terça-feira, 17 de novembro de 2015

UMA ÉPOCA EXTRAORDINÁRIA DO MUNDO ESTAVA POR TERMINAR

Considerações em torno do documentário
Estas Últimas Palavras ao Pé do Vesúvio



Estamos na fase de pré-produção: levantando informações nas cartas trocadas entre Clarice e Lúcio Cardoso para incluir no roteiro. Clarice era apaixonada por Lúcio, mas ele nunca correspondeu. Seguiram sendo amigos, sobretudo através das cartas que trocaram ao longo da vida. Morando em Belém, logo depois do lançamento de Perto do coração selvagem, Clarice recebeu de Lúcio a notícia de boa parte da crítica que saiu sobre o seu livro. E o impacto que isso exerceu sobre ela foi decisivo para definir seus impulsos como escritora rumo a coisas ainda mais potentes que ela realizaria. 

Ainda não foi definida a estrutura visual do documentário. Partimos de imagens de arquivos, fotografias em preto e branco em geral. Não sei se vamos partir para as entrevistas. Não gosto do estilo um tanto quanto reportagem para o documentário. Daí que vai depender muito do tipo de montagem, de como serão feitas as escolhas diante da possibilidade do digital, da sua condição experimental e manipuladora da estrutura visual. Eu sou apenas o roteirista do filme. Ainda não está definida a direção, são coisas ainda a se resolver, contatar, conversar, ver as afinidades com o projeto, que além do cinema tem evidentemente uma correlação decisiva com a literatura, inclusive, a que era feita em Belém naquele contexto. 

Tudo sobre Clarice é relevante. Não há como ficar indiferente a nenhuma faceta de sua biografia. E como leitor de Clarice, sempre me despertou interesse por esse aspecto – dela estar sempre em trânsito, e de um desse lugares de passagem, talvez o mais remoto – a sua Tartária longínqua – tenha sido Belém. Clarice fora educada para casar e ser mãe, e agora era apontada como a maior revelação literária do país por críticos de peso. Isso, de imediato, a paralisou. A empurrou para o limbo. Daí sua estada em Belém ter sido tão difícil e angustiante. Aqui ela precisou definir quem era e o que seria – e conseguiu. De Belém ela já sai com as primeiras anotações para O lustre, seu segundo livro.

Em Belém Clarice se recolheu. E no filme as cenas são pensadas a partir da força que esse minúsculo espaço exerce sobre ela. O roteiro é dividido em três partes – a primeira, a visita de Clarice ao Vesúvio, 1945 – depois, a estada de Clarice em Belém, 1944 – terceira e última parte, os efeitos de sua passagem pela cidade. Nesta parte, serão mostrados na tela o fascínio que ela exerceu sobre os autores locais e a admiração que alguns destes despertaram nela – um misto de fascínio e tensão que se acentuou ao passo em que a obra de Clarice foi se constituindo e se confirmando como extraordinária. Entre esses autores constam, Francisco Paulo Mendes, Paulo Plínio Abreu, Rui Barata, Dalcídio Jurandir, Mário Faustino, Max Martins, Benedito Nunes, Eneida, Olga Savary.

Eu penso em locações pela cidade, sim. Mas o que vai definir isso será o orçamento do filme. Penso em certos planos: Clarice num certo ponto da Presidente Vargas, fumando, entre transeuntes. Outro: ela na recepção do hotel, se isso ainda, for possível. Outro: ela atravessando a Praça da República, com o marido, a caminho do consulado, cujo prédio ficava na Oswaldo Cruz, e ainda hoje está lá, imponente...

Todo projeto cinematográfico impõe muitas parcerias. Mas considero que para o documentário, por lidar com aspectos factuais e ficcionais dos personagens e por não apresentar limites entre verdade e imaginação, a principal parceria é o livre acesso à documentação, aos acervos e arquivos – a esse patrimônio herdado pelas famílias, mas que, se percebido pela ótica do princípio público, nunca se restringe a uma história familiar – pertence a todos nós. Consultei as cartas trocadas entre Clarice e Lúcio, depositadas na Fundação Casa de Rui Barbosa, bem antes da publicação de Correspondências sair pela Rocco, em 2002. Um grande esforço compartilhado pela família de Clarice.

Mantenho com a obra da Clarice uma relação de permanente criação. Sou seu leitor e como poeta, seu intercessor. Agora mesmo acabo de lançar um livro no qual há dois poemas em torno dela, um inclusive que fala sobre sua permanência no Central Hotel, onde ela ficou hospedada de janeiro a julho de 1944. Quando essa história me impactou é difícil precisar, mas quero contá-la, abordá-la, dialogar com ela – e deixar que se transporte também para a vida das outras pessoas.

O documentário sempre aponta diretamente para um jogo com a memória que vai ser lida no presente. Nesse jogo se põe na mesa vestígios e detalhes encobertos, se abrem segredos, confrontam-se no espelho silhuetas. Essa é a importância: lançar-se aos desdobramentos de uma história que está toda aí, mas que precisa ser contada uma vez mais, num outro lampejo.    




Ney Ferraz Paiva