em Lowcr Thames Street,
O suave lamento de um bandolim
E um alarido e uma vozearia lá de dentro
Onde homens do peixe se encontram ao meio-dia: onde as paredes
De Magnus Martyr guardam
Inexplicável esplendor de branco e ouro jônio.


O rio sua
Ó Jeo e alcatrão
As barcas flutuam
Com a maré que muda
Velas vermelhas
Abertas
Para sotavento, agitam-se no forte mastro.
A s barcas vogam
Lenhos à deriva
Ao largo de Greenwich
Para lá da Isle of Dogs.
                    Weialala leia
                    Wallala leialala


Elizabeth e Leicester
O bater dos remos
A popa tinha a forma
De uma concha dourada
Vermelho e ouro
A ondulação viva
Encrespava nas margens
Vento sudoeste
Levava rio abaixo
O repicar dos sinos
Torres brancas
                    Weialala leia
                    Wallala leialala


«Elétricos e árvores cheias de poeira.
Highbury criou-me. Richmond e Kew
Despedaçaram-me. Junto a Richmond levantei os
   joelhos
De costas no chão de uma estreita canoa.»


«Os meus pés estão em Moorgate, e o meu coração
Debaixo dos meus pés. Depois do que aconteceu
Ele chorou. Prometeu "um recomeço".
Não lhe dei seguimento. De que havia de ter
   ressentimento?»


«Em Margate Sands.
Não consigo ligar
Nada com nada.
As unhas quebradas de mãos imundas.
Minha gente humilde gente que não aguarda
Nada.»
                    la la


E então cheguei a Cartago


A arder a arder a arder a arder
Oh Senhor Tu agarras-me
Oh Senhor Tu agarras


a arder


IV. Morte pela Água

Phlebas, o Fenício, morto há duas semanas,
Esqueceu o grito das gaivotas, e a ondulação das profundidades
E os lucros e as perdas.
                                          Uma corrente submarina
Apanhou em sussurro os ossos dele. Ao subir e descer
Passou os estádios da sua idade e da sua juventude
Enquanto entrava no redemoinho.
                                          Gentio ou Judeu
Oh tu que rodas o leme e olhas a barlavento,
Lembra-te de Phlebas, que foi em tempos belo e alto como tu.


V. O Que Disse o Trovão

Após o rubor do archote no suor dos rostos
Após o silêncio gelado nos jardins
Após a agonia em terras pedregosas
Os brados e os gritos
Da prisão e do palácio e da ressonância
Do trovão primaveril em montanhas distantes
Ele que era vivo agora está morto
Nós que éramos vivos agora vamos morrendo
Com alguma paciência


Não há água aqui mas apenas pedras
Só pedras sem água e a estrada arenosa
Serpeante no alto por entre as montanhas
Que são montanhas de pedras e sem água
Se houvesse água íamos parar e beber
Não se pode entre as pedras parar ou pensar
O suor seco e os pés na areia
Se ao menos houvesse água entre as pedras
Boca cariada de montanha morta incapaz de cuspir
Ninguém se pode aqui erguer nem sentar nem deitar
Nem sequer há silêncio nas montanhas
Só o trovão seco e estéril e sem chuva
Nem sequer há solidão nas montanhas
Mas rostos vermelhos e ruins zombam e rosnam
Às portas de casas de lama ressequida
                                            Se houvesse água


E nenhumas pedras
Se houvesse pedras
E água também
E água
Se houvesse água
Uma nascente
Uma poça entre as pedras
Se ao menos houvesse o som da água
Não o canto da cigarra
E da erva seca
Mas o som da água numa pedra
Onde o tordo-eremita canta nos pinheiros
Drip drop drip drop drop drop drop
Mas não há água


Quem é o terceiro que sempre caminha a teu l ado?
Quando conto, só estamos tu e eu
Mas quando olho pela estrada branca acima
Há sempre alguém a caminhar junto de ti
Envolto em manto castanho, e embuçado
Não sei se será homem ou mulher
Mas quem é esse do outro lado de ti?


