à procura de uma linguagem inabitável louca desgarrada é ela que traz água aos moinhos
o verão envelhece, mãe impiedosa (Sylvia Plath)
domingo, 17 de fevereiro de 2013
roupas usadas para vestir a áfrica
guardar um pouco para o telhado
do fardo de roupas
ou dos peixes guardar um pouco
do refugo do mundo
é assim por enquanto a vida
quem se importa
minha mãe eu não posso deixar
sem um telhado de zinco
uma muda de roupas usadas
para encobrir as vergonhas do mundo
ou um casaco de pele para os animais
ney ferraz paiva
sábado, 16 de fevereiro de 2013
SOLETRAR ADENSAR NÃO INTERPRETAR JOÃO CABRAL
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la
captar sua voz inenfática, impessoal,
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada,
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições d pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Certo está que poesia não educa - nem poeta é educador. Essa não é uma questão para João Cabral. Pelo que consta em sua biografia, ele nunca se pôs a falar a pedagogos. Acontece que ele, de alguma maneira, parece querer fazer uma inversão nas funções de poder, nas suas regras metodológicas. Ele declina da "pedra" sua carnadura feminina, sua fluição, sua voz. Estabelece um contraste, e mais, uma antítese entre o ambiente viril de quem aprende e o modo de abordagem de quem ensina. E quem saberá captar, aqui-agora, nestes Brasis e Espanhas, a música da "cartilha muda"? Soletrar. Adensar. Não interpretar. O agravo objetivamente feito contra o discurso. Gemidos ao invés de música/ gritos que escapam à representação /que reagem a qualquer significação. E para onde terá ido aquela semelhança, ou melhor, similitude atribuída ao discurso verdadeiro e falso por Hesíodo? Atos de pensamento, mais do que figuras retiradas do cotidiano através do olhar, de uma tagarelice do vivido. Seriam estas as lições? As visões? Participar do "escrevível" a partir de um olhar descentrado das formas reinantes da escrita, que tratam a todos como expectadores da história, habilmente negociada pelas moedas do certo e do errado, da lei, da justiça. Pelo que esses mesmos seriam os mecanismos revertedores da Máquina que tudo arquiva, empenhada em fazer proliferar uma unidade insustentável do discurso. A essa máquina outra - a máquina de comover (expressão de Le Corbusier), a que João Cabral não cessa de operar em O Engenheiro (1945). Fazedor de imagens insólitas, deformadas, sem nenhuma sublimação.
Ney Ferraz Paiva
sábado, 9 de fevereiro de 2013
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Henry Miller e Eve McClure, 1953, ano em que se casaram. |
PARA CONVENCER O ARTISTA A COMETER SUICÍDIO
Por Henry
Miller
– Detesto
pensar no que um artista sem recursos tem de enfrentar! – disse o doutor
Souchon. Não existe inferno pior, no meu entender. – Como toda grande cidade da
América, Nova Orleans está cheia de artistas morrendo de fome, ou quase. O
bairro em que moram vem sendo regularmente demolido e pulverizado pelas grandes
armas dos vândalos e bárbaros do mundo industrial. Gritamos contra o vandalismo
dos hunos, nossos inimigos de antanho, dos alemães, e, no entanto, em nosso
próprio meio, no último refúgio arquitetônico da América, o jardim de um mundo
que destruímos com nossas próprias mãos, o insidioso trabalho de destruição
continua. Ao ritmo em que estamos indo, dentro de cem anos dificilmente haverá
neste continente algum traço ou prova da única cultura que fomos capazes de produzir
– a rica cultura escrava do sul. Nova Orleans venera o passado, no entanto assiste
impassível aos bárbaros do futuro cínica e impiedosamente enterrarem o passado.
