terça-feira, 5 de maio de 2009

TIRO NO CORAÇÃO














o que se tornou o amor, para que um homem e uma mulher
saiam dele tão desmunidos, lamentáveis e enfermos,
e ajam e reajam tão mal, tanto no começo quanto no fim, numa
sociedade corrompida?
Gilles Deleuze, A imagem-tempo


Tiro no Coração, de Mikal Gilmore, não é nem de longe uma viagem em busca do tempo perdido – pelo estonteante fato de que o tempo para ele e sua família, o tempo que os uniu também os destroçou. E o que resulta de lembrança de tudo isso esbarra na pele de Mikal e seu irmão Frank Jr. como um insulto. Para eles – os sobreviventes, relembrar não os salva de nada. A dor é o único legado.

O livro conta a história da família como de uma terrível decepção. A família Gilmore (Frank, o pai, Bessie, a mãe, e os filhos Krank Jr., Gary, Gaylen e Mikal) no transcurso de 50 anos, mas que pode ser o de qualquer família hoje, uma vez que o enredo mistura os elementos banais da vida moderna e seus grandes buracos negros em qualquer tempo.

Mikal descreve a superfície sempre maquiada de certa família norte-americana, de origem nômade e mórmon, e de seus ritos sociais e seus subterrâneos; é a eles que Mikal desce, aos lugares tenebrosos das faces desmascaradas, e daí se põe a falar, ou melhor, tenta falar; ainda que conheça bem a história, esteve preso dentro dela, o que se escuta de verdade são gritos e balbucios; ele não tem como responder ao grande enigma proposto: o que torna um homem tão amargo a ponto de não servir para ser pai?

Frank Gilmore não se dava a mínima. Tinha as suas próprias prioridades. Seus segredos e temores sombrios. E tinha o alcoolismo Não podia conciliar seu mundo de trevas com uma família. Um mundo do qual ele não teve como escapar e acabou trazendo a todos para ele. Como imaginar um ambiente familiar onde depoimento como o que segue seja possível: “Eu não gostaria de ser criança de novo. Por nada neste mundo. Uma vez basta.” E ter que ficar aí, quando ficar é a última coisa a fazer. É então que se descobre que entre as múltiplas formas eficientes de se excluir o outro da sua vida, é que ambos fiquem juntos. “E para onde eu iria? Quem mais ia me querer? Fiquei porque não havia outra coisa a fazer.” Para a mulher, quais os vetores de saída?

Bessie Gilmore tinha bem a noção de seu emparedamento. Além de Frank, sua outra parte no mundo era a casa dos pais – uma casa da qual ela sempre tentou escapar desesperadamente. Do fanatismo rigoroso de um ambiente mórmon rural e de suas esperanças frustradas. Por isso mesmo tinha que reagir ao Frank, conviver com a calmaria e os sobressaltos do território que ele dominava e aí se por à espreita, defender a si e a seus filhos; um combate que resultava em perda diária, ano após ano, infinitamente maior do que ela podia suportar. Enquanto Frank viveu, ele fez o serviço devastador de tornar a todos bichos. Podia-se ter uma casa, um carro, comida e roupas. Podia-se até mesmo ir à escola e à igreja, mas era, ainda assim, uma vida de bichos. Por dentro da pele e no coração.

E foi bem aí que todos foram alvejados, no coração. Um tiro certeiro e aniquilador. Que fez de Gary Gilmore um nome para sempre ligado ao crime na América. Dele Mikal diz: “Sou irmão de um homem que matou homens inocentes”. A astúcia criminosa de Gary tornou pública sua tentativa bizarra de não escapar do que se é. Preso por matar dois jovens mórmons em junho de 1976, Gary foi condenado à morte. E aí, no espaço mínimo de uma cela, ele não se deixou acuar. Fora preparado a vida inteira para o papel.

Mikal foca os aspectos privados que poderiam ser as origens do pesadelo. Conta sua história no lugar de outra, não a conta para aplacar os seus nem os nossos males, apenas responde por ela e aí se mostra e desaparece. Ilustra seu almejado vazio com as fotos de todos os fantasmas, das casas mal assombradas e dos mortos vivos. Num nível, a palavra fatal, noutro, a imagem inumana. Tudo resumido ficam expostas as maneiras de morrer a cada dia, ainda válidas para estes tempos de pesadelos.


Ney Ferraz Paiva

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