Que som é esse a elevar-se no ar
Murmúrio de lamento maternal
Quem são essas hordas embuçadas a alastrar
Em plainos infindos, a tropeçar na terra ressequida
Apenas circundada pelo horizonte raso
Que cidade é essa por cima das montanhas
Que estala e se refaz e estoira no ar violeta
Torres cadentes
Jerusalém Atenas Alexandria
Viena Londres
Irreais


Uma mulher esticou os seus cabelos negros
E tocou música de suspiros nessas cordas
E morcegos com rostos de criança à luz violeta
Assobiaram e bateram as asas
E de cabeça para baixo rastejaram num muro enegrecido
E voltadas ao contrário no ar havia torres
A soar reminiscentes sinos, que davam as horas
E vozes a cantar de dentro de cisternas vazias e poços esgotados.
Neste arruinado buraco entre as montanhas
À tênue luz da lua, a erva canta
Sobre os túmulos derrubados, em volta da capela
Há a capela vazia, onde só mora o vento.
Não tem janelas, e a porta vai e vem,
Ossos secos são inofensivos.
Só um galo se elevava na viga mestra
Cô cô ricô cô cô ricô
Num clarão de relâmpago. Logo uma rajada úmida
A trazer chuva


O Ganga ia baixo, e as folhas frouxas
Esperavam a chuva, enquanto as nuvens negras
Se acumulavam longe, sobre o Himavant.
A selva encolhia-se, curvada em silêncio.
Então falou o trovão
DA
Datta: que foi que nós demos?
Meu amigo, sangue a agitar-me o coração
A tremenda ousadia de um instante de entrega
Que tempos de prudência jamais revogarão
Foi por isto, e só por isto, que existimos
O que não aparecerá nos nossos necrológios
Ou em memórias vestidas pela caridosa aranha
Ou sob lacres quebrados pelo seco procurador
Nos nossos quartos vazios
DA
Dayadhvam: Eu ouvi a chave
Por uma vez na porta e por uma só vez
Nós pensamos na chave, cada um na sua prisão
A pensar na chave, cada um confirma uma prisão
Só ao cair da noite, rumores etéreos
Revi vem por um instante um destroçado Coriolano
DA
Damyata: O barco respondeu
Ágil, à mão experiente na vela e no remo
O mar estava calmo, o teu coração teria respondido
Ágil, se convidado, batendo obediente
A mãos conhecedoras
Sentei-me na margem
A pescar, com o plaino árido atrás de mim
Hei-de eu ao menos pôr ordem nas minhas terras?
London Bridge está a cair está a cai r está a cair
Poi s 'ascose nel foco che gli affina
Quando fiam uti chelidon Ó andorinha andorinha
Le Prince d 'Aquitaine à la tour abolie
Com estes fragmentos escorei as minhas ruínas
Pois então estais arranjados comigo. O Hieronymo ensandeceu
   de novo.
Datta. Dayadhvam. Damyata.
                    Shantih shantih shantih




Notas do autor sobre a Terra Devastada



Não só o título, mas também o plano e uma grande parte do simbolismo incidental do poema foram sugeridos pelo livro da Sra. Jessie L. Weston sobre a lenda do Graal: From Ritual to Romance (Cambridge). A minha dívida é tão profunda que na verdade o livro da Sra. Weston deverá elucidar as dificuldades do poema muito melhor do que as minhas notas o podem fazer; e recomendo-o (para além do grande interesse do livro em si próprio) a quem quer que considere que vale a pena uma tal elucidação do poema. Em termos gerais as minhas dívidas vão também para outra obra de antropologia que influenciou profundamente a nossa geração; refiro-me a The Golden Bouglz, do qual usei em especial os dois volumes Adonis, Attis, Osiris. Qualquer leitor familiarizado com estas obras reconhecerá imediatamente no poema certas referências a    cerimoniais da vegetação.


I. O ENTERRO DOS MORTOS


Verso 20. Cf. Ezequiel 2, 1.
23. Cf. Eclesiastes 12:5.
31. V. Tristan und I solde, I, versos 5-8.
42. Id., III, verso 24.
46. Não conheço bem a constituição exata do baralho de cartas Tarô, do qual obviamente me distanciei de acordo com as minhas conveniências. O Enforcado, um membro do baralho tradicional, adequa-se aos meus objetivos por duas vias: porque se associa no meu espírito ao Deus Enforcado de Prazer, e
porque eu o associo à figura embuçada na viagem dos discípulos para Emaús na Parte V. O Marinheiro Fenício e o Mercador aparecem depois, assim como as «multidões de gente», e a Morte pela Água tem lugar na Parte IV. O Homem dos Três Bordões (um membro autêntico do baralho Tarô) é associado por mim, de modo inteiramente arbitrário, com o próprio Rei Pescador.
60. Cf. Baudelaire:
«Fourmillante cité, cité pleine de rêves,
le spectre en plein jour raccroche le passant.»
63. Cf. Inferno, III, 55-57:
                                                  si lunga tratta
                  di gente, ch'io non averei creduto
                  che morte tanta n'avesse disfatta.
64. Cf. Inferno, IV, 25-27:
                  Quivi, secando che per ascoltare,
                  non avea piante mai che di sospiri
                  che l'aura eterna facevan tremare.
68. Um fenômeno em que reparei frequentemente.
74. Cf. a Endccha em White Devil, de Webster.
76. V. Baudelaire, Prefácio a Fleurs du Mal.


