quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

NAVEGANTE SEM NAVEGAGENS

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho
Alberto da Cunha Melo


Porto de Belém.


perdida em seu caminho
como perdi o meu
belém se inicia termina
cidade escassa fortuita

santa & pornográfica
entra nos meus poros
rói minha memória
lambe meus pés sujos
subcutânea necrose
que se diz cidade
que não tem cura

não começa cessa
não dispara sai pela culatra

fossem meus pés serpentes
que voam pra trás numa
viagem ao contrário de
congestionamentos sem fim

esquiva    cerco   queda

interditada reduzida em escala
a cidade lembra as ramificações
de uma árvore tombada
ventanias chuvas urubus

a cidade não me cabe expele
sem deixar vestígios
o traço do meu rosto

a cidade me amesquinha
dissipa animaliza
não começa alicia
não termina golfa
nutre meu câncer
navegante à deriva
torna-me motivo de mofa

pés gangrenados asas eclipsadas
enquanto o barulho o barulho
é a boca da cidade
pavoroso movimento de mandíbulas
dores gritos choros
terrificantes tormentos

mesmo se o acaso
entrasse no páreo
a chuva me devorava
beleza luz juventude
enterrado vivo na cidade
povoada de datas passadas
cremadas manhãs
que mais falta acontecer?


sem rumo certo
uma balsa cruza o Guamá
ou corre pelo ar
a céu aberto
navegagens
devastadas
como se a
revólver faca
esquecimento

além do fogo
que mais pode
crescer em
torno do rio? 

Belém, onde hoje é o  bairro da Cremação.


Ney Ferraz Paiva

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