Quando o belo Bairro Francês não existir mais, quando todo o laço com o passado
tiver sido destruído, haverá prédios de escritórios limpos e estéreis,
monumentos e prédios públicos horrendos, poços de petróleo, chaminés, aeroportos,
cadeias, manicômios, hospitais de caridade, filas do pão, os cinzentos barracos
do povo negro, brilhantes esqueletos carros, trens enferrujados, comidas
enlatadas, lanchonetes, vitrines iluminadas a neon para inspirar o artista a
pintar. Ou, o que é mais provável, para
convencê-lo a cometer suicídio. Poucos homens terão coragem de esperar até os
sessenta anos para pegar o pincel. Menos ainda terão a chance de se tornar
cirurgiões. Quando um famoso dentista tem a audácia de dizer que para o homem
trabalhador os dentes – os dentes da própria pessoa – são um luxo econômico,
aonde estamos chegando? Logo psiquiatras e cirurgiões estarão dizendo: “Por que
preservar a vida se não existe razão para viver?”. Logo, por simples bondade
humana, estarão se juntando para formar uma sociedade da eutanásia com a
finalidade de eliminar aqueles que não se adaptam aos terrores da vida moderna.
O campo de batalha, ao lado do campo industrial, lhes fornecerá todos os
pacientes que forem capazes de atender. O artista, assim como o indígena, pode
se tornar tutelado do governo; poderá ter licença para zanzar por aí sem rumo,
simplesmente porque, assim como no caso dos indígenas, não temos coragem de matá-lo.
Ou talvez só depois de ter prestado “serviços úteis” à sociedade ele possa ter
permissão de praticar sua arte. Parece-me que estamos chegando a um impasse
assim. Só a obra de artistas mortos parece ter alguma atração ou valor para
nós. Os ricos sempre podem ser levados a dar apoio a mais de um museu; sempre é
possível contar com as academias para nos fornecer os cães de guarda e as
hienas; sempre se pode comprar os críticos que matarão o que é fresco e vital;
sempre haverá educadores que mal informarão os jovens quanto ao sentido da
arte; os vândalos sempre podem ser instigados a destruir o que é poderoso e
perturbador. Os pobres não conseguem pensar em nada além de comida e casa; os
ricos se divertem colecionando investimentos seguros que lhes são fornecidos
pelos demônios devoradores de cadáveres que comerciam com o sangue e o suor de
artistas; a classe média paga ingresso para ficar de boca aberta e criticar,
orgulhosa de seu conhecimento requentado da arte e tímida demais para defender o
homem que no fundo do coração ela teme, sabendo que o inimigo verdadeiro não é
o homem acima, que tem de bajular, mas o rebelde que expõe em palavras ou
tintas a podridão do edifício que eles, a classe média covarde, são obrigados a
sustentar. Os únicos artistas no presente que vêm sendo regiamente
recompensados por seu trabalho são os charlatães; entre eles estão não apenas a
variedade importada, mas também os filhos nativos que são capazes de levantar
uma nuvem de poeira quando se trata de questões reais.
O homem que
quer pintar não aquilo que vê, amas aquilo que sente não ter lugar em nosso
meio. Ele pertence à cadeia ou ao manicômio. A menos, como no caso do doutor Souchon,
que possa provar sua sanidade e integridade com trinta ou quarenta anos de
serviços prestados à humanidade no papel de cirurgião.
É esse o
estado da arte na América de hoje. Quanto tempo mais vai resistir? Talvez a
guerra seja uma benção disfarçada. Talvez, depois de termos atravessado mais um
banho de sangue, possamos dar atenção aos homens que procuram arranjar sua vida
em outros termos que não ambição, rivalidade, ódio, morte e destruição.
Talvez...
Pesadelo Refrigerado. Editora Francis, 2006.
Tradução de José Rubens Siqueira
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Por Charles
Baudelaire
Nessa última
visita a Richmond ele fez duas leituras
públicas. É preciso dizer uma palavra a respeito dessas leituras que
representam um grande papel na vida literária dos Estados Unidos. Nenhuma lei
opõe-se a que um escritor, um filósofo, um poeta, alguém que saiba falar,
anuncie uma leitura, uma dissertação pública sobre um objeto literário ou
filosófico. Ele aluga uma sala. Cada um paga uma contribuição pelo prazer de
ouvir emitir ideias e compor frases tais quais. O público comparece ou não.