II. UMA PARTIDA DE XADREZ


77. Cf. Antony and Cleopatra, II, 2, v. 190.
92. Laqueari a. V. Eneida, I, 726:
        dependent lychni laquearibus aureís
incensi, et noctem flammis funalia vincunt.
98. Cena rústica. V. Milton, Paradise Lost, IV, 140.
99. V. Ovídio, Metamorfoses, VI, Filomela.
100. Cf. Parte III, v. 204.
115 . Cf. Parte III, v. 195.
118. Cf. Webster: «O vento ainda vem dessa porta?»
126. Cf. Parte I, vv. 37, 48.
138. Cf. o jogo de xadrez em Women beware Women, de Middleton.


III. O SERMÃO DO FOGO


176. V. Spenser, Prothalamion.
192. Cf. The Tempest, I, 2.
196. Cf. Marvell, To His Coy Mistress.
197. Cf. Day, Parliament of Bees:
«Quando de repente, atento, ouvirás,
«Um ruído de trompas e de caça, que há-de trazer
«Ateão a Diana na nascente,
«Onde todos verão a sua pele nua...»
199. Não conheço a origem da balada da qual estes versos são retirados: foi-me comunicada de Sydney, na Austrália.
202. V. Verlaine, Parsifal.
210. As passas eram cotadas a um preço «custo seguro e frete para Londres»; e a Ordem de Carga, etc., deveriam ser entregues ao comprador após liquidação da ordem de pagamento à vista.
218. Tirésias, embora seja um simples espectador e não propriamente uma «personagem», é, contudo, a mais importante figura no poema, unindo todo o resto. Assim como o mercador zarolho, vendedor de passas, se funde com o Marinheiro Fenício, e este último não é inteiramente distinto de Ferdinand, Príncipe de Nápoles, também todas as mulheres são uma mulher, e os dois sexos reúnem-se em Tirésias. O que Tirésias , de fato, é a substância do poema. O passo completo de Ovídio é de grande interesse antropológico:
 ...Cum Iunone iocos et «maior vestra profecto est
Quam quae contingit maribus», dixisse, «voluptas.»
Ill a negat; placuit quae sit sententia docti
Quaerere Tiresiae: venus huic erat utraque nota.
Nam duo magnorum viridi coeuntia silva
Corpora serpentum baculi violaverat ictu
Deque viro factus, mirabile, femina septem
Egerat autumnos; octavo rursus eosdem
Vidit et «est vestrae si tanta potenti a plagae»,
Dixit «ut auctoris sortem in contrari a mutet,
Nunc quoque vos feriam!» percussis anguibus isdem
Forma prior rediit genetivaque venit imago.
Arbiter hic igitur sumptus de lite iocosa
Dieta Iovis firmat; gravius Saturnia iusto
Nec pro materia fertur doluisse suique
ludicis aeterna damnavit lumina nocte,
At pater omnipotens (neque enim licet inrita cuiquam
Facta dei fecisse deo) pro lumine adempto
Scire futura dedit poenamque levavit honore.
221. Isto pode não aparecer tão exato como os versos de Safo, mas eu tinha em mente o pescador «costeiro» ou «de chata», que regressa ao cair da noite.
253. V. Goldsmith, a canção em The Vicar of Wakefield.
257. V. The Tempest, como acima.
264. O interior de St. Magnus Martyr é a meu ver um dos melhores de entre os interiores de Wren. Ver The Proposed Demolition of Nineteen City Clwrches (P. S. King Son, Ltd.).
266. A Canção das (três) filhas-do-Tamisa começa aqui. Do verso 292 até ao verso 306 inclusive elas falam à vez. V. Gotterdämmenrung, III, 1: as filhas-do-Reno.
279. V. Froude, Elizabeth, vol. I, cap. 4, carta de De Quadra para Filipe de Espanha:
«Pela tarde estávamos numa barca, a observar os jogos no rio. (A Rainha) estava só com Lord Robert e comigo na popa, quando os dois começaram a dizer tolices, e de tal maneira que Lord Robert acabou por dizer, estando eu presente não havia razão para não casarem se tal fosse do agrado da rainha.»
293. Cf. Purgatorio, V. 133:
            «Ricorditi di me, che son la Pia;
            "Siena mi fe", disfecemi Meremma.»
307. V. Confissões de Santo Agostinho: «cheguei então a Cartago, onde um caldeirão de amores ímpios cantou em redor de meus ouvidos.»
308. O texto completo do Sermão do Fogo de Buda (que corresponde em importância ao Sermão da Montanha) de onde estas palavras são retiradas encontra-se traduzido em Buddlrism in Translation (Harvard Oriental Series), do falecido Henry Clarke Warren. O Sr. Warren foi um dos grandes pioneiros dos estudos budistas no Ocidente.
309. De novo das Confissões de Santo Agostinho. A colocação destes dois representantes do ascetismo oriental e ocidental como culminação desta parte do poema não é um acidente.


