domingo, 4 de dezembro de 2016

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA 2




Clarice: "nasci para escrever"


A maioria dos escritores brasileiros encerra a carreira na noite de autógrafo. Sem se destinar ao sucesso e à fama, muito menos ao êxito, seu livro nasce e morre ali, sob os frívolos holofotes do azar. Desponta para o anonimato. E tudo pode se complicar ainda mais se o pretendente for poeta. Clarice Lispector era poeta, e tratou de adequar sua poesia aos moldes de uma prosa desestruturada e fragmentária – ela tomara consciência de que ser poeta, e mais: ser mulher nos anos 1940 (o mesmo continua valendo para os dias que correm?) é o início de um fim. Observando a carreira de Clarice, chega-se à conclusão de que ela falia a cada livro. Tudo bem, Clarice tinha a crítica a seus pés  amigos, jornais, revistas a que recorria para sobreviver. Seus lançamentos eram concorridos. Num tempo sem políticas públicas para a cultura e os famigerados incentivos, os leitores não estavam extintos. O ambiente artístico entre os anos 1950 e 1960 era espaço de pensamento e não estritamente de diversão, lazer, entretenimento. Livro e leitura nutriam-se da inspiração crítica moderna. Uma crítica radical da sociedade. Entretanto, não se trata mais de contrapor a isso o que temos, na verdade, o que tínhamos indagorinha, como se aquele tempo fosse o ideal de todos os tempos. Ao menos se pegarmos pelas bordas trate-se, afinal, do mesmo funcionamento das coisas. E é o que fica, é o que importa. Como o escritor se relaciona. O que quer. Que acontecimentos resultam daí. Que afecções...


Ney Ferraz Paiva

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