Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

É UMA PENA QUE EU NÃO POSSA ESTAR COM VOCÊS HOJE


Ana Cristina cadê você?
Estou aqui, você não vê?
[Cacaso]

Para sempre é sempre por um triz.
Diz quantos desastres tem na minha mão.
[Chico Buarque]






Possa Deus escapar da ausência de Ana Cristina Cesar. Nossa cultura judaico-cristã não está habituada a admitir as perdas. “Perder é uma lenha”, a própria Ana reconhecia. Morta a 29 de outubro de 1983, ao se lançar da janela do apartamento onde morava em Copacabana, a poesia de Ana vem tentando escapar à significação desse desaparecimento prematuro e trágico. Com efeito, sempre e cada vez mais, a soma dos anos que nos separam dela – pedras lançadas no grande rio – desencadeia movimentos circulares de inquietante perda. Sua ausência alimenta uma aura.

Mas nem o suicídio tem a força de mover o tempo ao contrário, muito menos resolve o enigma, quando muito coloca o tempo em suspenso e abre certas rotas ou notas de rodapé em torno da escrita da poeta – desde que não subam (ela mesmo pediu numa glosa feita a Nabokov) “como arranha-céus, até o topo da página” para não asfixiar ou até mesmo fazer sucumbir o enunciado. Não há como excluir o leitor, cegá-lo com o véu de palavras que separam e nada mostram. Não qualquer leitor, é certo, mas o bom leitor que o grande texto exige. Singular contradição: ainda que tematize o cotidiano com frequência, a poesia de Ana requer leitor atento – suas pistas despistam, podem conduzir por desvios ao deserto e não às fontes da vida, pelas suas irresoluções e por não se resguardar nem da dor nem da morte. Não a morte gloriosa de Aquiles, mas da que é emparedamento e declínio em plena juventude, passível protocolo da vida artista.

Nos Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes fala do ser ascético como de alguém capaz de arruinar o próprio corpo. Por extremo acaso, imediatamente se pode voltar e tentar ver a evanescente silhueta de Ana, como se as palavras do semiólogo francês, que ela tanto admirava, fossem capazes de revelar a identidade da poeta, ou pelo menos, mínimos pedaços de sua angústia. Pelos cabelos curtos, o olhar autodevorador de quem está ausente – quando não, o rosto magro, hierático, atrás dos óculos escuros. "Quem escolheu este rosto para mim?", ela disfarçava. Quem ainda a procura? O rosto definitivamente desfigurado aos 31 anos. A infelicidade intriga mais do que a alegria.


Quando estamos perdidos precisamos andar em círculos até cruzarmos o próprio rastro. A poesia de Ana costuma seguir o percurso de alguém desnorteado, evitando se orientar de cara pelas referências próximas, fáceis de localizar. Ana parecia não se deter no imediatismo da informação que as imagens desprendem no poema, para tentar chegar pelo lado mais íngreme do caminho à nervura do que se escreve. Poesia sem bússola e carta de navegação, afeita a desencontros desconcertantes. "Eu não sabia/ que virar pelo avesso/ era uma experiência mortal."





Menina ainda, Ana escrevia memórias – uma menina envelhecida –, e foi saudada por Lúcia Benedetti no Jornal Tribuna da Imprensa, 14-15 de novembro de 1959, (tinha sete anos) como modelo de uma poesia sem texto: “as crianças em si são a própria poesia”. Mas se bem se observar, os poemas ditados à mãe (quando ainda não sabia escrever) e enviados à Benedetti desautorizam sua recepção como se fosse um “sopro de Deus”, como chega a afirmar a jornalista. A pequena Ana insurge-se com uma poesia vinculada modernamente a uma crise da linguagem e a um embate com a palavra, sob a força da esterilidade e do aniquilamento. Soletrava o destino dos homens, não dos deuses. Aos olhos da menina séria o mundo revelava-se e submergia, fazia-se e desfazia-se num prognóstico de imperfeições e desastres: vento selvagem, rocha, terra, fogo, céu. Estruturas deformadas pela retina de quem não ousa libertar-se das imagens que vê, atravessando-as, alucinada.