V. O QUE DISSE O TROVÃO


Na primeira parte da Parte V são usados três temas: a jornada para Emaús, a aproximação à Capela Perigosa (ver livro da Sra. Weston) e a atual decadência da Europa Oriental.
357. Este é o Turdus aonalasclrkae pallasii, o tordo-eremita que ouvi na província do Quebec. Chapman afirma (Handbook of Birds of Eastern Nortlz America) que «onde ele se sente melhor é em bosques isolados e em esconderijos de vegetação espessa... As suas notas não são notáveis pela variedade ou pelo volume, mas são inigualáveis na pureza e na doçura do tom e na delicada modulação». A sua «canção de água-gotejante» é apropriadamente célebre.
360. Os versos seguintes foram suscitados pelo relato de uma das expedições ao Antártico (não me lembro de qual, mas penso que foi uma das expedições de Shackleton): dizia-se que o grupo de exploradores, no limite das suas forças, tinha a constante ilusão de que havia mais um membro para além dos que realmente conseguiam contar.
366-76. Cf. Hermann Hcsse, Blick ins Chaos: «Schon ist halb Europa, schon ist zumi ndcst der halbe Osten Europas auf dem Wcge zum Chaos, fährt bctrunkcn im hciligen Wahn am Abgrund entlang und singt dazu, singt bctrunkcn und hymnisch wie Dmitri Karamasoff sang. Ucbcr diese Lieder l acht der Bürger bcleidigt, der Hei lige und Seher hört sie mit Tränen.»
401. «Datta, dayadhvam, damyata» (Dar, simpatizar, dominar). A fábula sobre o significado do Trovão encontra-se em Brihadaranyaka-Upanislwd, 5, 1. Encontra-se uma tradução em Deussen, Sechzig Upanislzads des Veda, p. 489.
407. Cf. Webster, The White Devil, V, 6:
                                                         «...hão-de voltar a casar
Antes de o verme furar a vossa mortalha, antes de a aranha
Vos tecer nos epitáfios uma tênue cortina.»
411. Cf. Inferno, XXXIII, 46:
                «edio senti chi avar l' uscio di sotto
                all' orribile torre.»
Também F. H. Bradley, Appearance mui Reality, p. 306:
«As minhas sensações externas não são menos privadas para mim do que os meus pensamentos ou os meus sentimentos. Em qualquer dos casos a minha experiência confina-se ao meu próprio círculo, um círculo fechado ao exterior; e, de modo igual para o que respeita a todos os seus elementos, cada esfera é opaca para as outras que a rodeiam. [...] Em suma, considerado como uma existência que se manifesta numa alma, a totalidade do mundo é para cada um privada e peculiar a essa alma.»
424. V. Weston, From Ritual to Romance; capítulo sobre o Rei Pescador.
427. V. Purgatorio, XXVI, 148.
«"Ara vos prec per aquella valor
"que vos condus ai som de l'escalina,
"sovenha vos a temps de ma dolor."
"Poi s' ascose nel foco che li affina.»
428. V. Pervigilium Veneris. Cf. Filomela nas Partes II e III.
429. V. Gérard de Nerval, soneto El Desdichado.
431. V. Spanish Tragedy, de Kyd.
433. Shantih. Repetido como aqui , um encerramento formal de um Upanishad. «A Paz que vai além do entendimento» é o nosso equivalente para esta palavra.