Neste último caso, é uma especulação fracassada como qualquer outra especulação
comercial aventurosa. Apenas quando a leitura
é feita por um escritor célebre há fluência, e é uma espécie de solenidade
literária. Vê-se que essas são as cátedras do Collège de France postas à disposição de todo mundo. Isso faz pensar em Andrieux, em La Harpe, em
Baour-Lormian, e lembra essa espécie de restauração literária, que se fez após
o apaziguamento da Revolução Francesa nos liceus, ateneus e cassinos.
Edgar Poe
escolhe como objeto de seu discurso um tema que é sempre interessante e que foi
muito debatido entre nós. Ele anunciou que falaria do princípio da poesia. Existe há muito tempo, nos Estados Unidos, um
movimento utilitário que quer arrastar a poesia como o resto. Há poetas
humanitários, poetas do sufrágio universal, poetas abolicionistas das leis
sobre os cereais, e poetas que querem que se construam work-houses. Juro que não faço nenhuma alusão a pessoas deste país.
Não é culpa minha se as mesmas disputas e as mesmas teorias agitam diferentes
nações. Em suas leituras, Poe declara-lhes guerra. Ele não defendia, como
alguns sectários fanáticos insensatos de Goethe e outros poetas marmóreos e
anti-humanos, que toda coisa bela é essencialmente inútil; mas ele se propunha
sobretudo como objeto e refutação do que ele chamava espirituosamente a grande heresia poética dos tempos
modernos. Essa heresia é a ideia de utilidade direta. Vê-se que, de um
certo ponto de vista, Edgar Poe dava razão ao movimento romântico francês. Ele
dizia: nosso espírito possui faculdades elementares cujo objetivo é diferente.
Umas aplicam-se a satisfazer a racionalidade, as outras preenchem um objetivo
de construção. A lógica, a pintura e a mecânica são os produtos dessas faculdades.
E como temos nervos para aspirar os bons odores, nervos para sentir as belas
cores, e para nos deleitar ao contato dos corpos lisos, possuímos uma faculdade
elementar para perceber o belo; ela tem seu próprio objetivo e seus próprios
meios. A poesia é o produto dessa faculdade; ela se dirige ao sentido do belo e
não a um outro. É fazer-lhe injúria
submetê-la ao critério das outras faculdades, e ela nunca se aplica a
outras matérias senão àquelas que são necessariamente o alimento do órgão
intelectual ao qual ela deve seu nascimento. Que a poesia seja posterior e consequentemente
útil isso está fora de dúvida, mas não é esse seu objetivo; isso vem a mais!
Ninguém se surpreende que um mercado, um embarcadouro ou qualquer outra
construção industrial satisfaça às condições do belo, embora não seja esse o
objetivo principal e a ambição primeira do engenheiro ou do arquiteto. Poe ilustrou sua tese através de diferentes
trechos de crítica aplicados aos poetas, seus compatriotas, e por recitações de
poetas ingleses. Foi-lhe pedido a leitura do seu Corvo. É um poema do qual os críticos americanos falam muito. Falam
dele como de uma notável peça de versificação, de ritmo vasto e complicado, um
sábio entrelaçamento de rimas que satisfaz seu orgulho nacional um pouco
invejoso das proezas européias. Mas parece que o auditório ficou desapontado
com a declaração do seu autor, que não sabia fazer brilhar sua obra. Uma dicção
pura, mas uma voz surda, uma melopeia monótona, uma negligência muito grande
dos efeitos musicais que sua pena sábia tinha de certo modo indicado,
satisfizeram pouco aqueles que tinham pensado como uma festa a oportunidade de
comparar o leitor com o autor. Isso não me surpreende de modo algum. Com
frequência notei que poetas admiráveis eram execráveis atores. Isso acontece
muito com os espíritos sérios e concentrados. Os escritores profundos não são
oradores, e infelizmente é assim.
Obras Estéticas, Filosofia da imaginação criadora. Editora Vozes, 1993.
Tradução de Edison Darci Heldt
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