Estamos de volta/ aos dias moribundos de calor e/ outono/ onde as folhas gordas/ viram e suspiram no/ silêncio amarelado/ onde vimos pela primeira vez/ o brilho novo do céu// estamos de volta/ atrás de nós as ondas/ cercam nossos/ gestos/ o nascimento da tarde/ é mais que as limitações/ sem tempo// estamos de volta ao mesmo/ lugar enorme e irresistível,/ às sombras moribundas de/ calor e outono




Parte dos poemas da infância de Ana vem a público em Inéditos e Dispersos (Brasiliense, 1985). Eles nos fazem ver, como em Ezra Pound, que na infância temos já o corpo pesado de pranto, só ainda não chegamos ao limite da água mais funda. Mais uma vez desfavorecem (mas, claro, não impedem) as excessivas preocupações biográficas, confissões íntimas, frequentes ações redutoras do texto que a própria Ana adulta fez questão de desautorizar e desmontar em A teus pés. Ela jamais quis submeter sua poesia à condição de ser arrastada pela curiosidade perversa do “diário íntimo”, do "testemunho/ testamento", dos votos sinceros do “sujeito”, ou mesmo da “primeira pessoa”. Que muitos então caíssem "feito patinhos" na armadilha de um texto em que se multiplicam "Vozes barganhando/ uma informação difícil", o "Apuro técnico", "Um golpe de exercício" – Ana antes tratava de se interditar sob o impacto das imprecisões do enunciado, dos lapsos de memória, das elipses da ficção.






A teus pés, lançado no final de novembro de 1982 pela Brasiliense, prorroga e amplia a voz anterior da menina a uma mulher (não uma mulherzinha) intransitiva e desenfreada, como marca escritural, numa espécie de operação de descaracterização de estilo, que impões, num contraste, a certas poetas contemporâneas quedas de ritmo/estilhaçar de ecos – ou, mais especificamente, não as deixou escapar à menor impugnação do Eu. No caso de Ana, se depara desde sempre com uma poesia desgarrada, empreendendo uma caminhada ofegante, de passos trocados com o resto da humanidade (um pacto de aliança com Henry Miller) – ora percorrendo paisagens alterosas, superfícies circundantes; ora transcursos subterrâneos, infiltrando-se no tempo evanescente e vazio. Tentativa labiríntica de entender o que se viu com o primeiro olhar.

Ficam ainda as perguntas: até onde poderia ir a jovem poeta, atada ao liame de uma escrita desviante, no período imediatamente após à repressão política e cultural? A quem pertencerão os rastros de seu texto, emaranhados e sobrepostos à escrita de Torquato Neto, Maura Lopes Cançado, Hilda Hilst, Sylvia Plath, Severino do Ramo, Caio Fernando Abreu, Lucienne Samôr, a partir da agonia de quem “sabe” apenas do seu começo? Safo desencontrada de si mesma, destinada a errar até a morte – "Um dia me safarei – aos poucos me safarei, começarei um safári".


Ney Feraz Paiva

quinta-feira, 28 de outubro de 2010


Um comediante midiático




As máquinas desejantes são máquinas binárias, de regra binária ou regime associativo; uma máquina está sempre ligada a outra. A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: «El», «e depois»... É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca). (Gilles Deleuze e Félix Guattari, O anti-édipo - capitalismo e esquizofrenia)

Lendo o texto de Ladislau Dowbor, publicado na revista eletrônica “Envolverde” a 25/10/2010, fui tocada por uma irresistível vontade de me enredar nas impressões expostas no texto e por uma daquelas coincidências impagáveis, havia tecido o seguinte comentário sobre a figura que abre o texto de Ladislau: Arnaldo Jabor. Discorri em torno da aparente unanimidade que o jornalista desfruta entre os pseudo-mídiaticos informados, aqueles que utilizam da ferramenta mais democrática que temos em mão (não é do voto que estou falando, mas de uma verdadeira máquina de guerra) – para se tornarem cada vez menos informados, ou deformados.

Arnaldo Jabor sempre a serviço do capital com um discurso disfarçado de dissonante, algo que leva ao riso, à ridicularização de temas muitas vezes relevantes, bloqueando com isso o debate, a reverberação e mobilização social em torno de temas caros à democracia. Contudo, o que poderia dizer Jabor desse “seio/boca” pensado por Deleuze/Guattari? E quem melhor alimentou as máquinas desejantes produtoras de fluxos? Junto com a resposta quase automática nós podemos pensar o Brasil como um enorme seio, belo e provocador, que deverá nos alimentar (não só aos bem nascidos, as tantas elites deste país) de todas as formas: doméstica, intelectual/científica, cultural, afetiva, artística, para o jogo, o prazer o deleite, a felicidade.

Não tivemos em muitos anos de estado democrático algo nem perto do que acontece hoje, em que a “palavra liberdade foi expulsa do pântano enganoso das bocas”, para se transformar em “algo transparente e vivo como o fogo, ou um rio”. E o que nos fornece essa liberdade? E aí penso não apenas na liberdade verborrágica, mas em algo ainda mais correlato, como a garantia do direito de ir e vir, o direito de ter acesso, o direito de trabalhar e não apenas trabalhar como um escravo da vontade e do poder do outro, mas trabalhar sob um sistema que garanta direitos fundamentais, como auxílio doença, creche, transporte etc.

Querendo ou não, foi sob esse governo que tivemos a aprovação da Lei Maria da Penha, a instituição da Secretaria Nacional de Igualdade Racial, a expansão dos auxílios aos estudantes, as Conferências de meio ambiente, de cultura, de segurança pública, de saúde, de educação e até do livro e biblioteca. Nesse governo de Luis Inácio Lula da Silva nos sentimos livres, debatemos, pensamos, tivemos apoio para criar. Aconteceu de termos ministros negro, acreano e, claro, ficamos sujeitos aos cortes de fluxos, aos enganos, à corrupção – prática defendida e aceita de forma corriqueira pela justiça, já que para crimes do colarinho branco não há punição. Para a sociedade resta se virar e compreender que a síntese produtiva se faz também dos desacertos e dos atos falhos. É o que teme Jabor?

A ele o espaço midiático para singelas teorizações. Cada um faz o que pode, embora se possa reparar de soslaio quem o contrata e a quem ele defende. Agora, sem essa de tentar colocar o país no divã, arranjar a todos essa culpa: ter votado no Lula. Ser o pai desrespeitado a nos passar um carão. E nos provar, num tortuoso comentário, que Lula é apenas um caso de dissidência das políticas do PSDB, com as quais aliciou a todos tanto quanto Édipo ainda é capaz de levar no papo as virgens sonhadoras. Lula chegou a 82% de aceitação graças aos serviços de FHC – quais mesmo estes serviços e a quem ele prestou? O que se sabe, ou melhor, o que a sociedade não quer mais rever (e que talvez tenha reduzido de vez nos créditos o nome desse senhor a uma sigla, enquanto Lula acrescentou mais este a seu emblemático nome) são os velhos capítulos de um novelão político, já que os avanços sociais protagonizados pelo governo Lula não admitem levantar audiência com reprises, quando muito, resgatar incautos saudosistas ou desatentos, que podem ver em Serra, dado a um tal efeito técnico, o personagem de uma boa anedota. Essa que Jabor não cessa de contar.


Juliete Oliveira

sábado, 23 de outubro de 2010

o repúdio, ou a resignificação possível a geraldo pereira - um pouco mais contra o golpe de estado mediático 
por André Queiroz

Só tenho medo da falseta,
Mas adoro a Julieta como adoro a
Papai do Céu
Quero seu amor, minha santinha
Mas só não quero que me faça de bolinha de papel
Tiro você do emprego,
Dou-lhe amor e sossego,
Vou ao banco e tiro tudo pra você gastar
Posso, Julieta, lhe mostrar a caderneta
Se você duvidar
(“Bolinha de papel”, João Gilberto
Composição: Geraldo Pereira)



Esta é a música. Não se deixar fazer de bolinha de papel. Algo que se arremessa ao lixo - uma vez o uso, e o desuso que sobrevém a este. Descartar o que se fizer sujo. Quem sabe se o recicla? Tempos de coleta seletiva de lixo. As várias cores dos recipientes - verde, vermelho, azul, amarelo. Aprende-se isto nos colégios à infância. A coleta do reciclável começa por ali. Alguém ganhará algum dinheiro com isto. Um pouco à salva dos que não têm. O que dizer das latinhas de cerveja e derivados? E dos catadores de papel? Suas associações, por exemplo? Todavia, por vezes, está-se a dar outro sentido à hegemonia dos sentidos ao econômico. Uma bolinha de papel pode bem vir a ser muito mais do que umas gramas ao quilo que sustenta a alguns - e que são tantos estes alguns neste nosso agora agorinha. Uma bolinha de papel pode vir a ser bem mais do que a condição espúria daquele que fora abandonado por Julieta no samba do Geraldo Pereira. Deixar que alguém nos torne uma bolinha de papel? Pero, no basta! Por vezes, uma bolinha de papel é o que se tem à mão. Máximo signo do impoder a que se está colocado. Penso em Foucault a lembrar das formas de repúdio popular quando das sociedades de soberania - a massa dos destituídos, a massa zerada dos deixados à míngua e à condição inglória de expectador aos faustos do poder, sua celebração grandiloquente, e eis que a massa, por vezes, lançava à cara do soberano o que tinha às mãos - e o que será tinha às mãos a massa zerada dos que nada têm? Eles dispunham dos seus excrementos tirados ao calor da hora, aos humores vilipendiados, e ainda quente, a condição morna do que se lhes escorria, eles a lançavam às fuças da tradição que os negava, que os excluía.



De lá aqui, deu-se a condição de alfabetização de muitos - mesmo que sob a condição de sua 'inalfabetização' social. Trazer consigo uma bolinha de papel amassada é estar incluído em programas sociais d'algum modo, digamos assim. É dispor do que se lhes chega à intenção da boa educação. Ter onde escrever o que se aprendeu, e ter onde mostrar que se aprendeu o escrever. Um papel talvez sirva a isto. Digamos que sim. São horas, sabemos, a outros modos de escrita – a escrita virtual. Novas inclusões, e novas exclusões – um novo ponto de corte. Certo, certo. Talvez quando se inclua ao digital, se exclua ao uso contumaz da folha de papel. Alguns resistem, alguns. Os nostálgicos talvez. Ou os amigos das madereiras talvez. Vá se saber a quantas se fazem as possibilidades de expressão do ser!



Mas eis que se tem, por vezes, à mão uma folha de papel - e ali seria uma carta, um bilhetinho de última hora, uma conta a ser paga, ou ali seria o começo da coleta ao tanto do quilo aos catadores de papel – que todos somos em potencial. Todavia, nada que isto! Ou melhor, tudo isto, e muito mais ainda, e veja o tanto que temos à mão da imaginação – todos os possíveis que se pode depositar ao uso bom uso de uma folhinha de papel, e então, supremo desprendimento: fazer da folha um algo que se amassa, fazer do amassado o peso simbólico de uma pedra, de um tamanco, de uma catedral (lembrança de há pouco um Mássimo Tartaglia a lançar uma 'catedral' às fuças de Berluscconi), um paralelepípedo, como numa intifada. Lançar o que se tem às mãos ao rosto deslavado da canalha, o canalha ali. Lançar o que se dispõe a ver se não tarda a hora ao recolhimento da corja de há tanto! Lançar bolinhas de papel como quem promove uma intifada. Lançar bolinhas de papel como quem tem às mãos o bolo ainda quente fornalha desde os interiores, e dali o nosso produto bem acabado, revolvido o retento o retesado o ainda retido, o rebento –  trazer à mão a bolinha de papel que é desde as vísceras que ela nos chega e lançar, lançar, lançar a ver se se acerta o rosto dos que não tem a honra de dar a cara aos tapas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

POESIA DE AMOR – AMOR PELA POESIA
sem provas de que eros nos perdoa


Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Fernando Monteiro


Um grande problema talvez não mais da Poesia e sim dos poetas no Brasil, dos poetas que vão aparecendo cada vez mais cedo com seus livrinhos gestados na toxidade noturna do mercado editorial – esse que a todo custo anuncia a um país que não lê, que não lê sobretudo poesia, o Grande e Desmesurado Poeta para uso compulsório e descartável, pois bem, talvez o grande problema, que também muito contribui para que essa maquinaria opere observando leis, regras e etiquetas próprias, colocando à parte a promoção, circulação e recepção da Poesia, seja o fato de que os poetas entregues a seus transes festivos amam cada vez mais não a Poesia (essa substância maior a que até mesmo o Estado parece querer banir com suas instituições desestabilizadoras da cultura artística) e sim e tão somente a “sua” diluída e hibridizada poesia, conectada a seu próprio umbigo.


Poetas amantes de si mesmos. Velhos e jovens, que bem ao contrário do vinho, quase nunca melhoram com o passar dos anos, apenas envelhecem e pioram a safra e reprisam o ciclo decadente. Atados a uma mesma teia cada vez mais estranha à Poesia e a seu desenvolvimento como organismo relevante. E do mesmo modo que falar inglês não resolve e estabelece uma comunicação global, o declínio da Poesia mesmo nos ambientes de cultura aparentemente cultos não se reverte pelo anúncio e acúmulo diários dos nomes e dos respectivos “livros à mão cheia”. O mercado, neste caso, não de amor, mas de puro negócio, não é a melhor reação. Ele não tem como fecundar, renovar e mesmo ampliar as possibilidades de acesso e circulação, de incendiar corações e mentes com a Poesia, este Amor que quando se revela é sempre uma descoberta transformadora – “crescer, criar, subir”.


Amor pela Poesia. Nele e através dele, diz Mário Faustino, não há a imprecisão do “etc”. Com o surgimento da internet e da tecnologia digital esse Amor não prosperou. Ampliaram-se às escâncaras os egos invioláveis, isto sim. Os tributos ao “eu” e ao “meu”. Território de livre circulação a toda sorte de investidas, a Poesia perdeu espaço aí. Apequenada, reduzida energia à baixa intensidade, o mercado a colocou sob sua cúpula como objeto estático, dependente e isolado. E apenas pelo efeito ilusório das vitrines a Poesia aparenta ter sido prolongada em redes como os outros segmentos. Resulta disso é que raros livros quase despercebidos como este “Vi uma foto de Anna Akhmátova”, de Fernando Monteiro, a prorrogam desde uma ida banal à padaria na esquina, ao bar ou à praia até a viagem incomensurável para o outro lado do mundo, com a qual os grandes mercados turísticos das Festas, Feiras e Bienais do livro estão de passos trocados e por isso mesmo não têm como enlaçar as mãos num momento de afeto.


Inverossímil Viagem de Amor. Isto não apenas por um deslocamento subjetivo entre Brasil, Ucrânia e Rússia que esta escrita promove, sem medir nem desmentir a distância de uma Akhmátova e uma Clarice (lado a lado a outras articulações: Hilda Hilst, Adélia Prado, Olga Savary, Marize Castro) – não mais uma viagem pelo “mesmo” como tantas histórias a contar ou a representar dos dias adversos, aqui e alhures, não mais um “poema-clichê de sofrimentos/de poetas perseguidos”. Antes, uma poesia de deslocamentos, que reflete inclusive as condições de leitura de duas grandes escritoras em vários trânsitos de importância, tentando escapar sobretudo ao intimismo a que sempre são lançadas. Fernando Monteiro não ilustra quem tenha sido Anna ou Clarice. Ele relaciona. Parte de uma imagem a outra, sobrepondo-as, sem atá-las umas às outras. De uma Anna correlata a uma Clarice. Do Recife intercambiável a Tchetchelnik a Moscou a Paris a que lugar mais seja. Na foto como no poema o que se quer abordar são terras desconhecidas. Conectar o que está por vir. Nunca a paisagem, mas a vida como uma estranha jornada. “Você pode ver numa foto o que não está nela”.


Variações e revezamentos do olhar. A nuance. O conciso. O espelho. “Se eu errei ao nascer,/ela errou ao dar a luz./Se eu estou ainda aqui,/ela não está mais”. Ver Anna Akhmátova implica ver o impreciso que se é: episódios imperfeitos, evanescentes de calmaria e indiferença. Ainda que Clarice tenha flertado como jornalista com o mundo insípido da moda, não foi nunca como a mulher de um futuro ideal, utópico, lunar (“Princesa da Lua, por que você voltou?”), de certo como a sobrevivente desfavorecida num ambiente de cultura que nem mesmo hoje pode admitir uma “Esparta moderna”. A imagem de uma se conecta a outra, duas (quantas?) replicadas mulheres desmunidas de afeto, lançadas ao jogo de se prender e se soltar antes que se esgotem os prazos. Embaralhadas e dispostas a um mesmo combate. Escapar às ratoeiras domésticas da casa (apanhar depois de cozinhar bolos etc.) ou às ratoeiras das vitrines da vida moderna.


Clarice não podia ter saudade
de dois meses de vida em Tchetchelnik
na Ucrânia de árvores nacaradas.


De que poderia ter saudade Clarice? “da casa entre movelarias e sebos/vinda da Ucrânia para o coração/deste bairro de esquecidos”, “do centro da cidade onde viveu/a descoberta do mundo no Recife”, “de imigrantes deslocados”? Clarice-criança não tinha como saber que moveria esse mundo morro acima para o lado da modernidade. Essa Clarice de quem temos que ter saudade. Da adolescente que deu a ver a linguagem daí há pouco definida mundo afora como “clariceana”, pois escapa a um modo burocrático de lidar com a escrita no espaço público (jornalismo, universidade, diplomacia) onde a mulher ocupa funções anônimas, e ela nos chega muito mais como singularidade a se prorrogar do que como originalidade pueril. Quantas Clarices aí? (“ainda que vivas outra vida, não há saída”).


A casa ficou só. Ela reformou aqueles versos:
“Esta mulher está só”
virou:
“Esta mulher está no fim”.


De que vida poderia ter saudade Akhmátova se perdeu todas de antemão? “de Lev, o filho” que vieram buscar como o pai, sem acusação formal, sem julgamento, para ser morto? Uma mulher no fim das contas encadeada a tantos outros finais, a coisas que se partem sem conserto algum. Ela não tem escolhas: terá que engendrar a si mesma como poeta e ocupar um lugar nunca reservado à mulher. Desenfreada, irreverente, desconcertante – em posições de ataque e afrontamentos, ativa, que portanto prejudicou a si própria. Nos espaços codificados da guerra o êxito da mulher se duplica em um fracasso mais profundo. (“tantos poetas mortos,/tudo fazia crer/que algo andou errado/muito errado).


A Poesia é um esgotamento que se reveza e ramifica pelo corpo até o poema. Fernando Monteiro o inventa a seu modo – o modo do grande poeta que se põe a desfalecer, ele mesmo, no que escreve. Um poema longo, como almejava Mário Faustino e que Fernando acata, realiza e sai de cena, pois agora que vai escrever sequer pode escovar os dentes. Quede o poeta? Irreconhecível no odor ácido do livro. Pouco dele resta aí como autor, no livro de uma editora não comercial, de Fundação sem fundos, mas de gente atenta e sensível. Não fica de fora nem a gravata, sequer a foto de orelha. Tudo que se vê como fulgurações é Poesia. Amor precipitado que Fernando Monteiro nutre pelo livro que resolveu fazer e por todos os grandes livros que amou, entre eles um “muito velho”, “de capas vermelhas” PÉROLAS DA POESIA RUSSA “na lombada desbotada”. E se olhássemos bem de perto dentro dos olhos do poeta logo poderíamos ver Akhmátova e Clarice qual Ulisses numa viagem sem erros.


Ney Ferraz Paiva
Salgueiro - PE
Fernando Monteiro, Vi uma foto de Anna Akhmátova, Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2009.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Teatro-leitura
será que hoje o que ainda não sei que nome tem vai irromper e arrebatar, será?
João Gilbeto Noll, Harmada
Santiago do Chile, 1973 não é texto de dramaturgo, sequer de encenador ou homem de teatro – trata-se de um conto do escritor e filósofo André Queiroz, que o “Grupo de Dois” encena o labirinto inexaurível de leitura, sem que o fato de ir ao teatro corresponda a ir à biblioteca retirar um livro. Leitura como jogo interativo e explícito pra desorganizar as formas de expressão de um teatro que não leva em conta as sociedades da era digital, que mais faz palestra do que encena, mais refugia do que lança ao inferno, e depois de um mês em cartaz está fora do prazo de validade – por não ter como criar outra coisa à parte a essa máquina de encenar estática e sempre confiante nos Manuais de instrução. O texto “pra teatro” não é mais o ponto propulsor do ato cênico. Há outro ar em torno dele, nem do campo nem da cidade, que mesmo Brecht e Müller não souberam precisar, mas aí sufocaram antigos maneirismos e elementos. Santiago é o êxtase do deserto. A sufocação fica gravada em nossas feições. De um percurso árido. De vários patamares de tempo-espaço, sucessivos cortes, zonas e entradas. O ar fica especialmente abafado. O público chega, toma assento, “circula” nos domínios coletivos de uma escrita que avança par a par com a estranha órbita dos discursos de dor como resultado do mal que cada um pode fazer ao outro. Isto tanto pode estar em Rei Lear, de William Shakespeare, quanto nos textos-poemas pra vozes de João Cabral de Melo Neto (dentre eles Morte e Vida Severina, com que infelizmente seus encenadores ainda almejam alcançar uma eficácia social pra palavra encenada, sem que tal aspecto jamais tenha sido uma lei de funcionamento do texto). A questão por inteiro é que mesmo em seus poemas João Cabral encena a palavra que não pretende fingir nada – a forma pode ser atingida, se romper, mas a Palavra tem que permanecer intacta seja qual for o enredo. Santiago continua sendo um teatro da palavra que perpassa por essas linhas e se prorroga em suas nuances infinitas. Palavra dita por vezes em minucioso silêncio ou a plenos pulmões, gritos-sopros que não recorrem à metáfora pra ativar ali na sala quase escura um enredo que nos humanize ou dê consciência (sempre muito de acordo com o incentivo comercial dos patrocinadores). Seu encenador e também ator Tiago Fortes é quem nos dá essa versão alterada dos Manuais ao mudar as linhas de ataque destas “anotações” de dor. Menos até como teatro e mais, muito mais, como experimentação de estados de invenção, de sons e imagens desterritorializados – ondas de memória e lapsos que vão se alternando e variando em camadas sucessivas de vozes, como rasgos na pele em que se tenta remendar o que há anos ou há pouquinho se passou bem ali na tela onde se projetam as fadigas e os ultrajes do corpo, intensificando sempre o fato de que a protagonista não merece aquilo. Se por um lado o sofrimento dela não pode ficar encoberto, sequer os danos a sua vulnerabilidade, por outro lado, não se pode presumir daí algum reembolso, mesmo a vingança. O clímax aqui não traz a resolução do conflito. Talvez mesmo ele não exista de modo clássico e esteja presente como uma espécie de litígio pelo fato de que tudo aqui avança pra se constituir como “anotações” não só do que a protagonista sabia e vivia, mas do que todos sabem, ainda que dentro de cada um nada pareça despertar. A “leitura” de Tiago Fortes  da narrativa de André Queiroz é de que não há o Segredo. Todos sabem. Está diante dos olhos e mesmo se pode sentir na própria carne, metido aí como uma espécie de morte, extraordinariamente condensado. Seria este o elemento que faltava detectar? Ação a que se tem que recorrer pra se completar este jogo suspeito? Lembrar de lembrar o que se sabe?

ney ferraz paiva
salgueiro - pe outubro 2010 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CELEBRAÇÃO DAS MARÉS
Alexandre Bonafim
I
Um risco de veleiros em fuga
sempre foi o teu nome.
Arquipélagos de incandescentes pássaros
os teus olhos. Os frutos do sal,
a íris do sol na filigrana das águas,
os cardumes do outono, clamam em teus pulsos
a presença de um fogo vivo,
cicatriz de um oceano em fúria.


Sempre foi o teu nome as marés.
Em cada palavra do teu ser,
navegam barcos de pólen,
peixes de constelações ardentes.
Em cada silêncio dos teus gestos,
nasce o azul dos cavalos marinhos,
movimento dos remos singrando o mistério.


O teu nome sempre foi os promontórios,
as ilhas desvairadas pelo verão.
Sobre tua nudez repousam
a brancura das velas infladas,
a plena luminosidade do meio-dia.


Em teu destino os corais tramaram
a encantação das estrelas marinhas,
a memória dos búzios.
Essa é a convocação das marés:
fazer do teu rosto o destino das ondas,
a areia desfeita nas orlas.


No teu nome o sono das crianças
apascentou a cólera dos naufrágios.